29.8.09

Na Sopa de Miso - Ryu Murakami (村上 龍)




Editor: Casa das Letras
ISBN-13: 9789724617596
N.º de Páginas: 202

Um dos romances mais impressionantes sobre a misteriosa vida nocturna de Tóquio, muito distante do tradicionalismo das gueixas de Kyoto. Um romance inesquecível sobre a solidão, a falta de identidade e a corrupção moral e cultural…
Nas vésperas do Ano Novo Frank, um estranho turista americano, contrata o jovem Kenji para uma visita guiada à vida nocturna de Tóquio. Aos poucos, o rapaz começa a desconfiar que o seu cliente pode estar envolvido numa série de mortes brutais que atemorizam a cidade.

Kenji desce involuntariamente a um inferno de violência e crueldade inconcebíveis, um pesadelo do qual apenas Jun, a sua namorada de dezasseis anos, o poderá ajudar a despertar, se ele a conseguir manter viva. Uma inquietante história que vai aumentando o suspense até um limite perturbador.

Ruy Murakami, um dos novos mestres do thriller psicológico, questiona com imensa habilidade a relação de amor-ódio entre o Japão e os Estados Unidos, a prostituição juvenil como resposta à necessidade de aceitação, o vazio moral da sociedade moderna ou a solidão num planeta multicultural.


Críticas de imprensa:
«Um retrato violento do Japão contemporâneo, o seu niilismo e decadência envoltos num dos thrillers mais ferozes desde O Silêncio dos Inocentes. Chocante mas fascinante.»
Kirkus Reviews

«Não há falta de terror neste romance… A atmosfera predomina, e a claustrofobia das ruelas de Tóquio é intensa.»
Daily Telegraph

«Exsuda escuridão e ambiguidade e lê-se com a velocidade de um comboio de alta velocidade.»
Entertainment Weekly

«Se gosta de noir, Miso é suficientemente sombrio para quem queira alargar a sua exposição à cultura japonesa para além do sushi, da banda desenhada e dos jogos de vídeo.»
USA Today

«Lê-se como as notas para o guião de American Psycho.»
Guardian

20.8.09

O Templo Dourado 金閣寺 - Yukio Mishima 三島由紀夫


Quando visitava o Templo Dourado em Kyoto (金閣寺 kinkakuji) não consegui evitar de me inebriar com a consciência do carácter histórico daquilo que via diante de mim e do carácter devoto presente nas fábulas que inspirou. O templo data dos fins do século XII e foi mandado construir pelo neto de Ashikaga Takauji (fundador da Era Ashikaga), Ashikaga Yoshimitsu, fazendo parte da sua moradia. Mais tarde o seu filho tornou o Kinkaku num templo dedicado ao Budismo Zen.



Sofreu alguns contratempos, ardeu durante a guerra de Ōnin e ardeu novamente mais tarde, em 1950 às 2:30 da manhã pelas mãos de um monge que o habitava chamado Hayashi Yoken.
Após colocar o fogo Hayashi Yoken tentou suicidar-se na montanha Daimonji mas sem sucesso. Foi condenado a sete anos de prisão mas saiu ao fim de cinco anos uma vez que foi considerado portador de um distúrbio mental. Morreu, no entanto, devido a uma outra doença pouco depois de 1956. A estátua de madeira original preservada há cinco séculos de Ashikaga Yoshimitsu ardeu durante este incidente.

Porque relato o episódio de Hayashi Yoken? Porque este episódio é o mote do livro de Mishima.
Mizoguchi é a personagem que encarna a vida deste monge, narrador presente e omnisciente, que nos relata o seu passado. Acompanhamos a sua vivência desde a sua nascença em Shiraku até ao momento em que parte para Kyoto e se torna num estudante universitário e acólito do templo. Sofria de gaguez e sofria de uma certa misantropia. Era obcecado com um ideal de beleza enquanto se sentia, ele próprio, “um exemplo único de fealdade”.

