15.4.08

Poetas representativos do Manyoshu - análise de poemas



Yuryako Tenno

O primeiro poema da antologia é escrito pelo imperador Yuryako, conhecido por ser um imperador cruel e poderoso. O poema é um shoka mas ainda sem ritmo 5-7-5 e sem forma estabelecida, apesar de apresentar características dominantes do Shoka como preparação-conclusão e paralelismo e sentimento de simplicidade.

Neste poema (456-79)

With a basket,
A pretty basket,
And a trowel,
A pretty trowel in hand,
Here on this hillside
Gathering herbs: young one,
I would hear your home –
Come, tell me your name!
In the sky-seen
Land of Yamato
Over the yielding realm
It is I who rule:
I, you may be sure,
Shall tell you
My home and my name.

日本と名前 – pedir o nome tem o mesmo significado de “pedir em casamento”
O cesto que a rapariga transporta é típico de uma Miko – sacerdotisa xintoísta.
Em termos filosóficos, o nome é a verdadeira existência.
Acreditavam no poder da palavra. As coisas são palavras / as palavras são coisas.
A esta filosofia dá-se o nome de “kotobama”. (ver caracter)
Neste poema ele pode soar arrogante mas também cómico, tem dois sentidos.
Talvez tenha sido colocado em primeiro lugar por falar de uma faceta humana do sangrento imperador.
Por um lado o imperador é mais humano (paixão) mas por outro considera-se um Deus (tem o direito a dominar).
Sofre de influência chinesa no conceito de pertença a uma autoridade: o poema pertencia a uma autoridade e não ao povo.


Príncipe Shotoku (574-621)

O sobrinho da imperatriz Suiko é uma figura política mítica, conhecida pelos seus feitos.
Numa excursão para Takahara, o príncipe vê um homem morto e isso fornece-lhe o tópico do seguinte poema:

He who if at home,
Would be pillowed on the arm
Of his own dear love,
On a journey, grass for pillow,
Here lies sprawled, poor traveller!

Neste poema, pillow, ou almofada, escrevem-se em japonês くさまくら。Sempre que aparece esta palavra (kusamakura) sabemos que a seguir vem a palavra 旅(たび) – viajante.
Esta situação verifica-se ao longo de vários poemas desta época até que se constituiu como uma figura de estilo própria que tem o nome de まくらことば。
Há inclusivamente palavras que sempre antecedem outras e cujo significado se desconhece. Exemplo:

めばだもの ・夜
ちはやぶる ・神



大伴家持
Otomo no Yakamochi (718-85);

Otomo no yakamochi é o ultimo tradutor da antologia e a sua poesa é marcada por uma fase nitidamente transitória, mais retórica e mais técnica.

Lady Kasa

Lady Kasa é uma poetisa que escreve muitos poemas de amor sobre forma de Tanka direccionados a Otomo no Yakamochi – aspecto comunicativo do tanka.

Look at this keepscape (katami)
And remember me, my love;
All the gem-bright year, (あたらまの年)
Long as its thread of shining days,
I too shall think of you.

Neste poema, katami significa a recordação de um morto.
Talvez porque o amor que Lady kasa sente por Yakamochi tem o seu passado, a sua história mas também questiona o projecto futuro de ambos.
あたらまの年 é uma makura kotoba.


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Bibliografia
CARTER, Steven (tradutor), Traditional Japanese Poetry: An Anthology, Stanford University Press (April 1, 1993)
UDA (compilador), The Kokin Wakashū (古今和歌集, Kokin Wakashū?) (r. 887–897)
YAKAMOSHI NO, Ōtomo (compilador), Manyōshū (万葉集, man'yōshū), (759)



Sara F. Costa

9.4.08

Bungaku! em destaque

A revista nipo-brasileira Zashi colocou em destaque o nosso blog na secção de recomendações on-line. A equipa do bungaku! agaradece o reconhecimento e promete continuar na dianteira daquilo que de melhor se escreve no país do sol nascente. A revista Zashi dedica-se à divulgação da cultura asiática tanto moderna como tradicional direccionada para os falantes da língua portuguesa, abordando temáticas que vão desde produção artística até aspectos da política contemporânea. Vale a pena passar pelo seu site!

O artigo sobre o bungaku! pode ser visualizado aqui.

