28.11.07

Introdução à poesia clássica japonesa

Uma das características mais eminentes e evidentes da poesia japonesa é a sua brevidade de expressão, ou seja, a sua concisão verbal. Esta característica deriva do próprio tecido fonético da língua japonesa, tecido esse formado por poucas vogais e ditongos, isto fez com que o “pequeno” soasse “melhor” e, logo, mais poderoso. A evolução intrínseca da literatura e da própria língua nas sublimes cortes de Nara e Kyōto, num ambiente de requinte artístico ajudaram a reforçar esta ideia. Para além disso, a poesia servia também como uma forma de comunicação que, juntamente com o senso de decoração e ostentação das cortes, proporcionou o ambiente necessário para a criação da tradicional uta 歌 também conhecido por waka 和歌 que significa literalmente “canção", o poema de trinta e uma sílabas que está no fundação virtual de toda a poesia japonesa entre 850 e 1900. Este tipo de poema possui várias particularidades, nomeadamente no campo da fonética onde encontramos fortes aliterações internas assim como assonâncias. No campo do sentido, o conceito estético kakekotoba かけことば, designa uma figura retórica através da qual uma palavra encerra uma multiplicidade de sentidos nas palavras homónimas, abrindo assim o leque de possibilidades da leitura. No tecido poético intrínseco, recorrer a imagens concretas é uma via primordial de expressão da poesia clássica japonesa. Neste ponto, e fazendo uma leitura comparatista, a poesia japonesa distingue-se da poesia europeia. Se estamos à procura dos grandiosos monólogos sentimentais de Hamlet, não vamos certamente virar as nossas atenções para a poesia clássica japonesa. Isto porque o waka deste período procura a singularidade imagética da realidade, a cristalização de um momento fugaz, a retenção do instante.
「世の中を何にたとえむ朝ぼらけ漕ぎ行く舟の跡の白波」[1]
“A nossa vida neste mundo
A que devemos compará-la?
É como um barco alinhado na pausa do dia,
Sem deixar rastro.”[2]

É esta noção de imagem, que, por exemplo vemos neste poema de Sami Mansei, da antologia Manyoshu. Aqui, ele consegue captar a noção de precariedade e temporalidade através de elementos pictóricos. É curioso verificar que este tipo de poesia que na Europa se veio afirmando essencialmente no período naturalista e até simbolista, foi explorado nos primórdios da história da literatura em terras nipónicas.
Claro que isto não significa que exista uma uniformidade em relação a um período tão extenso e abrangente como o é o período clássico do Japão (794-1185). De ano para ano, a literatura sofreu várias mutações. Estes são, contudo, em traços muito gerais, os temas dominantes do estudo literário da poesia clássica do Japão.

[1] Sami Mansei, “Manyoshu” 万葉集 (Colectânea de Dez Mil Folhas) primeira colectânea de antologia de poesia clássica do Japão.
[2] Todas as Traduções são feitas por mim com o apoio do livro Tradicional Japanese Poetry e com a ajuda do meu professor de japonês Prof. Dr. Tsuyoshi Takamatsu.
Sara F. Costa

8.11.07

Shusaku Endo 遠藤 周作

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Uma Vida de Jesus

Esta vida de Jesus, apresentada pelo autor católico Japonês Shusaku Endo, não é um roteiro dos lugares sagrados por onde Cristo deambulou e pregou a palavra de Seu Pai, nem tão pouco uma viagem escrita que nos revele informações secretas nunca antes afloradas. Endo segue os passos das Sagradas Escrituras usando-as como fio condutor da história mais misteriosa de todos os tempos, história essa que lhe estimula o desassossego a partir do qual o autor relata os eventos que teceram a vida de Jesus, tal qual eles são contados pelos quatro evangelistas, mas com a particularidade de tecer comentários pessoais à forma e ao conteúdo das quatro crónicas distintas (e até certo ponto desiguais) referentes ao Carpinteiro de Nazaré.