Depois de falar eu perguntava a mim mesmo porque razão gostava tanto de provocar dúvidas no espírito dos outros. Quanto a mim não havia a mais leve dúvida. A questão era evidente: os meus sentimentos sofriam de gaguez. Nunca emergiam a tempo. Em resultado disso, a morte de meu pai e a minha tristeza eram duas coisas isoladas que não se relacionavam nem interferiam uma com a outra. Uma ligeira discrepância no tempo, uma ligeira demora, fazem com que os sentimentos e os acontecimentos que tenho vivido voltem à sua condição desconjugada, a qual, tanto quanto me diz respeito, é provavelmente uma condição fundamental. (69)*
Sendo um dos livros mais populares de Mishima, é uma obra cujo conteúdo se enquadra no seguimento do mesmo estilo reflexivo de “O Marinheiro que perdeu as graças do mar” 午後の曳航.

Isto porque grande parte da acção decorre no pensamento das personagens, como numa permanente procura da inteligibilidade dos seus mais profundos devaneios filosóficos.
O Templo Dourado é claramente um mote para Mishima expor muito de si transmitindo em simultâneo uma empatia para com o monge incendiário, dando-nos uma linha condutora para que também nós lhe possamos compreender a aparente loucura que mais não será do que lucidez.

Lucidez segundo a óptica do autor que sabemos peculiar. Mishima deixou muitos escritos ideológicos tais como 楯の会(Tate No Kai) – cujo título em inglês é An Ideology for an Age of Languid Peace e tendo conhecimento deles é impossível ler-se a sua ficção sem a relacionar com obras de diferentes caracteres mas contíguas em teor.

Se para Mishima a guerra era um impulso para a vida por conferir energia à nação em vez de se deixar adormecer na letargia da paz, este pensamento é largamente explanado nas palavras de Kawagashi, o amigo de pernas aleijadas de Mizoguchi.

Como te parece que se conseguiu manter a paz e a ordem durante a guerra se não pondo em cena exposições públicas de morte violenta? O motivo por que as execuções públicas acabaram foi, creio bem, o receio de que o povo se tonasse sanguinário. Estúpidos! As pessoas que removiam os cadáveres depois dos bombardeamentos aéros tinham todas expressões gentis e alegres. Ver seres humanos na agonia, vê-los cobertos de sangue e ouvir os seus gemidos de morte, torna as pessoas humildes. (…) É numa bela tarde primaveril como esta que as pessoas, subitamente, se tornam cruéis. (…) Todos os pesadelos do mundo, todos os pesadelos da história nasceram assim. Mas quando uma pessoa se senta num dia claro é a ideia de figuras ensanguentadas e agonizantes que dá o esboço nítido do pesadelo e ajuda a materializar o sonho em realidade. O pesadelo já não é a nossa agonia, antes o violento sofrimento físico dos outros. (145)*
Foto de Yukio Mishima, tão obcecado pela literatura como pelas artes marciais e o Bushido


Ao longo do livro estamos permanentemente envolvidos pela alucinação sufocante com a qual Templo Dourado envolve Mizoguchi.

Seria que eu possuía o templo ou era por ele possuído? Não seria antes mais correcto dizer que um ponto de equilíbrio se formara naquele momento, um equilíbrio que me permitia ser o Templo Dourado e o Templo Dourado ser eu? (174)*
Mishima é um autor ferido pela humilhação da derrota e pela ocupação estrangeira. A conversa final entre as duas personagens cai em algo que também é próprio à sua perspectiva de caminho correcto do Japão pós-guerra, a perspectiva de que o conhecimento poderá superar a acção como forma de salvação, já que foi a acção que levou à rendição.

É um livro complexo de teor reflexivo que nos desfia ideias mas sem respostas lineares ou simplistas e portanto, também uma obra que só pode ser considerada em todos os aspectos perante uma dedicação académica.

Foi publicada pela primeira vez em Portugal em 1972 pela Pareceria A.M.Pereira Lda e tem agora reedição recentíssima da Assírio&Alvim que já era bem necessária.


