24.2.10

Kawabata Yasunari

La Beauté tôt vouée à se Défaire, Albin Michel, 2003

Este escritor sensível, delicado, apto a descrever as imperceptíveis cambiantes da cor das flores da cerejeira ou da ameixieira, os sons impalpáveis dos sinos dos templos, o erotismo delicado do pescoço da mulher, é um colector de cerimónias fúnebres. Provavelmente influenciado pelo passado. Pai, mãe e irmã, morreram de tuberculose antes de completar os dez anos. Educado pelo avô, que também morre poucos anos depois. Aos quinze anos está só. Nas cinco “Cartas aos meus Pais”, que escreve mais tarde, revisita este cortejo de horrores. Termina sempre as cinco cartas com o mesmo parágrafo: “Durmam em paz, pais defuntos, que não deixastes ao vosso filho nenhum meio de se lembrar de vós”.


A história conta-se assim.
Duas jovens, virgens, estabelecem uma relação superficial com um jovem desempregado chamado Saburo. Na sequência de uma brincadeira juvenil elas são mortas durante o sono por Saburo, aparentemente devido a um encadeamento de factos que deve tudo ao acaso e nada à intenção. Diz o narrador: “Pergunto-me se não poderei considerar este crime como um acto único, sem ligação com a sua vida, que não corresponde á sua vida, aparecido subitamente no espaço, como uma flor solitária sem folhas nem raízes, uma luz imaterial”. Mesmo onde a densidade da vida é mais forte, com um apunhalamento e um estrangulamento sucessivos, Kawabata não consegue deixar de impregnar o acto com a irrealidade e a derisão dum jogo de dados cósmico e flutuante. As próprias identidades são incertas e intermutáveis. Após a incineração, não sabemos se devido a distracção ou desinteresse do narrador e oficiante das exéquias, as cinzas são confundidas. « Eh bien, maintenant, on ne sait plus quelles cendres sont à qui. Elles qui étaient si différentes, les voici devenues exactement pareilles »
Um prefácio do seu discípulo e amigo, Mishima Yukio, aproxima este texto da « Casa das Belas Adormecidas », estranho romance que se encontra publicado em português.


Alberto Costa

20.2.10

Murakami Haruki (1949-)

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Haruki Murakami, Sputnik meu Amor, Editorial Notícias, 2005



Nascido em Kobe, fez extensos estudos sobre a cultura ocidental, nomeadamente sobre a tragédia grega. Depois de uma experiência com um clube de jazz decidiu consagrar-se à escrita. Tem vivido em vários países ocidentais. Influenciado pelos escritores americanos mais recentes, de que foi tradutor, nomadamente Raymond Carver, com uma linguagem simples e fluida aplica princípios minimalistas à narrativa. Murakami é um escritor cosmopolita. Quase todas a suas referências estão fora do Japão, na América mais precisamente, com acumulação de pormenores da cultura pop, produtos e mercadorias americanos, e da cultura erudita de tradição ocidental. Também foi claramente influenciado pela ficção científica. Em quase todos os seus romances existe uma deriva para impossibilidades lógicas explícitas e o aparecimento de objectos oníricos, de que por vezes não se percebe muito bem qual a sua função. É precisamente o percurso, a partir de uma realidade banal, com personagens banais, normalmente jovens, para situações surpreendentes, absolutamente impossíveis, mas tornadas quase credíveis devido à “facilidade” do encadeamento de situações, que parece ter feito a fortuna e grande popularidade de Murakami. Como em todos os fenómenos de massas bem típicos do Japão, a juventude compra-o aos milhões. O fenómeno estendeu-se à Coreia e parece já existir uma legião de imitadores. Porquê tanta popularidade entre a juventude? Deixemos isso para os sociólogos. Alguns críticos apontam-no como o grande escritor do futuro. O romancista americano Jay McInerney não faz a coisa por menos e declara que Murakami captura "the common ache of the contemporary head and heart."
Alguns críticos consideram o volumoso "The Wind-Up Bird Chronicle" o seu melhor livro. Não li.
Dos livros que li:

