28.10.09

Período Heian 平安時代

Estou a tentar iniciar um arquivo histórico e documental da poesia japonesa durante o Período Clássico - ou Período Heian. Vou publicar aos poucos no Bungaku aquilo que vou redigindo. Aqui fica uma primeira parte.


No final do século VIII, a capital do Japão moveu-se de Heijo para Heian Kyo, a cidade da paz e da tranquilidade. O modelo para a cidade foi importado da China, com o qual a corte japonesa estava a levar a cabo uma correspondência activa entre embaixadores, comerciantes, artistas e padres Budistas. Durante os primeiros anos da nova era, modelos continentais dominaram também a poesia. Mas em meados de 800, a dinastia Tang começou a dar muitos sinais de colapso, e por essa e por outras razões os japoneses começaram a virar as costas ao continente. No passado tinham assimilado essencialmente modelos chineses em todas as componentes da vida cultural do país. Agora o tempo tinha vindo para refinar esses modelos e para torna-los mais distintamente japoneses.

Esta reviravolta interna tornou-se num dos maiores florescimentos da cultura da corte na história do Japão. A classe aristocrática e, particularmente, o clã Fujiwara - que dominara a corte na maior parte do tempo do Período Clássico – adornou-se com as mais finas sedas e adquiriu os mais valiosos objectos da época, desde espadas decorativas a carros e carruagens. Competindo entre si, construíram grandes casas, rodeadas por jardins e lagos e decoradas por pinturas e movéis feitos pelos mais promissores artistas da época. Até os seus santuários eram decorados com móveis de cores fortes e brilhantes, contrastando com algumas das mensagens mais sombrias de Buda.

A poesia apareceu em larga escala. De facto, durante o Período Clássico, ou Período Heian (794-1185), a poesia tornou-se num tema central no coração da corte, usada como tema de conversa, para correspondência entre amigos e, mais importante, para mensagens trocadas entre apaixonados. Acompanhando a caligrafia e o talento musical, a habilidade de compor um bom poema era considerada essencial. As influências chinesas na temática e no imaginário literário eram novamente proeminentes e compor poesia não era algo ultrapassado e antiquado mas sim um assunto sério, envolvendo técnicas de retórica e o conhecimento do cânon.

Muita da poesia da altura, perto da forma Uta, nunca foi registada. Mas contos tais como o Genji Monogatari de Murasaki Shikibu deixam bem claras as influências da literatura no dia-a-dia da corte. Este período está ainda repleto de diários e memórias e por vezes até nos registos históricos podemos encontrar vestígios das temáticas dos poemas da época.

Foi nesta altura que surgiram os concursos de poesia entre a corte (uta-awase), tornando-se mesmo num dos passatempos favoritos da vida aristocrática pois era uma forma dos ávidos poetas tornarem a sua obra pública (naquela que foi uma primeira forma de “publicação”). E estes concursos acabaram por acumular material em bruto pronto a ser utilizado em antologias imperiais, seis das quais foram mandadas compilar por ordem imperial durante 905 e 115l. Registados no mais requintado papel da altura pelas mãos mais talentosas para a arte da caligrafia, ordenadas e armazenadas em elegantes caixas inicialmente utilizadas apenas para arquivar sutras buditas, estas colecções vieram simbolizar uma herança da vida social da corte. Juntamente com a colecção pessoal dos membros de famílias, cópias à mão do Kokinshu - uma antologia da poesia moderna japonesa organizada em 905 - os aristocratas tinham as suas próprias bibliotecas pessoais, cujos proprietários guardavam com estima na ambição de um dia verem alguns dos seus próprios trabalhos reconhecidos.

De entre estes poetas, grande parte acabou por surgir da classe média da aristocracia com um lugar de destaque para algumas mulheres mais particularmente activas na redacção e oficiais de posições intermédias, que conseguiram adquirir através da poesia um estatuto social que o mero background da sua família não conseguira alcançar por outras vias. É num tributo à sua energia e preseverança que eles acabaram por ser os pioneiros a estabelecer os padrões apropriados em questões como tema, vocabulário seleccionado e registos sensoriais adequados. Os seus poemas permaneceram standard por muitas gerações. Se o Manyoshu deixou alguma dúvida sobre a matéria, pessoas como Ki no Tsurayuki (872-945) deixaram bem claro que, seja em japonês ou em chinês, esta poesia se trata de uma poesia produzida pela corte, para a corte (enquanto audiência) e que os de fora só poderiam aceder a este estatuto por comprovação de qualidade e refinamento de produção literária, adquirindo as restritas convenções em vigor e os padrões de gosto da elite.