Bibliografia:
Mishima, Yukio, O Templo Dourado, Trad. Filipe Jarro, Assírio&Alvim, Lisboa,2009
*Mishima, Yukio, O Templo Doirado, Trad.Maria Ondina Braga, A.M.Pereira Lda, Lisboa 1972
Mishima, Yukio. The Temple of the Golden Pavilion. Trans. Ivan Morris. New York: Vintage Books, 1994. “An Ideology for an Age of Languid Peace.” Japan Interpreter 7.1 (1971): 79-80.
Sara F. Costa

13.8.09

A Chave - Junichiro Tanizaki 谷崎 潤一郎


A utilização dos diários nos romances permite aos personagens comunicarem os seus sentimentos e desejos mais explícitos uns aos outros.
Em "A Chave" é-nos relatado a interacção sexual de quatro personagens: um casal, sua filha adolescente Toshiko e um amigo da família Kimura e para isso o autor usa o cruzamento de dois diários que são escritos ao longo de alguns meses - o do marido e o da mulher para nos contarem os seus segredos mais íntimos apesar de não encontrarmos situações explícitas, picantes ou explosivas, embora cada um finja que não o lê.
A família está constantemente a criar jogos psicológicos entre eles, resultando toda esta situação num relacionamento extremamente disfuncional.


"A Chave" também nos conta a história de um crime, um dos mais originais já cometidos na literatura. Insatisfeito com o desempenho sexual de Ikuko (a sua mulher), o marido empurra-a para junto do seu colega de trabalho e amigo Kimura, para alimentar o próprio ciúme e alimentar a paixão, numa sequência de simulações e subentendidos em que a filha também terá um papel relevante.
Trata-se de uma luta consentida por todos, um jogo de xadrez sexual que revela em cada uma das suas jogadas no desejo de escapar a um mundo congelado de repressão, hierarquia e incomunicabilidade, tudo isso no limiar tenso da invasão da cultural americana. O romance "A Chave", do japonês Junichiro Tanizaki (1886-1965), considerado um dos maiores, senão o maior, romancista japonês, e é um escritor praticamente desconhecido em Portugal mas popular no seu país.
Como nota de curiosidade, o romance de Junichiro Tanizaki foi adaptado para cinema em 1983 pelo realizador italiano Tinto Brass.

"A Chave” (Kagi, no título original) editado em Potugal pela Teorema é um romance altamente sensual, erótico e que consegue capturar a interacção dos dois lados da medalha o masculio/feminino. É uma amostra admirável do potencial de um diário e da ambiguidade que este suporte permite.
Sem dúvida um livro a ler!

Fernando Ferreira

8.8.09

O Samurai de Shusako Endo 遠藤 周作

Quando pode a ambição ser legitimada? A ambição pelo material sempre foi condenada pela moral cristã como um pecado medonho. No entanto, quando a ambição pretende servir intentos maiores, os da “salvação”, os da “ascensão ao etéreo”, onde se localiza a frágil linha fronteiriça da verdade teológica e da decência humana, isto é, quando uma não tenta encobrir a outra?




O livro “O Samurai” de Shusako Endo faz-nos mergulhar numa profunda reflexão sobre estas temáticas. No século XVII quando o padre franciscano Velasco, inspirado na personalidade de Luis Sotelo (1574-1624), se instala no Japão para aí residir durante dez anos confronta-se com uma curiosidade avassaladora e uma paixão pela missionação de tal forma feroz que o faz questionar a origem de tal desígnio que mais soa demoníaco do que celestial. A altura da missionação de Sotelo dá-se durante o inicio da época de Tokugawa num período de transição entre um Tokugawa moderado e um Tokugawa extremista que isola o país do resto do mundo como veio a acontecer aquando do Sakoku 鎖国. Velasco é durante muitos anos perseguido, noutros preso, noutros utilizado pelo governo central como intérprete, visto ser dos poucos ocidentais da altura a dominar a língua japonesa. O culminar da sua actividade e estratégia de evangelização ocorre quando consegue organizar uma viagem pelos mares até ao México com o intuito de, a troco do estabelecimento de trocas comerciais do Japão com os países ocidentais, este permitir a evangelização livre em terras do Sol Nascente.