4.4.08

Prorrogado Concurso de haicai

As inscrições para o Concurso Nacional de Haicai "Nempuku Sato" foram prorrogadas para o dia 5 de maio. O evento faz parte das comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil, numa parceria da Secretaria de Estado da Cultura com a Associação Cultural e Beneficente Nipo-Brasileira de Curitiba.
Os três melhores trabalhos receberão R$3 mil, R$2 mil e R$1 mil, respectivamente. As inscrições devem ser feitas pessoalmente ou enviadas para o Concurso Nempuku Sato, Secretaria do Estado da Cultura, Rua Ébano Pereira, 240, Curitiba – PR, CEP 80410-240.
Os haicai devem ser inéditos, escritos em língua portuguesa, seguir a métrica japonesa (três versos de 5-7-5 sílabas) e apresentar termo de estação (kigo), sem título nem rima, conforme a tradição japonesa (para saber mais, consulte o site Caqui: http://www.kakinet.com/caqui/nyumon.htm).
Os vencedores serão anunciados em maio e os poemas divulgados num evento comemorativo do centenário da imigração japonesa no Brasil.
Cada participante poderá inscrever até 3 haicai, e enviar em 3 cópias, num envelope grande. Dentro do envleope maior, anexar um envelpe lacrado com dados pessoais (pseudônimo, nome completo, endereço, telefone, e-mail, cópia de RG e CPF) . Ambos os envelopes devem ser identificados por pseudônimo. O envelope maior pode ter o endereço real do remetente.
Nempuku Sato (1898-1979) foi um imigrante japonês que ajudou a disseminar o haicai em terras brasileiras. De sua linhagem segue o poeta Masuda Goga que influenciou a paranaense Helena Kolody. Além dela, a poesia paranaense conta com nomes como Alice Ruiz e Paulo Leminski, entre os divulgadores do haicai.

2.4.08

A beleza do diferente - Japão para Crianças

Com o objetivo de marcar o ano em que o Brasil a Editora CosacNaify lançou, para o público infantil, o delicado Minhas imagens do Japão, com texto e ilustrações de Etsuko Watanabe, traduzido por Cássia Silveira.


Mais do que uma crónica da vida urbana no Japão contemporâneo, esse livrinho guarda a chave para compreendermos um fato muitas vezes esquecido: que, apesar das diferenças, somos todos, essencialmente, seres humanos. Não é pouco.
Quando os meios de comunicação e a Internet nos bombardeiam com toneladas de informações superficiais ou inúteis - em que podemos vislumbrar, quase sempre, generalizações injustas e perigosas -, as diferenças culturais passam mais a afastar do que aproximar as pessoas, transformando o outro, o estranho, no rival, no inimigo.

Como vive uma menina de sete anos no Japão? Nesse lugar tão longínquo - não apenas em termos geográficos -, o que há de diferente e de semelhante em relação a nós?
Para responder a essa pergunta, Etsuko Watanabe apresenta-nos o Japão e seu povo: os utensílios do quotidiano, os objetos escolares, a vida em família. E como a mesa é posta, quais as vestimentas do dia-a-dia, algumas brincadeiras - as minúcias, enfim, que constroem uma civilização. Conhecemos também as palavras, com seus sons inesperados, às vezes surpreendentes, donas de uma eufonia para a qual precisamos de reeducar nossos ouvidos.


A beleza do estranho assalta-nos em inúmeros trechos da obra. A autora, formada pela Musashino Art University e com mais de sete livros infantis publicados, não despreza sequer os aspectos da intimidade. A importância da hora do banho, os vasos sanitários - curiosos e eficazes - e os banhos públicos - uma característica dessa cultura que não submeteu a nudez humana ao arbítrio da absoluta privacidade: todo o engenho do conforto e da higiene de uma civilização está resumido nesse livrinho.
De repente, percebemos que não estamos distantes do Japão dos samurais, e é como se pudéssemos vislumbrar, sob cada gesto - principalmente sob os hábitos e a disciplina escolares -, o código de honra desses antigos guerreiros.
Nada é esquecido: das brincadeiras infantis às superstições, à busca da sorte e da ajuda dos deuses; as lendas e os costumes; as crenças pueris do povo e as festas que as materializam, comemorações que são marcos da passagem do tempo, cujas alegrias podem conceder uma nova força à vida banal, fragmentada entre o trabalho e as poucas horas de descanso.

Introdução a um mundo diverso do nosso, a obra de Watanabe oferece possibilidades quase infinitas de se trabalhar com as crianças, não só para diverti-las, mas também para mostrar como as diferenças, se quisermos, podem mais unir do que separar as pessoas. Sob o olhar imparcial de uma menina capaz de se encantar com as menores coisas, Minhas imagens do Japão descreve um povo cujas tradições e história engrandecem a espécie humana.
Minhas imagens do Japão
Etsuko Watanabe (texto e ilustrações)
Tradução de Cássia Silveira
Editora Cosac
Naify40 páginas




Rodrigo Gurgel

*Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação