30.12.09

A Casa das Belas Adormecidas – Yasunari Kawabata




Yasunari Kawabata é um dos escritores japoneses contemporâneos de maior sucesso no mundo. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1968 e quatro anos depois cometeu suicídio. A solidão, a angústia da morte e a atração pela psicologia feminina foram seus temas constantes. E uma das obras em que ele mais explora o erotismo feminino é A Casa das Belas Adormecidas.

Eguchi é um senhor de 67 anos que visita um hotel no qual moças são dopadas e pagas para passar a noite com velhos que “deixaram de ser homens”, nas palavras do prórpio personagem. Todas as meninas eram virgens, e a condição da casa é que nenhuma delas poderia ser corrompida pelos visitantes. Elas dormiam nuas e profundamente no quarto enquanto os senhores gozavam do prazer de estar ao lado delas.

Ao todo Eguchi tem contato com seis “belas adormecidas”, cada qual deixando uma marca diferente no velho. Ao longo do romance o personagem passeia por suas lembranças, além de encontrar-se com a alma feminina, com todas as mulheres de sua vida.

Ao ler A Casa das Belas Adormecidas, o leitor terá a impressão de estar diante de uma pintura da qual extrairará alguma interpretação, mas nunca uma resposta exata. A conclusão, ao contrário do que estavamos acostumados na cultura ocidental, é muito mais subjetiva do que certeira, digamos assim.

Acredito que exista uma beleza latente e incômoda nos textos do Kawabata, como se estivéssemos diante de um irrealizável constante. Como se fadados ao nada. E é exatamente por isso que vale muito a pena ler.



Mylle Silva

19.12.09

Ariwara no Narihira (在原業平, 825 - 880)

Durante cerca de cem anos depois da compilação do Manyoshu, a corte japonesa continuou a demonstrar um intenso interesse pelos assuntos chineses que inicialmente atraíram Otomo Tabito e o seu círculo. Ao contrário dos membros do pavilhão de Kyushu, o imperador e a corte continuaram a compor sempre em chinês. Entretanto a poesia japonesa, ainda que permanecendo como um meio de comunicação informal, perdeu a sua vitalidade. Quando em meados de 800 a poesia ressurge em japonês ela ainda denota influências visíveis da poesia chinesa elaborada durante as Seis Dinastias (durante o período dos Três Reinos) caracterizada por expressões assertivas, metáforas e jogos inteligentes de palavras. Esta poesia dá uma especial ênfase ao intelecto e tem recorrentemente a argumentos e conclusões e tem ainda uma preocupação com a percepção global do leitor – afastando-se aí do estilo mais directo de Hitomaro e Akahito.


Um dos primeiros seguidores desta tradição foi Ariwara no Narihira, este autor de Waka cuja descendência genealógica denota ligações imperiais sendo, sendo o 15º filho do príncipe Abo (filho do Imperador Heizei). Permaneceu uma figura menor numa hierarquia cada vez mais dominada pelo poder do clã Fujiwara. O seu maior cargo profissional foi o de responsável oficial da corte, cargo este para o qual foi apontado alguns meses antes da sua morte. Há registos de que tenha sido anteriormente apontado para cargos de relevo mas os seus devaneios românticos levaram-no a situações polémicas – rumores que o envolvem com Fijiwara no Takaiko – ao que parece, uma consultora da corte.


Temos conhecimento da importância da sua obra devido à referência que Ki no Tsurayuki lhe faz no prefáfio de Kokin Wakashu.

Os registos históricos descrevem-no como um ser de carisma, atraente e culto, tendo recebido alta formação em poesia chinesa. Muito envolvido na vida poética do seu tempo, escreveu para várias ocasiões específicas nas celebrações da corte. Os seus poemas denotam um grande conhecimento e domínio técnico mas com uma ligeira tendência para uma tonalidade grave e séria que o deixou à margem dos leitores que preferiam uma tonalidade mais leve e humorística. Esta faceta introspectiva é bastante peculiar nos seus poemas de amor. Sendo ele próprio considerado um conquistador na área das paixões, a sua história está parcialmente relatada no Ise Monogatari (Conto de Ise) – a sua matéria empírica para a escrita não seria pouca. O Ise Monogatari contém muitos dos seus poemas no género Waka embora nem todos os poemas atribuídos àquela que é no livro a sua ‘personagem’ sejam efectivamente seus. Acredita-se que mesmo Murasaki Shikibu se inspirou na sua vida amorosa para escrever os sucessivos relatos de paixão e lascívia de Hikaru Genji no Genji Monogatari, a referência ao herói romântico tentando conquistar uma consultora da corte é uma das situações que leva os especialistas a esta conexão. Considerado um dos modelos de beleza masculina do seu tempo, na sua obra a temática do amor surge quase como uma ideia pura de desejo e perda do controlo sobre o meio e sobre si próprio, uma vertigem consentida, como define Steven Carter “to have powers of reason that the stronger forces of emotion refuse to obey”.

