22.2.07

A epopeia dos Heike 平家物語

Esta é uma epopeia que foi escrita no séc. XIV e que relata o conflito entre os clãs Taira e Minamoto; no entanto o poema era anterior, pois tal como muitos outros poemas épicos, foi composto primeiro e transmitido oralmente, antes de ser passado a escrito. Ao longo do séc. XIII foram surgindo poemas sobre o assunto: a ascensão e queda de uma família que detivera tanto poder (os Taira) era um tema bem apetecível. Artistas itinerantes cantavam e declamavam, espalhando-se as estórias. Foi-se criando um verdadeiro ciclo, até que no séc. XIV foi compilada uma versão do que seria considerada a versão canónica do tema (um pouco como sucedeu com as lendas arturianas), embora numerosos episódios fossem deixados à margem. Formaram-se duas escolas de interpretação do tema em mosteiros (uma delas sobreviveu até aos nossos dias), sendo os intérpretes normalmente cegos.



Este tocava um tema com o Biwa (instrumento vagamente semelhante ao alaúde) e depois cantava os versos apropriados.
Fazendo um breve resumo do poema, são descritos uma série de acontecimentos políticos que se dão nos meados do séc. XII que levam primeiro à aliança entre os clãs Minamoto e Taira e depois à luta entre si, resultando numa vitoria provisória dos Taira; os minamoto são quase exterminados, sendo poupados dois jovens (Minamoto no Yoritomo e Minamoto no Yoshitsune) do clã principal minamoto. Estes crescem, reúnem os partidários da família e todos os descontentes contra o regime considerado opressivo dos Taira (liderados por Taira no Kiyomori que fora o arquitecto da rápida ascensão da sua família) e depois começam uma guerra civil (1180) com o apoio de um dos imperadores retirados. Dificuldades internas dos dois lados (a morte de Kiyomori e sua sucessão por um filho incompetente do lado taira, uma breve luta entre Yoritomo e parentes seus do lado minamoto além de maus anos agrícolas), levaram a um atraso das operações. Os taira foram recuando e cedendo terreno (mesmo que muitas vezes não se travassem batalha ou mesmo vencendo), até que decidiram no sul de Honshu (a ilha principal) recorrer a uma batalha marítima para esmagar os adversários.

Taira no Kiyomori por Kuniyoshi Utagawa, 1843-1845


O facto de terem maior experiência marítima, não terem hipóteses de retirar e um plano cuidadosamente preparado, deveria compensar a sua inferioridade numérica, mas a traição de um dos seus que revelou os planos e passou-se para o inimigo com os seus barcos levou à total destruição dos Taira (por combate ou suicídio).
A sociedade descrita no poema é profundamente complexa dadas as mutações que se estão a dar (a acção decorre na segunda metade do séc. XII embora sejam feitas referências a acontecimentos anteriores). O poema é em si reaccionário, pois não vê com bons olhos a tomada do poder pelos samurais, que vão perturbar o equilíbrio imemorial (vê-se assim que é um mundo muito diferente daquele que é descrito nos filmes de samurais, em que os guerreiros e os seus valores são o centro da sociedade). Os cortesãos monopolizavam os cargos e obtinham-nos pelas suas ligações familiares acrescido de redes de amizade (detentores de cargos, familiares imperiais, imperadores, imperadores retirados- pois era hábito ao fim de alguns anos estes abdicarem para se livrarem da rigidez da etiqueta, adquirindo maior liberdade de movimentos), ou pela sua mestria em artes importantes como o domínio da etiqueta, a caligrafia, a interpretação de um instrumento ou recitação de poesia.