“A Wild Sheep Chase”. Como o título indica o romance centra-se numa caça a um carneiro selvagem na ilha de Hokaido, num percurso com característica iniciáticas e de auto-descoberta, com características de romance de aprendizagem. O narrador é ameaçado por uma organização de extrema-direita. O carneiro, uma espécie única e marcado por uma estrela no dorso é crucial para a apropriação do poder absoluto. Ou, pelo menos assim parece, porque, o fim é insatisfatório e as diversas chaves de leitura não constroem uma estrutura temática explicativa. Para muitos leitores é a sua melhor obra. Como noutras obras de Murakami às objecções de falta de explicações credíveis, ou pelo menos coerentes, os “fãs” afirmam que o que conta nos seus livros é o percurso e o prazer da leitura desse percurso.

“La Fin des Temps” (não existe tradução em Inglês). O livro parte de uma ideia conceptual interessante: a existência de dois narradores que com percursos diferentes se conjugam num só, no final. O número de “irrealidades” é elevado no livro: uma cidade povoada de licornes, que encerram nos seus crânios os “sonhos antigos” dos habitantes e que está protegida por uma muralha quase intransponível, secretamente ligada ao nosso mundo via pensamento; super empresas de informática com programas apocalípticos; um velho sábio solitário que pesquisa alterações estruturais do cérebro, num universo subterrâneo que se descobre comunicar com Tokyo; junções de circuitos eléctricos tipo FC, etc. As leituras possíveis são muitas e trazem algum encanto ao livro. O prefácio da edição francesa é vibrante de entusiasmo. Para mim são demasiadas páginas (500) para tanta confusão.



“Après le Tremblement de Terre”. Já por mim referido no meu post de 1-12-2004. É o melhor livro que li de Murakami. O autor despe-se da ganga ilusionista e aplica com rigor os ensinamentos da literatura americana. O sismo de Kobe de 1995 é o acontecimento que subtilmente faz vibrar os personagens das seis novelas que compõem o livro. Magnífico.

O “Sputnik meu Amor” começa mal. Logo nas primeiras páginas temos coisas como esta: “ O seu belo e varonil nariz avolumava-se sugestivamente por trás da máscara, fazendo corar os pacientes. E (apesar de o seguro de saúde não cobrir os custo...) elas apaixonavam-se por ele num abrir e fechar de olhos.” Logo mais à frente “No fim de contas, a Terra não se dá ao trabalho de girar à volta do Sol apenas para gáudio dos seres humanos.” O mau gosto vai diminuindo e a intriga aumentando de situações não plausíveis. No limite existe uma personagem que desaparece, porque passa para outra dimensão dela própria. Estamos a ver: as pessoas e as suas metades. O número de referências à cultura ocidental erudita consegue enjoar. O livro aproxima-se daquilo que se começa a convencionar de “literatura de aeroporto”.
No “Sputnik meu amor” diz o narrador sobre a personagem principal Sumire: “ Não se pode dizer que ela tivesse alguma vez experimentado a angústia do escritor perante a página em branco. Para dizer a verdade, escrevia ininterruptamente tudo o que lhe vinha à cabeça. O problema era que escrevia demasiado. Nesse caso, dir-me-ão, é óbvio que bastaria que ela se desse ao trabalho de eliminar tudo o que estava a mais, mas a verdade é que as coisas não eram assim tão simples. No que tocava à sua escrita, Sumire mostrava-se incapaz de distinguir entre o que era relevante e o que não o era”. Aí está!

Alberto Costa

9.2.10

Kazuo Ishiguro e As Colinas de Nagasaki

Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki em 1954 mas a sua família mudou-se para Inglaterra quando este tinha apenas seis anos. Licenciou-se em Filosofia na University of Kent e concluiu o mestrado em Escrita Criativa em 1980 na University of East Anglia, na cidade de Norwich. Nomeado pela revista Granta como um dos melhores 20 escritores britânicos da actualidade, a sua nacionalidade pedida pelo próprio em 1982, não nos deve enganar em relação ao vínculo dos seus livros com o cenário japonês ou, pelo menos, à expressividade cultural que lhe é própria. De facto, há no autor uma identidade japonesa indeclinável e é algo que se depreende assim que se começa a ler a sua obra.

