19.5.07

Serpentes e Piercings


Hitomi Kanehara 金原 ひとみ



Devo dizer-vos que o li de um fôlego. São só 120 páginas, é verdade. Mas a escrita é escorreita e o clima que cria algo assustador. Durante a noite, julguei ter febre, o que seria fácil, dado estar com uma carga de gripe tremenda. Mas não era febre dessa, era febre provocada pela leitura.O livro chama-se “Serpentes e Piercings” e é escrito por uma jovem japonesa, Hitomi Kanehara. Fixem o nome, vale a pena. Saiu de casa adolescente, aos 11 anos deixou a escola, viveu como quis, começou a escrever e a enviar por mail ao pai o que ia escrevendo. Este, que era tradutor de profissão, foi dando conselhos e burilando ao longe a escrita. Aos 22 anos escreveu “Serpentes e Piercings” que ganhou o prémio literário mais importante do Japão. Traduzido em 20 línguas, vendendo milhões, dizem que se trata de um livro de culto. Não sei. Sei que o li e me marcou profundamente.




120 páginas de permanente angústia, mas de uma angústia que se distância muito da nossa ocidental angústia. Aqui há uma corrida para o abismo, mas uma corrida que se passa nos "bas fonds" de Tóquio, por entre desempregadas e "gangsters", entre "barbies" e "punks", mas com uma elegância de comportamento que por vezes surpreende. A violência física e psicológica é a maior, mas nada se passa sem um toque de elegância. Elegância, será o termo? Faz-me lembrar os filmes da minha infância, Fu Manchu e quejandos, que matavam e torturavam com as mãos sobre o peito e um sorriso mefistofélico nos olhos. Aí havia ironia, aqui há apenas desespero. Acredito que rapidamente passe a cinema: a escrita é altamente visual, pede imagens.


Lui tem dezanove anos, trabalha esporadicamente como “acompanhante”, é profundamente rigorosa e cumpridora no seu trabalho, mas nada a entusiasma na vida. É considerada uma “barbie”, até encontrar Ama, um jovem feio e magro, num bar "punk". Ele tem a língua bifurcada, e tatuagens no corpo. Um dragão. Ela fica seduzida por esse rapaz e vai com ele. Para a cama e para a casa de Shiba, que a prepara para ter igualmente a língua bifurcada. Mas Shiba leva-a também para a cama, e para relações sadomasoquistas que têm a dor e a morte como horizonte. Lui deixa quase de comer e bebe. Bebe sem parar.




São jovens a que a normalidade da vida pouco diz e que só no diálogo com a dor mais intensa se sentem vivos. Esta relação a três tem rápido desfecho mas revela-se traumática. Para os protagonistas desta aventura de vida sobre o fio da navalha, mas também para nós, simples leitores. O romance de Hitomi Kenehara não nos larga a cabeça e a incomodidade é total. Mas a escrita é realmente fascinante, límpida, na sua transparência, suave, na forma como desliza, forte e intensa, na imaginação ou vivência que destila, mas elegante e ágil no estilo. Ruy Murakami disse: “Uma interpretação radical do nosso tempo.” É verdade. Mas que tempo é este?





Dois excertos de “Serpentes e Piercings”:


(..) Peguei na mala para me vir embora e depois Shiba-san virou-se subitamente para mim. Parei.- O que foi?- Acho que sou capaz de ser um filho de Deus - disse ele sem mudar de expressão.- Filho de Deus? Isso não é o nome de um filme reles de série B?- Não. Pensa nisso. Deus só pode ser um sádico, para ter dado vida às pessoas.- Então estás a dizer que a Maria era masoquista.- Sim, acho que sim - murmurou Shiba-san, e voltou-se de novo para a prateleira. Peguei na mala e saí de trás do balcão.- Queres comer alguma coisa antes de ires?- Não, o Ama deve estar a chegar a casa.- Está bem. Então depois falamos - deu-me uma palmadinha na cabeça. Eu segurei-lhe no braço direito e acariciei o Kirin.- Vou fazer-te um desenho fixe - disse ele.Sorri, acenei e saí. Lá fora, o Sol estava a pôr-see o ar era tão fresco que quase sufoquei. Apanhei o comboio até casa de Ama.