Por um lado temos Velasco, que domina o fio condutor da história, lhe dá seguimento e corpo. Do outro lado, acompanhamos a vivência de Hasekura Rokuemon inspirado em Hasekura Tsunenaga (1571-1622) – também personalidade verídica, um samurai menor, se é que se pode falar em 'menor'. Durante o período Tokugawa as guerras eram escassas e o papel do samurai de uma maneira geral era quase simbólico. Assim sendo, apesar da função bélica de soldado do samurai, durante este período os samurais não eram mais do que responsáveis locais por terras, ao serviço de poderosos damiyos. Esta condição histórica é reflectida no livro, os samurais do passado eram símbolo de poder, e eram preciosos. Agora, no entanto, limitavam-se a tomar conta de pequenos terrenos não podendo sequer ocupar as terras que os seus antepassados tinham conquistado com o seu próprio sangue durante o período de guerra Azuchi-Momoyama. Este facto é-nos lembrado ao longo do livro nas lamentações do tio do samurai, como uma chama que consome a sua débil saúde e a sua dignidade.


A personagem de Hasekura inspira o título do livro, mas qual a sua função, afinal, na obra? Hasekura é antes de mais um símbolo do tradicionalismo, ele é o “japonês” de origem, de gema, que o autor quer explorar como quem explora os interstícios de toda uma nação, uma história e uma personalidade colectiva. Hasekura é um dos enviados na missão que Velasco tratou de engendrar.
Conformado com a ideia de passar o resto da vida a trabalhar com os agricultores da sua pequena aldeia junto ao lago, perpetuando os mesmos rituais baseados na colheita e nas condições climatéricas - numa ligação à terra e ao espaço- ano após ano, como uma forma de vida segura, quando confrontado com a ideia de atravessar os oceanos, Hasekura é violentamente assolado por uma fricção contra o desconhecido - sabemos que é desta altura que vem a noção de sotto 外em oposição ao uchi家, como características essenciais da personalidade colectiva japonesa e isso é magistralmente retratado na prosa de Endo.



Painting of the embassy of Hasekura Tsunenaga to Rome. The embassy is shown discussion with the Franciscan Sotelo. Sala Regia, Palazzo Quirinale, Rome. 1615 painting.
O autor joga com um notável conhecimento de causa entre dois paradigmas – o olhar do estrangeiro cristão sobre os japoneses e o olhar dos japoneses sobre o estrangeiro e sobre a sua religião. Sendo ele próprio um japonês praticamente 'obrigado' a converter-se ao cristianismo tornando-se mais tarde num cristão devoto, ele poderia melhor do que ninguém explorar estas componentes baseadas na percepção e no confronto de morais. É precisamente devido a isso que Endo disse em várias entrevistas que este livro tinha um pendor claramente biográfico. E não, não foi porque ele viveu durante o período de Tokugawa, mas, reflectindo na experiência pela qual atravessa Hasekura, é fácil compreender o que quis o autor dizer com isso, o teor biográfico é um teor espiritual.

Velasco revela-se uma personagem de grande complexidade entre a ambição e a arrogância e a dedicação absoluta a uma finalidade que considera superior. O clímax da compreensão da personagem/personalidade dá-se quando nos apercebemos que a sua paixão pela evangelização é em simultâneo a sua paixão pelo Japão. “Ó Japão! Quanto mais obstinado és, mais o meu espírito se inflama. Estou atraído por ti, Japão, como se não houvesse outra nação no mundo.” ( pág. 105 ed. Dom Quixote de 1987). De facto, desde a chegada do português Francisco Xavier em 1549 que algo ficou claro do ponto de vista académico, os primeiros japonólogos foram os missionários. Aprenderam a língua, compreenderam os costumes, juntaram-se aos japoneses nas suas vivências, estudaram com minúcia o budismo e o xintoísmo para poderem apreender pontos comuns para a evangelização. O Japão que nos seduziu com a sua cultura moderna, pelos vistos já seduzia desde o tempo dos xogunatos.




Hasekura choca-se com a paixão de Velasco porque foi educado num país onde os excessos não são bem-vindos e no entanto Velasco sabe que “Talvez, apesar me odiar, este homem se sinta atraído por qualquer coisa que eu significo.” ( pág. 79 ed. Dom Quixote de 1987). Por algum motivo os japoneses sempre aprenderam com os estrangeiros apesar de uma sempre presente desconfiança e um profundo zelo.