Obviamente que o seu posicionamento lhe permite uma consciência mais multicultural, o que só pode ser benéfico na consciência transversal da sua produção. É conhecido por ser um autor de best sellers de qualidade, já que o número de vendas pode reflectir o aspecto comercial mas a qualidade da obra obtém frequentemente reconhecimento tendo o seu expoente máximo na atribuição do importante Man Booker Prize ao livro “The Remains of the Day”.
Parte da temática genérica dos seus livros recria retratos psicológicos individuais e colectivos do Japão moderno, incidindo muitas vezes na memória do período pós-guerra. A particular ligação a Nagasaki constituirá um encadeamento natural a tal abordagem. Por isso Ishiguro é um nome inevitável na listagem dos autores contemporâneos ligados ao Japão. E por onde começar? Bom, o bom senso dir-nos-ia pelo início! Por isso trago para este artigo o primeiro livro escrito pelo autor, “A Pale View of Hills” de 1982. O livro foi editado em Portugal pela Relógio D’Água com o título “As Colinas de Nagasaki”. A edição é já antiga e talvez se possa, portanto, pensar já numa reedição… Fica a ideia!

As Colinas de Nagasaki falam da memória de Etsuko, japonesa a viver em Inglaterra cujo passado num ambiente de guerra deixou muitos legados traumáticos, entre a morte do primeiro marido ao suicídio de um filha. Etsuko começa a contar à filha a sua memória de uma vizinha que conheceu antes de sair do país e é por aí que a narrativa se desenvolve.
A fase inicial de Ishiguro é muito debruçada para as reminiscências, as memórias semi-obscuras, distorcidas e acima de tudo claustrofóbicas. A ideia de que todos os acontecimentos progressivamente moldarão a nossa mente ou que a nossa mente se reflecte sucessivamente nas nossas obsessões presentes e que a noção de insignificância é, no fundo, muito questionável. Há uma grande densidade psicológica sem uma grande densidade lexical. As personagens são apresentadas de uma forma muito pura e factual. Os pensamentos são deduzidos, não verbalizados. Há um ambiente muito relacional japonês, com toda a sua formalidade e superficialidade mas também a sua crueza, a sua sinceridade que para lá do véu de cortesia que pode ter um impacto que a um ocidental pode parecer ligeiramente belígero. Outras temáticas presentes são as do conflito de mentalidades, a revolução e o atrito do conservadorismo que de alguma forma nos é apresentado como empático ainda que não muito racional. O autor usa contextos irónicos para realçar a reflexão sobre o papel da mulher e da mentalidade tradicionalista, o ensino patriótico, a noção de autoridade e a opressão do passado que continua a influenciar o presente, apesar das mudanças políticas. É assim que se constrói esta elegia suave onde o minimalismo da história assume a forma do indizível.

Sara F. Costa
também em

4.2.10

HERÓIS E BESTAS, SEVÍCIAS E PUDORES, SEGUNDO TANIZAKI JUN’ICHIRO

“BUSHUKÔ HIWA — 武州秘話 — A HISTÓRIA SECRETA DO SENHOR DE MUSASHI” (1931—32)
     
 

                “Rezam as crónicas da época, que pelo décimo mês do décimo-oitavo ano de Ten’Bun ( 天文十八年十月)[1549], Yakushiji Dan’Jo Masakata adoeceu subitamente, e enquanto decorria o assalto ao Castelo de Ojika.
                 “O cêrco foi, pois, levantado, e as suas forças marcharam em retirada para Kyoto, onde Yakushiji viria a perecer, escassos dez dias volvidos, na sua mansão em Abura’Kouji.
                “Resulta, porém, claro d’“As Confissões de Dôami” e do “Sonho De Uma Noite” que tais relatos em nada correspondem à verdade do sucedido...              Pois que, à época destes eventos, só um punhado de próximos de Yakushiji se inteirou da verdade desta história. E no Castelo de Ojika, só o próprio Hôshimaru (法師丸) — futuro Senhor de Musashi — da verdade sabia...”