O passeio de lojas, da estação até casa, estava demasiado cheio de famílias. Na verdade, o som de todas aquelas vozes deu-me von­tade de vomitar. Uma criança embateu contra mim e a mãe fingiu não reparar. Mas eu fitei o miúdo, até que ele ergueu os olhos e me viu. Quando o nosso olhar se cruzou, juro que ele estava quase a chorar, por isso limitei-me a abanar a cabeça num gesto de desaprovação e continuei a andar. Não queria viver neste universo. Queria viver temerariamente e não deixar para trás nada a não ser cinzas, neste mundo sombrio e monótono.(…) Afinal de contas, não fazia sentido estar à espera de uma solução quando nem sequer tinha um proble­ma. A vida parecia-me vazia, mais nada. Acordava de manhã, despedia-me de Ama, depois voltava a adormecer, praticamente todos os dias. De vez em quando, saía e trabalhava um pouco, às vezes ia fazer sexo com Shiba-san ou encontrava-me com amigos, mas, fizesse o que fizesse, acabava sempre por me sentir em baixo. Quando Ama chegava a casa, à noite, saíamos para jantar e partilhávamos uma travessa de qualquer coisa, regada com várias bebidas. Depois voltávamos para casa e continuávamos a beber. Pen­sei se estaria a tornar-me alcoólica. Ama também estava preocupado comigo.




Andava sempre de roda de mim e fazia o que podia para tentar animar-me, falando excitadamente sobre várias coisas. Depois, quando via que não resultava, desatava a chorar, per­guntando «Porquê? Porquê?» e dizendo uma e outra vez que se sentia magoado e zangado.Vê-lo assim dava-me vontade de corresponder aos sentimentos dele, mas, sempre que uma peque­na semente de esperança ganhava raízes dentro de mim e começava a crescer, era esmagada por uma forte descarga de auto-desprezo. Em suma, não havia simplesmente luz. A minha vida e o meu futuro eram negros como breu e eu não conseguia ver nada ao fundo do túnel. Não que antes disso esperasse gran­des coisas para mim, simplesmente agora conseguia imaginar-me claramente a aparecer morta numa sar­jeta qualquer, e nem sequer tinha energia para me rir destes pensamentos.




Pelo menos, antes de conhe­cer Ama, sempre estivera preparada para vender o meu corpo se as coisas chegassem a esse ponto. Mas agora não conseguia forçar-me a fazer mais nada senão dormir e comer. Na verdade, acho que prefe­ria morrer do que sair com homens de meia-idade nojentos. Não sei o que seria melhor - trabalhar como prostituta para viver, ou morrer para não ter de trabalhar como prostituta?



Diria que esta última alternativa seria a escolhida por uma mente saudá­vel, mas, por outro lado, estar morto não tem nada de saudável. Seja como for, dizem que as mulheres sexualmente activas têm melhor pele. Não que eu me ralasse muito com a minha saúde.No dia em que alarguei o buraco na língua para um calibre quatro, deitei muito sangue e não conse­guia forçar-me a comer, portanto bebi apenas cer­veja. Ama disse-me que eu estava a apressar dema­siado o buraco, mas não me importei - eu estava com pressa. Claro, não estava propriamente a tentar cum­prir um prazo, nem tinha nenhuma doença termi­nal. Simplesmente tinha a sensação de que o tempo estava a esgotar-se. Talvez haja alturas na vida em que as coisas têm de ser apressadas.- Alguma vez sentes que queres morrer? – perguntou Ama do nada, uma noite, quando voltávamos para casa depois de jantar.- Constantemente – respondi.










“Serpentes e Piercings”, de Hitomi Kanehara, Ed. Caderno.




Lauro António

13.5.07

Kafka à Beira-Mar

Haruki Murakami村上春樹

Ergues as mãos diante dos teus olhos, mas não tens luz suficiente para ver. Está demasiado escuro. Tanto dentro como fora de ti.