Batalha do Rio Uji. por Chikanobu Toyohara, 1898


Uma vez obtido o cargo (digamos de ministro, ou governador) e recebendo-se os rendimentos, era nomeado um adjunto que exercia efectivamente o cargo e que tinha de se deslocar e governar. Como a hereditariedade era fundamental para se obter um cargo (embora as intrigas determinassem quem obtinha o quê), os “Busho” (guerreiros) provinciais estavam completamente sem hipótese de ascender mesmo que se deslocassem à capital, por não terem antepassados gloriosos, ficando sempre reduzidos a combater por ordens superiores. Esta é a sociedade considerada ideal pelo poema (várias vezes é lamentada a sorte de um cortesão ministro que é destituído e exilado por ter conspirado contra os Taira, apesar de ser um excelente tocador de flauta ou algo do género sendo substituído por um Taira que apenas se dedica ao cargo e a combater). Ora o ponto de vista destes era diferente dos cortesãos: se alguém beneficiava do seu apoio, devia ser totalmente devotado e não devia andar a mudar de fidelidade; se o fizesse era um traidor. Lógica simples, pragmática, mas que caiu mal nos meios cortesãos, habituados a intrigas subtis.


Kumagai e Atsumori por Sadanobu III Hasegawa, ca. 1950s


Os Taira rapidamente adquiriram os cargos-chave, apoiando-se na sua clientela militar, mas também se preocuparam em adquirir cargos de importância simbólica (ministro da direita, da esquerda, capitão de 1º, 2º, 3º grau, etc).


É preciso não esquecer, que os Taira (tal como os seus rivais, os Minamoto) eram de descendência imperial (com uns 300 anos) só que tinham-se ruralizado, perdendo assim toda a possibilidade de reclamar fosse o que fosse aos olhos dos Fujiwara e outros clãs cortesãos. Casaram membros seus com membros da família imperial (o imperador Antoku era filho de uma Taira).


De forma completamente diferente agiram os Minamoto: estes não quiseram saber dos cargos imperiais, bastando-lhes o domínio das armas, deixando os cargos que se tinham esvaziado de funções para os cortesãos. Este é já a sociedade dos filmes de Akira Kurosawa.Uma curiosidade: no livro aparece a referência a um Ashikaga (clã que dominou o shogunato do séc. XIV a XVI): a personagem terá mesmo existido ou será que foi colocada no poema para agradar aos senhores do séc. XIV?Já agora, fiquem a saber que os Heike eram os Taira (daí o nome das guerra Gempei entre os Genji- Minamoto e os Heike- Taira).

É dada enorme importância à cultura chinesa, e cada vez que se planeia uma mudança contra as tradições, é apresentado um exemplo da história chinesa (por vezes da japonesa também). E temos de ser justos: embora a visão do mundo seja reaccionária, o poema não começa a denegrir sistematicamente os que são criticados e eles apresentam os seus motivos que são perfeitamente válidos e não caricaturas. Os Taira caem devido aos seus pecados (subiram mais do que deviam graças à bondade imperial- e aí o poema “esquece” a força das armas- abusaram da sua posição apesar da bondade de alguns membros como Shigemori), o seu destino está traçado devido ao Karma.

Não é uma epopeia guerreira: embora sejam descritas batalhas, não é feito o recitar interminável de espadeiradas e feridas como no Beowulf ou a Ilíada; mais depressa se descreve a roupa de um general. É um poema que tinha que agradar a vários públicos e não apenas a samurais.

Links de interesse:

Download do Heike Monogatari (original):http://etext.lib.virginia.edu/japanese/heike/heike.html

Abordagem ao livro com algumas explicações e resumos de capítulos (inglês):

Fabiano

16.2.07

Genji-Monogatari 源氏物語

A era de Heian (平安時代, Heian-jidai), ficou marcada pelo início da administração militar do Império após as célebres disputas entre os clãs de nobres guerreiros - Taira平 e Minamoto源 - depois da derrota dos Fujiwara藤原. O caos proliferava ainda pois a luta entre os clãs não fora de curta duração culminando no extermínio dos Taira, em 1185, altura em que morreu também o pequeno imperador Antoku-Tenno.
Como é natural, todo este ambiente aparece reflectido na literatura deste tempo.