«De Quando Ambas As Forças Em Batalha Se Tomaram De Espanto E  As Hostes De Yakushiji Dan’Jo Masakata Levantaram Cêrco E  Debandaram...» in “Bushukô Hiwa (武州秘話) — A História Secreta do Senhor de Musashi”
 TANIZAKI JUN’ICHIRO, 1931       



        Inédita em Portugal e recentemente trazida a público no Brasil, em versão portuguesa, com tradução a cargo de Dirce Miyamura, sob o título “A Vida Secreta do Senhor de Musashi” (ed. Companhia das Letras, São Paulo, Setembro de 2009) — desta feita, e à semelhança da versão inglesa de Anthony H. Chambers, de 1982 (“The Secret  History of the Lord of Musashi”), fazendo-se acompanhar da novela sua ‘gémea’ intitulada “Yoshino Kuzu” (吉野 - “Arrowroot” na versão de Chambers), esta igualmente publicada pela primeira vez em 1931 —, “Bushukô Hiwa” (武州秘話) permanece, no nosso tempo, como uma das mais  extraordinárias obras vertidas do indomitável génio de Tanizaki Jun’Ichiro (1886-1965), vulto incontornável da literatura nipónica do século XX e autor de um dos mais emblemáticos e celebrados espólios literários do seu tempo. E se esta obra, ainda relativamente desconhecida entre nós, terá à data da sua conclusão, em 1932, suscitado um vasto manancial de emoções, do riso enternecido de uns à indignação puritana de outros, ela conserva ainda hoje, inequivocamente e em estado puro, a frescura de espírito burlesco e o humor hilariante que lhe deu o tom, e que raríssimos escritores do seu tempo partilharam com o aclamado autor de “Sasame Yuki  (細雪) — As Irmãs Makioka”  (1943-48).

        Mas se “Bushukô Hiwa” se nos afigura como uma obra emoldurada numa equação de termos sobejamente simples — a re-elaboração da biografia de uma temível figura do Japão feudal (heroicizada pela História dita ‘oficial’, esta cobrindo aquela de elogios, ocultando as suas facetas mais obscuras, os seus mais infrenes vícios e maquilhando o grotesco), fazendo-o por recurso a dois olvidados “manuscritos da época” entretanto descobertos pelo autor/narrador, e servindo estes como fontes fidedignas dessa outra história, a tal dita secreta, que cabe agora revelar —, não obstante esta “História Secreta...” impõe-nos, à partida, a leitura de uma ou duas advertências a título de notas prévias, prendendo-se estas com a sugestiva fórmula do seu título, passível de  suscitar uma ou outra dúvida, a saber: a referência a um certo território, feudo, suserania ou Han () ancestralmente designado pelo nome Bushu (ou Bushuu — esta última latinização dos Kanji [Bu - de bélico ou  militar] e 州 [Shuu - estado(s)] sobrepondo-se como eventualmente mais acertada), remete-nos para a questão da opção pelo nome Musashi (武蔵) a preponderar na generalidade dos títulos das versões traduzidas desta obra, até hoje publicadas no Ocidente.



A este respeito e com rigôr, sabemos que o espaço geográfico designado por Tanizaki como lugar do domínio de Terukatsu, Senhor de Musashi’, corresponderia  a uma área só posteriormente tratada por esse nome, localizada a sul da planície de Kanto, lugar da então Edo, hoje Tokyo. 

            Certo é que, da leitura do texto original d’”A História Secreta...”, verifcamos que, com efeito, o nome Musashi , não obstante a clareza do título original, figura como cognome do dito Terukatsu do princípio ao fim da obra.


Numa segunda observação, o nome Musashi eventualmente induzir-nos-ia num inocente equívoco: referir-se-ia Tanizaki, porventura, com a sua personagem, à figura semi-mítica de  Shin’men Takezo, esse dito Miyamoto Musashi (c. 1584 - 1645), primaz dos lidadores da espada do Período Azuchi-Momoyama (安土桃山時代 — 1568-1603) e primórdios do Período Edo (江戸 — 1603 a 1868), artista pluri-disciplinar e génio quasi-DaVinciano da época posteriormente designada por Renascimento de Kyoto (京都文復興期  — Kyoto Bungei’fukkouki), o mesmo herói do  lendário duelo de Ganryu’Jima (「 巌流島の決闘」) no qual eliminaria o seu arqui-rival Sasaki Kojirô (佐々木小次郎), e autor do magistral Go’Rin-No-Shô (「五輪書」)  — o mil e uma vezes citado “Livro Dos Cinco Anéis”?