É um livro sobre a condição humana e a sua liberdade. Liberdade de nos impormos a nossa liberdade, fazendo dela uma lei. Como Kafka Tamura quando decide fugir de casa no dia do seu aniversário de quinze anos à procura de uma liberdade para a qual tinha trabalhado desde que se conhecera. Com um pai excêntrico que vive num mundo de professias assombrosas com as suas esculturas e um passado povoado pelas reminiscências quase fantasmagóricas da sua mãe que o deixou com a irmã aos quatro anos. A sua existência em Nakano中野区, onde crescera, estava a atingir os limites do suporável e por isso partir parecia uma boa solução para o recomeço de uma construção do mundo a que pudesse chamar exclusivamente sua e para a evasão às leis e aos limites permanentemente impostos pela sociedade e pelas expectativas individuais.
Takamatsu高松市, soava como um bom destino, estrategicamente falando. Para além da compontente aleatória da escolha que descartava eventuais procuras policiais, Tamura conhecia uma pequena biblioteca privada, muito acolhedora, onde pretendia passar o resto da vida que avistava para lá dos seus quize anos. Só que nada era tão simples e afinal, não possuia tanta aleatoriedade como poderia aparentar…
Paralelamente, é-nos dada a conhecer a história de Nakata, o velho que fala com gatos e faz caír sanguessugas e peixes do céu. A sua história é-nos revelada como sendo uma criança que cresce afectada por um misterioso incidente na sua infância durante o período de guerra, incidente durante o qual todos os colegas de turma desmaiam simultaneamente excepto a professora que os levou num passeio pela montanha. Semi-renegado pelos pais, vive a sua vida em ostracização de forma simples e nunca tendo a capacidade de sentir sentimentos negativo como a frustração ou o ódio e atinge a velhice analfabeto e desempregado, sustentando-se com a mísera pensão do governo e o part-time de encontrar gatos, uma vez que consegue falar com eles.
A partir desta base de personagens resta todo o invólucro que envolve o mundo real no universo do sonho e o mundo carnal nas entranhas do espírito.
Editado em Portugal pela CasaDasLetras, tradução de Maria João Lourenço
Tamura envolve-se num conlifo edipiano profetizado pelo pai. Esse conflito é desenvolvido no pano de fundo de uma referência explícita ao Genji Monogatari de Murasaki Shikibu (ver artigo). A alusão a um espírito gerado em vida pela impetuosidade do sentimento reveste toda a história de ancestrais alusões literárias, reforçadas pelos reflexos introspectivos de Oshima, seu colega e princípal protector e confidente durante o refúgio em Shikoku 四国.
A obra reveste-se de uma constante significação bipolar entre a ideia de liberdade e de responsabilidade. A ideia de sonho e de prisão. Quando Tamura decide sonhar ele torna-se absolutamente responsável pelas consequências (tanto abstractas como concretas) dos seus sonhos e entre a sua vontade e a sua fuga existe a descoberta do mundo. Este livro parece aproximar-se mais do surrealismo de Kobo do que do realismo sólido de Mishima ou Tanizaki.
Murakami utiliza uma narração de tom ora naturalista, ora surreal, criando uma realidade de símbolos desconcertante.
A alusão a Kafka é evidentemente voluntária, fazendo a representação da forma como as personagens se sentem impotentes na sua condição, presas no seu corpo, vítimas da irregularidade do mundo e/ou de um suposto destino (princilamente por parte da personagem de Saeki-San). Para além disso, Kafka significa "corvo" em checo, nome do alter-ego de Tamura a quem ele recorre em momentos mais fulcrais da história.

Por entre tudo isto, existe a sempre aliciante temática – do ponto de vista mediático - das descobertas sexuais de Tamura, que de resto não me parecem ter um principal destaque, enquadram-se na sua descoberta geral de si próprio e do que o rodeia, com naturalidade.
A erudição de Murakami não deixa, no entanto, de interfir na intenção do autor. Exemplo disso será, possivelmente, o camionista que ajuda Nakata a chegar a Shikoku 四国, que é representativo de uma personagem tipo de uma certa classe menos priveligiada e com um total desinteresse pelo que o rodeia mas que, no entanto, parece ter demasiada facilidade em ceder à compreensão intelectual do mundo – o que de resto, me parece uma visão demasiado optimista e idealizada de Murakami. Uma personagem menos conseguida ou então um reforço na projecção da personagem de Nakata pela contraposição. Por exemplo, Nakata não sabia ler e por isso nunca tinha entrado numa biblioteca, mas o que é certo é que grande parte das pessoas sem problemas de alfabetização também não o fazem de qualquer maneira.
Nakata era desprovido de potencial cognitivo mas a sua vontade de mudar o mundo e de encarar a vida de uma maneira ética, positiva, justa e com valores sólidos conferia-lhe o patamar de pessoa única e especial. Porque afinal, quantos não possuem as maiores capacidades cognitivas do mundo e nunca mudam nada? Quantos não se recostam à conformidade e à banalidade ainda que apetrechados dos melhores veículos para reverter esse processo?
Julgar ou moralizar de uma forma casual e ignorante confere uma falsa sensação de preenchimento às pessoas que não sabem lidar com algo real para além do seu vazio interior. Em nenhum momento Oshima emite uma opinião moralizadora.
No fim do livro ficam perguntas por responder e acontecimentos por interpretar.

