
Uma Vida de JesusEsta vida de Jesus, apresentada pelo autor católico Japonês Shusaku Endo, não é um roteiro dos lugares sagrados por onde Cristo deambulou e pregou a palavra de Seu Pai, nem tão pouco uma viagem escrita que nos revele informações secretas nunca antes afloradas. Endo segue os passos das Sagradas Escrituras usando-as como fio condutor da história mais misteriosa de todos os tempos, história essa que lhe estimula o desassossego a partir do qual o autor relata os eventos que teceram a vida de Jesus, tal qual eles são contados pelos quatro evangelistas, mas com a particularidade de tecer comentários pessoais à forma e ao conteúdo das quatro crónicas distintas (e até certo ponto desiguais) referentes ao Carpinteiro de Nazaré.
Menciono Jesus como um carpinteiro de Nazaré na medida em que Shusaku Endo defende a tese de que em vida, e apesar de reunir discípulos e seguidores da sua pessoa, Jesus ter enfrentado uma onda de animosidade, tanto da parte daqueles que o acompanhavam ocasionalmente, como da parte dos que caminhavam sempre a seu lado e se integravam no chamado grupo dos discípulos, aversão esta que terá desencadeado uma total descrença de que se trataria do tão aguardado Messias.
Nem seria esse o seu objectivo.Segundo Endo, apenas na morte poderia emergir a crença de que aquele não era um Homem vulgar e muito menos um louco. A sua missão não era agir politicamente contra o poder romano ou contra a tirania dos governantes locais entronizados. A Sua revolução era de outra natureza e nem o povo, nem os próprios discípulos estavam preparados para alcançar o que Jesus de facto buscava nos Homens. Só com o seu suplício, ao qual não resistiu por um momento que fosse e que aliás acolheu como se de um sopro de vida se tratasse, seria possível encontrar a salvação da humanidade.
Alguns homens iluminados pela brutalidade e pelo Amor que aquele acto sacrificial implicava, puderam transformar uma morte aparentemente inglória e sem significado, no momento de viragem da Humanidade. Esses embaixadores do Cristo iniciaram um périplo que dura até aos dias de hoje e que assenta em pressupostos questionáveis e louváveis em simultâneo. O testamento moral de Jesus terá sido profanado (as versões são demasiadas), algumas vezes mal interpretado ou interpretado da forma que mais convinha a um punhado de gente, no entanto, a maior verdade resiste, perdura e não deixa de ser a mais árdua de colocar em prática pelo Homem:
A capacidade de amar. Uma verdade que não é efectiva, não é absoluta, por ela há que saber lutar.Seja porque se acredita piamente no que aconteceu há dois mil anos naquele local, seja porque não acreditando, sentimo-nos impelidos a questionar o que moveu na realidade aquele Homem, esta é uma História actual e que deve ser revisitada sempre com renovado interesse.
Carla Milhazes