Menciono Jesus como um carpinteiro de Nazaré na medida em que Shusaku Endo defende a tese de que em vida, e apesar de reunir discípulos e seguidores da sua pessoa, Jesus ter enfrentado uma onda de animosidade, tanto da parte daqueles que o acompanhavam ocasionalmente, como da parte dos que caminhavam sempre a seu lado e se integravam no chamado grupo dos discípulos, aversão esta que terá desencadeado uma total descrença de que se trataria do tão aguardado Messias.

Nem seria esse o seu objectivo.Segundo Endo, apenas na morte poderia emergir a crença de que aquele não era um Homem vulgar e muito menos um louco. A sua missão não era agir politicamente contra o poder romano ou contra a tirania dos governantes locais entronizados. A Sua revolução era de outra natureza e nem o povo, nem os próprios discípulos estavam preparados para alcançar o que Jesus de facto buscava nos Homens. Só com o seu suplício, ao qual não resistiu por um momento que fosse e que aliás acolheu como se de um sopro de vida se tratasse, seria possível encontrar a salvação da humanidade.

Alguns homens iluminados pela brutalidade e pelo Amor que aquele acto sacrificial implicava, puderam transformar uma morte aparentemente inglória e sem significado, no momento de viragem da Humanidade. Esses embaixadores do Cristo iniciaram um périplo que dura até aos dias de hoje e que assenta em pressupostos questionáveis e louváveis em simultâneo. O testamento moral de Jesus terá sido profanado (as versões são demasiadas), algumas vezes mal interpretado ou interpretado da forma que mais convinha a um punhado de gente, no entanto, a maior verdade resiste, perdura e não deixa de ser a mais árdua de colocar em prática pelo Homem:

A capacidade de amar. Uma verdade que não é efectiva, não é absoluta, por ela há que saber lutar.Seja porque se acredita piamente no que aconteceu há dois mil anos naquele local, seja porque não acreditando, sentimo-nos impelidos a questionar o que moveu na realidade aquele Homem, esta é uma História actual e que deve ser revisitada sempre com renovado interesse.

Carla Milhazes

7.11.07

O nariz de Akutagawa 芥川龍之介

Uma das minhas resoluções de Ano Novo é terminar ou começar-e-terminar de ler todos aqueles livros que comprei e estão – aliás, estavam! - jogados pelos cantos.

Foi aí que descobri o tal nariz que o Kuni havia falado tão bem. O nariz é um dos Contos Fantásticos de Ryunosuke Akutagawa, famoso escritor japonês. Nasceu em 1892 e morreu aos 35 anos. Porque quis: ele se matou. É tão conceituado, que dá nome a um grande prêmio de literatura do Japão.


Mas voltando ao nariz, como diria Akutagawa, esse conto é muito divertido! Começa assim:

Em se tratando do nariz de Zenchi Naigu, não há pessoa em Ikeno'o que não o conheça. Tem mais ou menos quinze centímetros, começa acima do lábio superior e termina abaixo do queixo. Seu formato é constante da base à extremidade, sem alteração na grossura. É como uma grande lingüiça pendurada no meio do rosto.



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Também adorei Sopa de cará. Mas assim como O nariz e todos os outros contos deste livro, acaba de repente. Dá vontade de saber mais, mas Akutagawa não conta. Por outro lado, faz a gente pensar, pensar, pensar... Vai ver era esse o objetivo dele. Não sei. Só sei que o texto é delicioso e que de cada história, a gente tira uma lição.

Seria correto afirmar que o protagonista da nossa história é um ser que veio ao mundo apenas para ser espezinhado, repelido, desdenhado? Um indivíduo sem nenhuma aspiração ou expectativa em relação à vida? Não, isso não seria correto. Goi cultivava, há uns cinco ou seis anos, uma predileção notável por algo chamado... sopa de cará.


Karina Almeida