A base do entendimento espiritual efectivo percorre a narração em detrimento de permanentes julgamentos inócuos. Acho que é isto que transpõe as páginas deste livro: algo que está para além da própria narrativa e que nos involve com a sua imensa e permanente metáfora. É isso que torna o livro tão intimista e tão pessoal, o leitor é convidado a transpor parte de si para o abrigo desta tempestade de símbolos.

+ Links de interesse:

8.5.07

Boas-vindas, Tsugumi


A passagem da adolescência à vida adulta tem ritos dolorosos. E tanto mais dolorosos quanto menos explícitos.


De fato, em sociedades primitivas, os ritos de passagem são delimitados no tempo. Quando o jovem chega a certa idade, passa por determinadas provas, muitas delas envolvendo a comprovação da coragem e da resistência à dor. Ao vencer essas etapas, torna-se adulto, passa a ser respeitado como tal e assume as responsabilidades inerentes à nova fase de sua vida.

Nas sociedades que se autoproclamam desenvolvidas, ao contrário, os jovens vêem estender-se por um tempo infindável a sua entrada no mundo adulto. E as provas, ao invés de serem colocadas às claras, são ambíguas, perdidas em um emaranhado de regras obscuras, nas quais a dissimulação prevalece, envolvendo a juventude em uma angustiosa espera.

Parcela desse mundo nem um pouco transparente pode ser encontrada no romance Adeus, Tsugumi, da escritora japonesa Banana Yoshimoto, publicado pela Editora Cavalo de Ferro (http://www.cavalodeferro.com/), de Portugal.

Partindo da jovem Tsugumi, cujo "crescimento para a idade adulta" era "comparável ao processo hesitante de andar", Yoshimoto retrata os encontros e desencontros, as perdas e as descobertas inerentes àquele que, com certeza, é o período mais difícil de nossas vidas. Trata-se de um romance de formação, no qual Maria (a narradora), Yoko e Kyõichi, todos vivendo ao redor de Tsugumi, descobrem as verdades da vida adulta e se despedem da adolescência, lutando para não abandonar as próprias certezas.

Tsugumi é, segundo ela mesma, "uma fulana incompreensível. Que nunca se habitua ao meio à sua volta em lado nenhum, e que, não entendendo sequer a si própria, não se consegue refrear e não percebe onde poderá chegar, mas que, mesmo assim, está seguramente certa". Portadora de um agudo senso de realidade, que se aproxima da frieza, e de uma agressividade ímpar, Tsugumi é moldada pelo conviver diário com a iminência da morte. Ela carrega a beleza e a pureza de alguém que pretende ser má, mas cuja maldade é apenas um tipo original de auto-afirmação.

Apesar de escrever no Japão ocidentalizado, Yoshimoto nos oferece as contradições não só da adolescência, mas do próprio povo japonês. Todos os pares aparentemente discrepantes – e que nós, ocidentais, consideramos incoerentes – da cultura japonesa, aqueles sabiamente apontados por Ruth Benedict em seu clássico O crisântemo e a espada, estão presentes em Tsugumi: a cortesia e a insolência, a rigidez de conduta e a adaptabilidade, a submissão e a insubordinação, a lealdade e a traição, a bravura e a timidez, a disciplina e a insubordinação, a arte e a guerra. Características presentes, com certeza, em inúmeros povos, mas que no Japão adquirem uma cor nova, talvez moldada pelo zen.

A forma de narrar de Yoshimoto é sugestiva, intercalando os tempos e os espaços, fugindo agradavelmente da narrativa linear, e buscando nos introduzir, de maneira harmônica e sem qualquer pressa, a intervalos meticulosamente estudados, na trama que almeja revelar.

Romance da passagem de uma idade a outra, da migração rumo ao novo e ao desconhecido, a obra delineia dúvidas e dificuldades pessoais em um cenário também cambiante – do litoral ao centro urbano, da natureza à paisagem artificial –, em que o lirismo permeia as descobertas, os diálogos e a forma de olhar: "Na escuridão, as flores emergiam flutuando de brancura. Sempre que balançavam ao vento, em uníssono, projectavam uma imagem branca que ia permanecendo, como dentro de um sonho. Ao lado, o rio fluía num sussurro, e muito longe, em frente, o mar da noite fazia o luar luzir como uma estrada, e, enquanto resplandecia, tremeluzindo, parecia serpentear de negro até o infinito".