Bibliografia:

Carter, Steven D. (translator), Traditional Japanese Poetry: An Anthology, Stanford University
Bowring, Richard. 1982. Murasaki Shikibu: Her Diary and Poetic Memoirs. Princeton, N.J.: Pinceton University Press.


Sara F. Costa

21.10.09

POEMA DE BASHÔ



O velho tanque -

Uma rã mergulha,
barulho de água.


Este é um dos poemas mais conhecidos de Bashô, aqui traduzido pelo professor e literato brasileiro Paulo Franchetti.
Sendo uma tradução, não é possível verificar aspectos formais importantes, presentes nos textos originais: a ausência de rima e o uso de 17 sílabas métricas japonesas (5-7-5). Apenas constatamos que são três versos, pelos quais se distribuem não mais do que duas frases.
Quanto ao conteúdo, é notória a expressão de dois elementos, em separado, um imediato (o salto ruidoso da rã ) e um mais geral (o velho tanque). A separação (kireji) é feita pelo hífen.
A percepção sensorial (visual e auditiva) do som da rã a saltar enquadra-se numa percepção sugestiva mais ampla, a do velho tanque que poderá evocar um velho jardim, velhas árvores de outras eras, o silêncio que permite escutar o barulho da rã, o repouso que permite acompanhar o seu salto para o tanque. É um súbito elemento da natureza que inspira um ambiente, talvez de quietude, talvez de intemporalidade. É o movimento ruidoso da rã que define o imediato e efémero; é o velho tanque com suas águas que representa o eterno e intemporal. O hífen é o elemento de separação entre o que é físico e imediato e o que é mais amplo e passível de sugestões.

Segundo a filosofia Zen, seguida por Bashô, podemos reconhecer no poema o conceito de iluminação súbita que permite a percepção da verdade: o movimento ruidoso da rã permite reconhecer o transitório e o eterno, que não se antagonizam mas se unem num instante único.

E, no entanto, o poeta diz apenas que ouviu o som de uma rã saltando para dentro de um velho tanque. Nada mais diz, explica ou esconde. Aqui reside o conciso, o depurado, a simplicidade, a fluência e a beleza natural do haiku. A expressão minimalista que harmoniza o caos num único instante.


9.10.09

"A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol" Haruki Murakami.




"A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol" é um romance invulgar para Haruki Murakami. É mais pequeno do que "Kafka à Beira-mar" ou do que "A Crónica do Pássaro de Corda" e é, devido a uma notável ausência de pormenores surrealistas, um livro muito acessível, comparado com os exemplos que dei. Mais fácil de digerir, mais fácil de interiorizar, talvez seja até mais fácil para leitor relacionar-se com as personagens.

Passado em Tóquio, na sua maioria, é um livro bonito. A maioria da obra de Murakami não é bonita. Nem agradável. É dura, é estranha, é bizarra, é surreal mas não é bonita.

Eu gostei particularmente deste livro por ser extremamente bonito. Mas por detrás da beleza e da acessibilidade deste livro esconde-se um manancial de verdades escondidas e de pequenas pérolas de sabedoria. A única diferença é que, ao passo que noutros livros de Murakami eles às vezes passam ao lado do leitor, devido à aparente loucura do que está a acontecer a cada virar de página, aqui elas estão à vista de todos, escondidos nas reacções das personagens e na fracturada psique de Hajime, uma personagem quebrada, dividida entre dois mundos, ou mais, tal como todos nós.

É fácil identificar-nos com uma personagem como o Hajime, que tem uma vida que aparentemente tem tudo, mas à qual falta algo. É mesmo muito fácil perdermo-nos no mundo dele.


Pousei as mãos no volante e fechei os olhos. Não tinha a sensação de estar dentro do meu próprio corpo; sentia o corpo como um recipiente transitório, temporariamente emprestado. Que seria de mim no dia de amanhã? Queria comprar um cavalo à minha filha o mais cedo possível, antes que muitas coisas desaparecessem, antes que o mundo se estilhaçasse.


É mesmo muito fácil entrarmos no mundo de alguém que aparentemente está bem, aparentemente tem tudo, e que se esforça muito para parecer bem, e para não dar a entender às pessoas que o rodeiam o que se passa na realidade, quando na realidade está assim. Acho que todos tivemos momentos assim na nossa vida. Mas acho que poucos os poderíamos pôr em palavras de forma que fizesse tanto sentido para nós como Murakami os põe aqui, sem nunca nos conhecer ou ter ouvido a nossa história.

Uma história lindíssima do melhor romancista da actualidade. Recomendo vivamente.


Há muitas maneiras de viver. Há muitas maneiras de morrer. Isso, porém, não tem qualquer importância. No fim, fica apenas o deserto. Só o deserto permanece verdadeiramente vivo.


João Zamith