Duas das obras mais importantes do período foram escritas por damas da corte, Murasaki-Shikibu (紫 式部 973 – 1014 ou 1025) e Seisho-Nagon. Destaque para o facto de que o papel da mulher a partir deste momento começa a ganhar um grande relevo no domínio da literatura e sobretudo da poesia, acabando com a despersonalização e submissão ao plano social.
As duas obras de destaque do período são «Genji-Monogatari» e «Makura-no-Soshi».
Estas obras oferecem, nas palavras de Wensceslau de Moraes “os trechos mais sedutores da prosa nipónica”.
Abordarei aqui a primeira novela japonesa, «Genji-Monogatari» ou 源氏物語.


Ilustração do cap. 20 – 朝顔 Asagao ("The Bluebell")

Datada do fim do século X, é uma obra de alto valor literário e um trabalho de ficção em que a realidade sobreleva a imaginação através da narrativa palpitante da descrição das aventuras sentimentais de Murasaki-Shikibu.
As subtilezas apontam para valores consolidados e para uma grande capacidade de observação através da qual é contada a história de Genji.
O livro conta a história de um príncipe sempre metido em amorosas aventuras aristocráticas mas que, após o período de boémia, troca os prazeres efémeros e carnais pela meditação budista.

A acção da novela divide-se em cinquenta e quatro capítulos decorrendo num ritmo descritivo que denota uma atitude psicológica muito atenta – característica essencial da autora. Assim ela faz descrições da vida quotidiana da corte e tende para as descrições sentimentais das paixões que submergiam o seu espaço.

Em termos de estrutura, o romance está tradicionalmente dividido em três partes globais: as duas primeiras tratando de assuntos da vida de Genji e o último falando dos primeiros anos do descendente de Genji (Niou e Kaoru). Há também outras transições ao longo dos capítulos que são sempre agrupados separadamente e cuja autoria é por vezes questionada.

Deixo aqui a lista dos capítulos com uma tradução em inglês feita pela Royall Tyler translation, com links úteis para mais informações. Convém ter em conta que não se sabe ao certo quando é que os capítulos adquiriram títulos. Algumas reedições contêm títulos alternativos para alguns capítulos.
Aqui fica:

桐壺 Kiritsubo ("Paulownia Pavilion")
帚木 Hahakigi ("Broom Tree")
空蝉 Utsusemi ("Cicada Shell")
夕顔 Yūgao ("Twilight Beauty")
若紫 Wakamurasaki or Waka Murasaki ("Young Murasaki")
末摘花 Suetsumuhana ("Safflower")
紅葉賀 Momiji no Ga ("Beneath the Autumn Leaves")
花宴 Hana no En ("Under the Cherry Blossoms")
葵 Aoi ("Heart-to-Heart")
榊 Sakaki ("Green Branch")
花散里 Hana Chiru Sato ("Falling Flowers")
須磨 Suma ("Suma"; a place name)
明石 Akashi ("Akashi"; another place name)
澪標 Miotsukushi ("Pilgrimage to Sumiyoshi")
蓬生 Yomogiu ("Waste of Weeds")
関屋 Sekiya ("At The Pass")
絵合 E Awase ("Picture Contest")
松風 Matsukaze ("Wind in the Pines")
薄雲 Usugumo ("Wisps of Cloud")
朝顔 Asagao ("Bluebell")
乙女 Otome ("Maidens")
玉鬘 Tamakazura ("Tendril Wreath")
初音 Hatsune ("Warbler's First Song")
胡蝶 Kochō ("Butterflies")
螢 Hotaru ("Fireflies")
常夏 Tokonatsu ("Pink")
篝火 Kagaribi ("Cressets")
野分 Nowaki ("Typhoon")
行幸 Miyuki ("Imperial Progress")
藤袴 Fujibakama ("Thoroughwort Flowers")
真木柱 Makibashira ("Handsome Pillar")
梅が枝 Umegae ("Plum Tree Branch")
藤のうら葉 Fuji no Uraha ("New Wisteria Leaves")
若菜 I Wakana: Jo ("Spring Shoots I")
若菜 II Wakana: Ge ("Spring Shoots II")
柏木 Kashiwagi ("Oak Tree")
横笛 Yokobue ("Flute")
鈴虫 Suzumushi ("Bell Cricket")
夕霧 Yūgiri("Evening Mist")
御法 Minori ("Law")
幻 Maboroshi ("Seer")
匂宮 Niō no Miya ("Perfumed Prince")
紅梅 Kōbai("Red Plum Blossoms")
竹河 Takekawa ("Bamboo River")
橋姫 Hashihime ("Maiden of the Bridge")
椎が本 Shīgamoto ("Beneath the Oak")
総角 Agemaki ("Trefoil Knots")
早蕨 Sawarabi ("Bracken Shoots")
宿り木 Yadorigi ("Ivy")
東屋 Azumaya ("Eastern Cottage")
浮舟 Ukifune ("A Drifting Boat")
蜻蛉 Kagerō ("Mayfly")
手習 Tenarai ("Writing Practice")
夢の浮橋 Yume no Ukihashi ("Floating Bridge of Dreams")
Há registos noutras obras acerca da personalidade sensível e delicada da escritora. Um diário seu com poesias que retratam as suas vivências e as suas viagens foi largamente apreciado pelos aristocratas ao longo das seguintes épocas. Este tipo de literatura sentimentalista teve um grande sucesso. Outras escritoras célebres do mesmo período são, por exemplo, Izumo Shikibu 和泉式部, esposa de um alto funcionário imperial, autora de um “Diário” (Nikki), ou Sanuki-no-Naisi que publicou o “Dama de Honor Sasuki”, etc. Estas produções literárias podem ser incluídas no género do ensaio, pois possuem tanto poesia com prosa, numa combinação muito elegante e reúnem uma série de pensamentos, reflexões sobre ambientes nas suas dissertações intimistas.