        A resposta a esta questão é categórica: nem de perto, nem de longe, existe seja que relação fôr entre esse Miyamoto Musashi que a História registou igualmente como  combatente nas fileiras de Tokugawa Ieyasu (徳川家康) nas campanhas de Sekigahara  e Shimabara e ess’outro Terukatsu, ‘Senhor de Musashi’, personagem inteiramente fictícia, e saída tão-só da imaginação incendiária de Tanizaki.
        Desta breve análise, depreendemos que o título possível de “A História Secreta do Senhor de Bushu(u)” poderia sempre servir como última opção para uma versão traduzida, dispensando, assim, os eventuais equívocas supra mencionados.
            Em todo o caso, o título com a referência a um certo “Senhor de Musashi”, entre nós, parece ter assente terreno e vindo para ficar.  Subsistirá, em qualquer recurso,  a dúvida sobre se esta última opção recorrente se deverá a uma particular astúcia ou estratégia editorial, transversalmente disseminada, com vista a atrair o potencial interesse de todos quantos identificam no nome Musashi o fascínio suscitado pela vida e  feitos do personagem real que o envergou em idêntico período histórico a esse que serve de cenário à novela de Tanizaki: o Período Sengoku (戦国時代 - Sengoku Jidai: período do País em Guerra), era de violentas guerras civis iniciadas em meados do século XV — final do Período Muromachi (室町時代 — 1336-1573) —, que devastariam o Japão por mais de dez longas e penosas décadas, e atingiriam o seu auge pela segunda metade do século XIV, com os conflitos protagonizados por Oda Nobunaga (織田信長), Toyotomi Hideyoshi (豊臣秀吉) e o acima referido Tokugawa Ieyasu (徳川家康).

*
·        Génese de uma quimera incompleta


       
       Acerca das origens d’”A História Secreta...”, Anthony H. Chambers, tradutor da mais conhecida versão inglesa desta obra, elucida-nos a este respeito, lançando mão a um curioso manancial de referências.

            Diz-nos Chambers que em 1948, havendo concluído a sua opus magnum, “Sasame Yuki — As Irmãs Makioka”, Tanizaki escreveu que entre as obras de sua autoria de que mais gostava, destacava “Tadeku Mushi (蓼喰う蟲) — Ele Há Gostos Para Tudo...” [“Some Prefer Nettles”, na versão inglesa], (1928-29) e “Yoshino Kuzu” (吉野葛“A Fécula de Yoshino”,“Arrowroot” na versão inglesa), como figurando entre as suas favoritas. Entre estas, destacava igualmente “Bushukô Hiwa — A História Secreta do Senhor de Musashi” (武州秘話).

       

            De 1910 até cerca de 1930, Tanizaki favorecera um certo estílo novelístico ‘ortodoxo’, “dinamizado por uma escrita descritiva minuciosa e pelo recurso a diálogos com propósitos estritamente objectivos”, como sucede no caso de “Tadeku Mushi (蓼喰う蟲) [Some Prefer Nettles]”, onde encontramos tais características  bem empregues.
      