Aqui alguns exemplos de traduções por Thomas McAuley disponíveis on-line:


yo no naka ni/taete sakura no/nakariseba/Faru no kokoro Fa/nodokekaramasi




If, in this world of ours

All the cherry blossom

Disappeared

The heart of spring

Might find peace.

(Composto no Palácio de Nagisa)
KKS I: 53



keFu kozu Fa/asu Fa yuki to zo/Furinamasi/kiezu Fa ari tomo/Fana to mimasi ya

Had I not come today,

Tomorrow, in a blizzard

They might be falling.

Not to melt away, but,

Would they still seem the flowers?

KKS I: 63

nuretutu zo/siFite worituru/tosi no uti ni/Faru Fa ikukamo/arazi to omoFeba


Soaked through, and

Heedless of it, I plucked this:

For this year

Spring, is all but

Gone: or so I felt.

KKS II: 133



+Poemas




Trans. Helen Craig McCullough (1968). Tales of Ise: Lyrical Episodes from 10th Century Japan. Stanford University Press. ISBN 0-8047-0653-0.

Carter, Steven D. (translator), Traditional Japanese Poetry: An Anthology, Stanford University



Sara F. Costa

6.12.09

«O amor, a morte e as ondas»



Título : «O amor, a morte e as ondas»

Título em original: 死と恋と波と

Autor: Inoue Yasushi(井上靖)

Tradução em português: N/A

Escrito entre: 1950 e 1951







O «O amor, a morte e as ondas» reúne as seguintes novelas:

• «O amor, a morte e as ondas» (死と恋と波と)

• «O Jardim de pedras» (石庭)

• «O aniversário de casamento» (結婚記念日)

People fade away. Se fôssemos desaparecer alguém iria observar o nosso desaparecimento? Se deixássemos de amar alguém iria observar a nossa “desaparição"?

Yasushi Inoue nos remete novamente ao seu estilo insinuante – minucioso, através de um tríptico, que parece revelar-se tal como em romances policiais.

Construídas como mini romances, as três novelas seguem a mesma linha narrativa, acabando em oposição às expectativas iniciais. Bastante pertinentes, nos falam sobre as perspectivas perante a vida, o amor ou «fora do amor», a redenção através da incidência ou da intuição do amor.

Em «O aniversário de casamento» se constrói o primeiro discurso das decepções. Dois anos após a morte da mulher, Karaki não consegue pensar em um segundo casamento. É normal, a maioria diria; mas isso não acontece por ele ser o homem de um único amor, como nos ‘quadros’ ideais. Através de um casamento – e aqui o pensamento conduz, involuntariamente, a uma má escolha – Karaki sente que uma futura mulher ‘sem juízo’, ao ser gastadora, poderia desonrar a imagem da primeira esposa. Desta maneira, o marido justifica o seu isolamento no universo de um primeiro casamento nada perfeito, mas cujo conforto psicológico, especialmente com a morte da esposa, faz preferir a sua avareza ao invés de uma outra ‘solidão’ a dois.

Tudo emerge lento, outonal, entre sons de tigelas, vento cortante, pensões, comida tradicional e tatami. No quadro de um Japão do século passado, o casal parece ter surgido como a maioria, convencional, da mesma forma levando também a sua pequena vida no seu pequeno apartamento na periferia da grande cidade.

As personagens femininas são construídas, aparentemente, como um reflexo das masculinas, surgindo implicitamente da narrativa textual, em tons definitórios para a vida do carácter masculino.

As mulheres de Inoue são subtis e determinantes, são retratos que influenciam e marcam a vida dos homens que se encontram ‘por perto’. Não são eles ‘os amados’, e ao seu turno, de alguma forma natural, não são elas ‘as amadas’, mas apenas respeitadas, subjectivamente, pelas suas ‘qualidades’. Talvez, o aspecto mais interessante que estas mulheres têm em comum é o facto de chegarem a ser amadas apenas depois de terem saído da vida de cada um dos homens: seja pela morte, seja pela ausência física ou simplesmente tornando-se presença. As três novelas vêm ressaltando um aspecto comum: a solidão. Como consequência da perda do outro – em facto uma redenominação duma solidão de dois – o sentimento torna-se além de cíclico, omnipresente.

As ‘almas feridas’ das personagens e o inteiro quadro, conseguem transmitir o “afogamento”, já insuportável e perpétuo, da impossibilidade quase perversa, de intervir no próprio destino, aceitando o vazio existencial.

O jardim tradicional japonês, as águas termais de Hakone, o templo Saihōji, Kyōto ou Tōkyō passam a ser apenas instrumentos do turismo sentimental.

Ao mesmo tempo este esqueleto topográfico, visual, eufónico e cultural é o que mantêm o quadro lírico.

Afinal, olhar para a página vazia que está em sua frente é como olhar-se no espelho, forçando-se a se ver.



Iolanda Vasile