Curiosidades:
Download do E-text do Genji-Monogatari (original) http://etext.virginia.edu/japanese/genji/
Adaptação cinematográfica http://www.imdb.com/title/tt0295455/
Adaptação para Anime http://www.abcb.com/genji/index.htm
O diário de Murasaki Shikibu (inglês) traduzido por Annie Shepley Omori and Kochi Doi, introdução por Amy Lowell. Boston and New York: Houghton Mifflin Company, 1920, pp. 69-145. : http://digital.library.upenn.edu/women/omori/court/murasaki.html


Sara F. Costa

13.2.07

Murakami Haruki 村上春樹

Nasceu a 12 de Janeiro de 1949 na cidade mais tradicional do Japão, Quioto. É um dos mais conhecidos escritores japoneses da actualidade publicando vários best-sellers e colecções de contos. Apesar de ter nascido em Quioto, Murakami Haruki, viveu a maior parte da sua juventude em Kobe. O seu pai era filho de um monge budista e a sua mãe vinha de uma família de comerciantes de Osaka. Ambos ensinavam literatura japonesa.

Estudou literatura grega na Universidade de Waseda (Soudai), onde conheceu a sua mulher Yoko. Ainda nos tempos de juventude o seu primeiro trabalho foi numa loja de discos (exactamente como acontece com um dos personagem principais, Toru Watanabe do livro Norwegian Wood). Antes de terminar os estudos, Murakami abriu um bar de jazz "Peter Cat (Gato Pedro)" em Tóquio, que funcionou entre 1974 e 1982.

Em 1986, após o enorme sucesso do seu romance "Norwegian Wood", uma história subtil, encantadora, profunda e muito sensual de um amor destinado à tragédia.deixa o Japão para viver na Europa e América, mas regressou ao seu país em 1995 por altura do terramoto de Kobe, onde passou a sua infância, e do ataque no metro de Tóquio de gás sarín que a seita Aum Shinrikyo (A Verdade Suprema). Mais tarde Murakami escreveu sobre ambos os acontecimentos. Em "Underground", Murakami compõe as entrevistas que realizou a dezenas de vitimas do gás sarin e a vários membros da Aum Shinriko, tecendo uma narrativa em que procura compreender a relação entre o atentado e a mentalidade japonesa.

A ficção de Murakami, que alguns a colocam na literatura pop japonesa, é humorística e surreal, e ao mesmo tempo reflecte a solidão e a ânsia de amor que de alguma forma consegue comover tanto os leitores orientais como os ocidentais. De destacar a influência dos autores que traduziu: Raymond Carver, Francis Scott Fitzgerald, Raymond Chandler ou John Irving e os quais considera os seus maestros.
Outra das características que encontramos nos títulos de Murakami são as referências musicais, como Dance, Dance, Dance (The Dells), Norwegian Wood (Beatles), ou South of the Border, West of the Sun (Nat King Cole). Este gosto pela música aparece em toda a sua obra.
No final do ano de 2005, Murakami publicou uma colecção de historias curtas intitulada Tokyo Kitanshu (traduzindo livremente como "Mistérios Toquianos"). Recentemente publicou uma antologia de histórias curtas "Histórias de Aniversários", que inclui histórias de muitos escritores anglo-saxónicos. Em Portugal foram editados estes livros:
- Norwegian Wood (2004)
- Sputnik, Meu Amor (2005)
- Crónica do Pássaro de Corda (2006)
- Kafka à Beira-Mar (2006)
- Underground - O Atentado de Tóquio e a Mentalidade Japonesa (2006)

Fernando Ferreira

5.2.07

Hōjō no Umi 豊饒の海

Kimitake Hiraoka, mais conhecido como Yukio Mishima, figura controversa das letras nipónicas do século XX, acabou Tennin Gosui (A Ruina do Anjo), último volume da tetralogia Hōjō no Umi (O Mar da Fertilidade), na madrugada de 25 de Novembro de 1970. Horas depois cometeria o suicídio ritual do Bushido no Ministério da Defesa em Tóquio, perante o olhar espantado do Comandante das Forças Armadas japonesas, sequestrado por Mishima e os membros do seu grupo Radical Tatenokai (A Sociedade do Escudo).

Hōjō no Umi é um dos mais completos sistemas de auto-análise encontrados na literatura mundial do Século XX, espelhando a vida, física mas também interior, de um dos escritores mais controversos do século XX. Mishima, nessa altura já um escritor aclamado não só no Japão, como também nos Estados Unidos e na Europa, sobretudo pelo 'auto-biográfico' Kamen no Kokuhaku (Confissões de uma Máscara) de 1948, encontrava-se há já alguns anos numa constante luta estética com o seu corpo físico (Mishima tornou-se um atleta depois dos 30 anos, praticando de forma maniaca vários desportos e sendo um mestre de Kendo), com a sua relação com uma 'morte heróica', que perseguia insistentemente, e sobretudo numa busca espiritual para alicerçar a sua complexa individualidade. Hōjō no Umi foi escrito durante 1964 e 1970, sendo a obra que Mishima escreveu de forma a explicar toda a sua personalidade, tentando de alguma forma 'apagar' os seus anteriores escritos, marcados por um Romantismo ocidental, que gerou tanto fascínio como repúdio junto dos leitores e dos académicos nipónicos.

Os quatro volumes do Mar da Fertilidade descrevem a vida de um advogado, Xiguecuni Honda, obsecado em encontrar a reencarnação de um amigo de infância, Quioáqui Matsugae, depois da sua trágica e romântica morte.


Haru no Yuki (Neve de Primavera), o primeiro volume, descreve as hesitações e caprichos do frágil Quioáqui, sempre observados por um racional e metódico Honda, até à sua morte, causada pela recusa de abdicar do amor a uma amiga de infância, que Quioáqui tinha desprezado anteriormente de uma forma visceral, após esta ter sido prometida ao Imperador e posteriormente aderido a um convento.