        Contudo, de 1930 a 1935, Tanizaki envereda por um estílo sobremaneira mais ‘experimental’ e enredado em subtilezas, um género quase-novo de “ensaio-ficção”, cujo propósito declarado seria o de “encontrar a forma que conferisse ao conteúdo uma sensação completa, grandiosa de realidade.”
            Aliada a esta conversão de estilo, um renovado interesse na contemplação da História e  Estética nipónicas, faz-se manifestar na sua escrita ainda antes da decada de 30, e sobretudo a partir de 1926.
            É em “Yoshino Kuzu” que Tanizaki apresenta, pela primeira vez, os seus dois novos interesses paradoxais: experimentalismo e tradição.
            Tendo pressentido ser inteiramente capaz de fazer fruir tão (aparentemente) improvável combinação, Tanizaki explorá-la-ia em várias das suas obras maiores, onde se destacam “A História Secreta...”, “Ashikari” (蘆刈) de 1932, “Shunkin’shô — Retrato de Shunkin” (春琴抄) de 1933, e a “A Mãe do Major Shigemoto” (少将滋幹の母), de 1949.
            A técnica narrativa vertida em “Yoshino Kuzu”, e n’ “A História Secreta...”, parece, por seu turno, ter colhido a inspiração na obra de Stendhal, “L’Abbesse de Castro”, inclusa nas “Chroniques italiennes”, que Tanizaki traduzira para Japonês ainda em 1928.  Na obra de Stendhal, à semelhança do que sucede com o protagonista de “Yoshino Kuzu”, o narrador viaja até Itália, partindo em busca da verdade acerca de uma história que, algures no tempo, teria sido distorcida por cronistas tendenciosos, e, na mesma esteira d’“A História Secreta...”, revela a sua versão dos factos, baseando-se em dois manuscritos recém-descobertos. Há, porém, uma diferença notória entre a obra de Stendhal e as de Tanizaki:    Stendhal recorre a manuscritos autênticos ao compôr as suas “Chroniques italiennes”, ao passo que Tanizaki mais não faz que pur’e simplesmente inventar os dois ‘manuscritos’ que sustentam a sua “A História Secreta do Senhor de Musashi” —   o “Sonho de Uma Noite” (見し夜の夢 - Mishi Yoru No Yume), atribuído à Monja Myokaku, e “As  Confissões de Dôami” (道阿弥の手記 - Dôami No Shuki) resgatadas a um seu  pajem d’outrora — e todas as personagens dest’última, à excepção de alguns Daimyo (大名 — senhores feudais) referidos no prefácio e no Tomo I, são , todas elas, absolutamente fictícias — em todo o caso, adverte-nos A. H. Chambers, o leitor não deverá assumir o narrador de “Yoshino Kuzu” como se se tratando do próprio Tanizaki: “a ‘Mãe’ mencionada nestra obra é, na verdade, a mãe do amigo de [do personagem] Tsumura” escrevia Tanizaki em 1964. “Minha Mãe nasceu em Fukugawa, Edo, em 1864, e veio a falecer em Kakigara-chô, distrito de Nihonbashi, Tokyo, em 1917; como filha devota de Tokyo, minha Mãe nunca se deslocou ao Japão ocidental [Yoshino, Kyoto, Nara, Osaka, etc.](...)”

Com efeito, a escrita de Tanizaki é notoriamente menos auto-biográfica que a da grande maioria dos escritores Japoneses seus contemporâneos. Tanizaki preferia clara e inequivocamente, fazer uso, tão-só, da sua prolífica imaginação. “Recentemente dei comigo enredado neste péssimo hábito”, escreve em 1926, “torna-se-me impossível ler, ou escrever, seja o que fôr que tome factos reais por matéria-prima, ou que avulte o que quer que seja — ainda que remotamente — de realista. E é por esse motivo que não faço o menor esforço por ler quaisquer obras destes autores de agora que vão surgindo nas publicações periódicas todos os meses. [Quanto muito] dou-lhes uma vista-de-olhos, às primeiras cinco, seis linhas, e logo dou por mim a dizer p’ra comigo mesmo «Aha! lá está ele a escrever sobre ele próprio...» e perco logo toda e qualquer vontade de prosseguir [com a leitura]. Via de regra dou por mim a ler coisas que em nada se prendam com os dias de hoje. Quando leio novelas históricas, historietas d’entreter ou até mesmo obras de algum realismo de há uns cinquenta anos atrás, ou até, porventura, obras de autores Ocidentais contemporâneos, que em nada se relacionam com a sociedade nipónica de hoje, aí sim!, posso deleitar-me com esses mundos que me são dados contemplar somente pelo exercício da minha imaginação.”
     