O mesmo estilo límpido pode ser encontrado nas descrições da simplicidade da vida familiar e dos dramas individuais que se refletem nas escolhas e nos comportamentos de cada personagem. Yoshimoto nos mostra como, apesar dessas delicadas e insistentes dores, um indistinto sentimento de felicidade pode permear o cotidiano. E é exatamente isso o que guardamos dos diálogos, nos quais as vozes se manifestam a caminho do momento de encontro, que todo verdadeiro diálogo permite. E mesmo que consigamos prever o final, quando este surge ainda guarda um clima de surpresa.

A despedida do mundo adolescente, de seus sonhos e de suas certezas, ocorre na forma da antevisão de uma dolorosa nostalgia – ou da certeza de que o esquecimento daqueles dias fatalmente virá. Ou seja, a convicção de que lembraremos de todas as alegrias e de todas as tristezas da adolescência, mas sem os cheiros, sem as cores, sem a força necessária para reavivar aqueles sentimentos dentro de nós. É impossível, portanto, os personagens não se anteciparem à saudade, restando aos leitores segui-los em sua jornada, revivendo o nosso passado, ou, se formos adolescentes, experimentando uma profunda identificação.

Para Yoshimoto, "crescemos a olhar para uma multiplicidade de coisas. E a cada instante que passa vamos mudando. Enquanto nos vamos dando conta repetidamente deste facto sob uma miríade de formas, vamos avançando". Assim, Tsugumi e os demais personagens crescem descobrindo inclusive o amor; e, no que se refere a Tsugumi, ao fazer essa descoberta ela "brilhava com um ar de tal felicidade que parecia até ter pressa de viver".

Por meio do amor, Tsugumi descortina algo além dela mesma, o tesouro que todo adolescente deveria ter a chance de conhecer e conservar. Ao final, a "sensação de solenidade" que Kyõichi descortina no olhar de Tsugumi também nos preenche, enquanto o estilo de Banana Yoshimoto nos invade "tal como a água que se infiltra no areal", para utilizarmos uma imagem cara à autora. E então, impregnados do lirismo cruciante dessa escritora, compreendemos por qual motivo descobrimos em seu texto as melhores características do romance moderno japonês, de Tanizaki a Kawabata, passando por Mishima.



Rodrigo Gurgel
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Rodrigo Gurgel (http://rodrigogurgel.blogspot.com/) é escritor e editor. Foi um dos vencedores do Concurso de Contos "450 Anos de São Paulo", promovido, em 2004, pelo Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve resenhas e artigos para o jornal Rascunho (http://rascunho.ondarpc.com.br/) e publica uma crônica semanal no diário Bom Dia Jundiaí (http://tvtem.globo.com/bomdiajundiai/).

7.5.07

Divisões periódicas

Acrescentei umas 'labels' na coluna da direita que têm por função separar os artigos postados por temáticas, dividindo assim os períodos literários da seguinte forma:

Período antigo (até 894)
Com a importação dos kanji da China, criou-se o primeiro sistema de escrita japonês (antes da introdução dos caracteres chineses não existia escrita formal).

Os caracteres chineses foram depois adaptados para escrever japonês, criando aquela que é considerada a primeira forma de kana, ou escrita silábica, o man'yōgana. As primeiras obras foram criadas no Período Nara, entre elas incluem-se o Kojiki (712, um trabalho registando a mitologia japonesa e lendas da antiguidade), o Nihonshoki (720, uma crónica com mais profundidade histórica) e o Man'yōshū (759, uma antologia poética).


Período clássico ou Período Heian (894 a 1194)
Exemplo:
Sei Shonagon (c.~966 - c.10??): Makura no sôshi (枕草子)
Murasaki Shikibu (c.973 - c.1025): Genji Monogatari (源氏物語)

Período medieval (1195 a 1600)
Exemplo:
Heike Monogatari (平家物語, 1371)

Período pré-moderno (1600 a 1868)
Exemplo:
Saikaku Ihara (1642 - 1693) Matsuô Bashô (1644 - 1694)
Chikamatsu Monzaemon (1653 - 1725)
Akinari Ueda (1734 - 1809)
Kyoden Santo (1761 - 1816)
Ikku Jippensha (1765 - 1831)
Bakin Kyokutei (1767 - 1848)