Honba (Cavalos em Fuga), apresenta-nos um Honda já adulto e com uma carreira promissora, em constante busca para descobrir a 'verdade' sobre o paradeiro espiritual do seu amigo de infância, encontrando a reencarnação de Quioáqui em Xigueiuqui Ínuma, um jovem idealista praticante de Kendo, apostado em viver a sua vida de uma forma heróica para restablecer os 'velhos tempos' da grandeza adquirida através do rígido Código do Samurai. Ínuma, que também tem uma morte trágica e heróica, conduz o leitor, através da presença do 'omnipresente' Honda, pelo pensamento e modo de agir de muitos dos vários grupos e irmandades conservadores, normalmente sediados em escolas, que marcaram os conflitos políticos antes da Segunda Grande Guerra, oferecendo um complexo retrato de uma parte da sociedade, conservadora e ainda presa ao código de conduta de um Japão já desaparecido na Revolução Industrial e que se recusava a abdicar das formas mais patrióticas da tradição Xintoista, que depois teria o seu apogeu com a propaganda de guerra.


Akatsuki no Tera (o Templo da Aurora), continua a 'saga' de Honda, que neste terceiro volume, procura de uma forma insistente o alicerce das suas teorias de reecarnação ue permitiriam re-encontrar o seu amigo de infância, tornando-se um pesquisador ávido do Budismo, que o leva em romaria até Benares, na India, já durante a Grande Guerra, de forma a conseguir desocultar a presença de Quioáqui, aparentemente agora presente através de uma sensual princesa Tailandesa. Neste volume, talvez o mais 'isotérico' dos quatro sem no entanto perder o seu pendor 'intimo'e muitas vezes erótico de toda a série, Mishima descreve todo um sistema de crença que marcou toda a última década da sua vida, que culminou com o seu suicídio, dando um retrato realmente perturbante do escritor em todo o seu fulgor sinbólico e estético, que se sentirá com o culminar da história de Honda, em Tennin Gosui.

Tennin Gosui (A Ruína do Anjo) é um apógeu caótico da história, quando um já ancião Honda, fisicamente decadente e cada vez com mais dúvidas existênciais, apadrinha um jovem faroleiro, Toru Iasunaga, na desesperada procura. Embora a busca de Honda aparente ter sido satisfeita, Toru, que se vai revelando primeiro como um jovem promissor e depois como uma criatura calculista, densa e caprichosa, leva o já debilitado Honda a reencontrar, já no final da história, a velha monja, outrora o grande amor de Quioáqui, para confirmar que toda a sua volátil busca foi apenas uma deabulação entre impossíveis certezas, num mundo com pouco valor existêncial e que sofre convulções niilistas, onde tudo passa pela vida humana sem qualquer garantia de ficar.

Lirismos à parte, os quatro volumes do Mar da Fertilidade descrevem de uma forma única todas as imensas vivências interiores de Mishima, descevendo as suas crenças religiosas, estéticas, físicas e existênciais de uma forma que tem tanto de fulgurante como de complexo e incerto, correndo o leitor por um mundo pessoal com uma profunda angústia, apenas para chegar a conclusões existenciais alicerçadas no vazio Zen.


Mishima, que deixou estes quatro volumes como um espelho da sua personalidade, revelada através das várias personagens que enchem os quatro volumes, nunca conseguiu, após a sua morte, um reconhecimento académico, muito devido às suas 'excêntricas' actividades (chefe de um grupo extremista de contornos estéticos Nazis, actor, modelo para fotografias que tem tanto de tétrico como de erótico), e afastou potênciais leitores pela sua conotação com um universo homosexual, prontamente reclamado pelas comunidades Gay ao redor do mundo.

Mas de facto, toda a obra de Mishima está para lá de qualquer conotação fascista ou homosexual explícita, sendo esta tetralogia em especial, uma reflexão existêncial da vida de um escritor, que viveu as problemáticas do Século XX japonês, até aos anos 60, tendo sempre em fundo os vários momentos chaves, desde as reformas da época Meiji e a resistência do nacionalistas no início do século, os incidentes políticos internos, marcados também pela permanência do Japão na Manchuria, a 2ª Guerra Mundial e posterior ocupação americana e terminando nas constestações e conflitos entre os conservadores e a crescente adesão dos estudantes aos ideários comunistas, numa sociedade que já se afirmava num fulgor capitalista.