Velasco ajuda-nos a compreender a natureza teológica e espiritual do Japão:


“Era fácil ensiná-los que a vida é transitória. São sensíveis a este aspecto da vida. E são-no tão profundamente que escrevem versos inspirados nessa emoção. No entanto, os japoneses não tentam ir além desse conhecimento. Não desejam de modo algum retirar consequências desse facto. Repugna-lhes fazer distinções claras entre o homem e Deus. Para eles, se há algo superior ao homem, é aquilo em que o homem se pode tornar ele próprio um dia. O Buda, por exemplo, é um ser em que o homem se pode transformar se abandonar as ilusões. Até a natureza, que para nós é algo absolutamente à margem do homem, é para eles uma existência que envolve a humanidade.”...”É por isso que os japoneses não podem acreditar no nosso Deus, que reside num domínio separado do homem.” ( pág. 174 ed. Dom Quixote de 1987)


A borboleta como símbolo da morte é a personificação da efemeridade na cultura japonesa.

Hasekura olha para aquela pequena estátua que existe em todas as casas no México, em Espanha e em Itália. Aquele homem magricelas espetado numa cruz. “Como poderia venerar alguém tão fraco, tão miserável?” questiona-se o samurai. Quando Hasekura é forçado a converter-se ao cristianismo em nome da sua missão ainda não compreende a mensagem daqueles estrangeiros e acima de tudo sofre de um profundo sentimento de traição.


“Os Japoneses nunca viveram a vida como indivíduos. Nós, missionários europeus, não tínhamos consciência disso. Suponhamos que tínhamos aqui um japonês. Tentamos converte-lo. Mas jamais existiu um indivíduo a quem pudéssemos designar «Ele» no Japão. «Ele» tem uma aldeia atrás de si. Uma família. E mais. Há também os parentes falecidos e antepassados.”
… Os japoneses dizem «Acredito que os ensinamentos de Deus sejam bons. Mas estaria a trair os meus antepassados se fosse para um Paraíso onde eles não pudessem habitar. As nossa ligações com os nossos pais e com os nossos antepassados são muito fortes». Deixai-me salientar que não é uma questão simples, a adoração dos antepassados. É uma fé que limita e constrange.
( pág. 173/174 ed. Dom Quixote de 1987)


A missão resultou num nada absoluto. O governo mudou aquando da estadia dos enviados no estrangeiro e aquilo que era a sua missão quando partiram já não é nada quando regressam. Esta missão é um total buraco negro na história do Japão, não é pelo valor histórico que ela está aqui representada.


Painting of Hasekura Tsunenaga by Deruet in 1615. Right: Ship detail of the painting enlarged
É nesta profusão de sentidos que o livro nos surge como muito mais do que uma mera representação histórica de factos, muito mais do que o retratar de uma das primeiras missões japonesas ao ocidente mas sim como uma viagem ao interior do pensamento que nos destinge e nos torna fruto espiritual do nosso espaço, numa avaliação sociológica das condutas individuais.
Claro que há nuances, há divergências internas, durante a missão Velasco lida com muitos tipos de japoneses mas o autor quis focalizar Hasekura como uma personagem standart, um protótipo. Ao ler o livro perguntamo-nos se a história não se deveria centrar no curioso e aventureiro Nichi, um samurai japonês diferente, com um espírito aberto muito pouco comum. Mas o autor teve claramente intenções especificas ao destacar Hasekura.


Não só a missão no Japão fracassou como a missão no estrangeiro e na ambição de Velasco em tornar-se Bispo do Japão fracassou devido a interesses terceiros, invejas e egoísmo. Hasekura sente-se tentado a resumir que mesmo sem sair do Japão, já tinha conhecido o mundo. O mundo são as pessoas e as pessoas são as mesmas, guiam-se pelos mesmos instintos corrompidos em todo o mundo. E no entanto, face ao abandono do homem pelo próprio homem, é aí que reside o espaço destinado à tentativa de compreensão do etéreo, à compreensão da existência de uma entidade que nos acompanhe na nossa miséria humana, na nossa condição desgastada.
De volta a um Japão devotado à perseguição sangrenta pelos cristãos, escusado será referir o martírio pelo qual atravessaram os convertidos em missão e posteriormente o Velasco ou Padre Sotelo que regressa propositadamente ao Japão para aí ser enclausurado e condenado à morte.

Numa espécie de fábula negra, “O Samurai” representa as consequências das vários formas de convivência humana com o divino.
Sara F. Costa