Períodos Meiji, Taisho e Showa (1868 a 1945) ou designados por Literatura Contemporânea
Exemplo:
Ogai Mori (1862 - 1922)
Ryunosuke Akutagawa (1892 - 1927)
Kenji Miyazawa (1896 - 1933)
Jun Ishikawa (1899 - 1987)
Yasunari Kawabata (1899 - 1972)
Yuriko Miyamoto (1899 - 1951)
Sakae Tsuboi (1900 - 1967)
Hideo Oguma (1901 - 1940)
Takiji Kobayashi (1903 - 1933)
Tatsuzo Ishikawa (1905-1985)
Osamu Dazai (1909 - 1948)
Shusaku Endo (1923 - 1996)
Abe Kobo (1924 - 1993)
Yukio Mishima (1925 - 1970)
Hisashi Inoue (1933 -)
Kenzaburo Oe (1935 -)
Kenji Nakagami (1946 - 1992)
Haruki Murakami (1949 -)
etc...

Espero assim que a navegação se torne mais fácil e funcional!

Sara F. Costa

2.5.07

«Arco-Íris»: uma história de amor à japonesa

Banana Yoshimoto (よしもと ばなな *), a mais famosa escritora nipónica da actualidade, conta-nos a vida de uma jovem empregada de mesa que tem o melhor trabalho do mundo.




A avó, primeiro, a mãe, depois. Ela ficou sozinha no mundo e o seu mundo circunscreve-se agora a um restaurante em Tóquio, onde trabalha. O «Arco-Íris», que confecciona comida originária do Taiti, adequa-se na perfeição aos seus sonhos. Falar com os clientes é o que sempre quis. Por isso, nada mais perfeito existe. Só a mágoa pelo desaparecimento da família a vai afastar do «pote de ouro». O cansaço dá lugar ao desmaio, a perda de sentimentos vira-lhe a vida do avesso. Tudo se passa em «Arco-Íris» (Cavalo de Ferro, 2006).

O patrão dá-lhe a oportunidade de se tornar a governanta da sua casa. Temporariamente. Até que sinta forças para voltar ao restaurante, um desejo que não se cansa de lembrar ao leitor. Conhecerá a fria mulher de Takada, um cão e um gato com o mesmo nome (Tarô), doentes e tristes, e um jardim desgovernado. Pouco tempo depois da sua chegada, fica a saber que o filho que a senhora Takada vai dar à luz não é do marido. Os dois vivem um casamento de fachada. E os animais deverão, também em breve, encontrar um novo dono. Por vontade da mulher.

Eiko decide tomar a si os cuidados dos animais e do jardim, para além do trabalho relacionado com a limpeza da casa. O cão Tarô, o gato Tarô e as plantas retribuem-lhe toda a energia que necessitava para se reequilibrar emocionalmente. Ao mesmo tempo, Takada fica mais próximo, e o amor, que crescera de dia para dia, parece finalmente possível. Mas ser o epicentro do fim do casamento do patrão não é, de todo, o seu destino e, desiludida, parte à descoberta do Taiti e de outros locais paradisíacos do Pacífico. O berço do «Arco-Íris».

A eterna melancolia

«Isto é um sinal do destino. Um sinal demasiado belo para ser verdade. Fixo na memória este panorama e depois não olharei para mais nada, deixarei que as coisas sigam o seu curso, pensei, quase a rezar. Enquanto isso, de olhar fito no céu, observava aquele pequeno arco-íris que brilhava imóvel.» A jovem empregada de mesa encontrará, no Taiti, a decisão. Um cão, um gato, um homem e um restaurante pesam no outro prato da balança.

Banana Yoshimoto volta a trazer-nos um livro melancólico, de escrita cristalina e sem um pingo de transpiração, que caracteriza a literatura japonesa. Usa palavras simples para sentimentos constantes e a linguagem é realmente bela. Não será certamente a obra-prima da autora - em Portugal já editou «Kitchen» (Asa), «Adeus, Tsugumi» e «O Último Amante de Hachiko» (os dois pela Cavalo de Ferro) -, mas deve ser lido como se aprecia um quadro.

No fim, depois de o termos devorado de um trago, não teremos dúvidas para exclamar: «Sim, é de certeza um Banana Yoshimoto!»


Luís Mateus
PortugalDiário


*A escritora escreve o seu nome exclusivamente em Hiragana