Yukio Mishima é um autor que é necessário redescobrir, agora que são assinalados os 35 anos da sua morte, de uma forma despretenciosa e sem as condicionantes geradas ao longo destas últimas décadas.

Hōjō no Umi (O Mar da Fertilidade), foi editado em português entre 1986 e 1988 pela Editorial Presença, na sua colecção Novos Continentes.



Nuno Barradas, Bitlogger

2.2.07

O lirismo de Manyoshu

Viva!
Agora que o período de exames finalmente acabou, será possível continuar a viagem pela história da literatura japonesa com mais constância. Ainda que o blog por vezes tenha momentos de menor actividade, o projecto continua vivo para podermos desfrutar do aprofundamento nesta cultura que tanto nos fascina. Escrevo hoje sobre os primórdios da poesia nipónica.


Em plena era de Nara奈良時代 no período, portanto, de 710 a 794, depois do “Nihongi”, a literatura japonesa foi ampliada com um grande livro de poesia, “Manyoshu” 万葉集 (Colectânea de Dez Mil Folhas). Considerada a criação poética de maior peso no que diz respeito à história primordial da literatura japonesa, esta antologia reúne, em vinte tomos, 4496 fragmentos de poemas, dos quais 4173 do género Tanka ou Uta e os restantes pertencentes ao grupo Nagauta.

O Tanka é um poema curto, consta de trinta e uma sílabas, com o ritmo de 5-7-5-7-7, designando-se os três primeiros versos (5-7-5) por kaminoku (estrofe de encabeçamento) e os dois últimos (7-7) por shimonoku (estrofe de remate), notando-se entre ambos um contraste acentuado que produz efeitos sensíveis de fonética.



Nagauta (poema longo) é uma espécie de ode com um número limitado de estrofes, cujo ritmo tem por base a correlativa de cinco e sete sílabas, pois é composto sempre na cadência de 5-7-5-7-5-7, caiu no entanto em desuso.

A poesia lírica, frequentemente conhecida por Waka和歌, designa em japonês a “poesia breve”.

Tanka, contudo, conseguiu um enorme reconhecimento e pode ser encontrada nos diários e nas cartas íntimas de amigos. É daí que advém o enorme prestígio que assinala entre as restantes, a antologia “Manyoshu”, constituída, na maior parte, por tankas, enquanto as nagautas são imitações de um género proveniente da China.

Muitas outras antologias eram divulgadas entre o povo, como é o caso da famosa “Hiaku-ninisiu” (Colecção de Cem Poemas), atribuída ao lendário poetca Ogaki, mas a Manyoshu é uma obra gigantesca de poesia japonesa e incide com uma fiel exactidão o ambiente dos recuados tempos em que viveram e sonharam os Yamabno-Akahito, Otomo-Yakamochi entre outros, que, tal como estes, foram considerados mestres.

Nas suas páginas encontramos a sempre incontornável temática do amor, um misto de erotismo e paixão em oníricas e elaboradas fantasias, um ritmo sempre na procura do gracioso e do harmónico, e há ainda espaço a reflexões em diálogos onde nos são mostradas as preocupações humanas e sentimentais de imperadores, príncipes, cortesãos que na altura desenvolviam a estética poética.

O despertar da poesia que encontrou em Manyoshu o seu topo, foi gerador das engrenagens de desenvolvimento da literatura. Com a nacionalização do método de escrita, os novos meios de expressão permitiam aos intelectuais concretizar as suas ideias e observações em obras de estilo e de maior alcance em termos artísticos, constituindo já a passagem humana e as inquietações do espírito encaradas como preocupação dominante. O advento da Era de Heian coincide com um período de efervescência literária, progressiva e característica, que culmina nas obras dos clássicos.


Links de interesse:

Download do Manyoshu (original):
http://etext.virginia.edu/japanese/manyoshu/

Mais sobre Otomo-Yakamochi
http://www.asahi-net.or.jp/~sg2h-ymst/index_e.html

Site muito bom sobre poesia clássica japonesa, com algumas traduções de poemas para o inglês:
http://www.classical-japanese.net/


Sara F. Costa