 E à semelhança do narrador de “Yoshino Kuzu”, Tanizaki terá, inicialmente, planeado escrever, conforme sugerira em 1933,  uma longa narrativa histórica, ao estilo de um “Quo Vadiz?”, fazendo desenrolar a acção no Japão feudal, numa tela de personagens repleta de cortesãos, um Shogun, sacerdotes, lindas donzelas insinuantes, intrincadas em labirínticas tramas e outras relações complexas, sofrendo incontáveis vicissitudes.  Tanizaki considerava, porém, que na sua generalidade, as crónicas históricas japonesas de índole tradicional, e dominantes no âmbito de  uma certa cultura clássica do seu país, se achavam demasiado enredadas numa certa ortodoxia confucionista, que as tornava excessivamente didácticas e sobremaneira insalubres, e lamentava, em termos depreciativos, o fardo do confucionismo na tradição histórico-literária do Japão.

            “Jamais saberemos quanto génio se perdeu nessa dita ‘literatura sóbria’ e por efeito dessa noção, dominante no Japão d’outrora, de que as novelas e o teatro só serviriam como entretenimento de mulheres e crianças, jamais podendo integrar o espólio cultural de um samurai. Um homem de letras como um Rai Sanyo ( 山陽 — 1780-1832), por exemplo, quantas e quão belas obras, de inegável valor literário, político e historiográfico e ainda assim dotadas de algum calor humano, de um pouco de Alma que fôsse, teria ele produzido, em lugar dess’enfadonha “História Não-Canónica do Japão.”

            E em particular, as visões tradicionalmente perfilhadas quer pelo Confucionismo, quer pelo Budismo no concernente às mulheres — de que estas seriam seres inferiores, pouco ou nada meritórios de alguma atenção séria —, com efeito, faziam-se igualmente reflectir nas crónicas e relatos históricos do Japão pré-Meiji, para tristeza de Tanizaki.
           
            Em 1931, o próprio escreveria:

            “Com frequência, dou por mim a pensar que gosto seria poder escrever uma novela histórica baseada numa figura do passado, mas logo dou comigo invariavelmente frustrado ao deparar-me constantemente com a dificuldade em formar uma imagem minimamente clara que seja das mulheres que teriam rodeado este ou aquele personagem em dada época...
            “Desde tempos imemoriais , que as genealogias das famílias do Japão incluindo a da própria Família Imperial (皇室Kô’shitsu), sempre providenciaram um vasto  manancial de detalhes acerca dos seus elementos do sexo masculinos; mas, quando toca às mulheres, a informação  resume-se invariavelmente a essas notas fugazes de “mulher” ou “feminino”, via de regra sem qualquer menção dos respectivos ano do nascimento ou da morte, e no mais das vezes sequer dos próprios nomes.
            “Por outras palavras: a História do Japão compõe-se de ‘indivíduos-homens’, mas nela nem faz sequer sentido  procurar um ‘indivíduo-mulher’...”

E, no ano seguinte, escreveria: “O meu desejo, aquilo que eu realmente gostaria de fazer, seria recriar a moldura psicológica dessa Mulher Nipónica de um certo Japão feudal, tal e qual como esta se manifestava, assim, isenta de quaisquer interpretações modernas, e retratá-la de tal modo que ela pudesse tocar a Alma, os corações dos leitores de hoje.”
“...Até mesmo  uma mulher que aparentasse guardar a mais cerrada castidade e a mais empedernida pureza de ideais, terá, por um instante, e sem sombra de dúvida, experimentado a sensualidade de um amor cárneo, imoral, porventura imprescrutável aos olhos de seus pares e de todos quantos a rodeassem; ciúme, ódio, crueldade, e tantas outras paixões desenfreadas, ainda que tenuamente, se lhe houvessem de’insinuar Alma adentro...
“Contudo é extremamente difícil retratar de forma convincente uma mulher que, nem por um momento breve que fôsse, alguma vez tivésse exteriorizado o menor sinal de tais paixões: alguém que vivesse uma vida inteira na clausura do seu próprio mundo interior.”

            Estas palavras foram registadas pouco antes da redacção de “Bushuko Hiwa — A História Secreta do Senhor de Musashi” e da criação da apaixonante e atormentada Dama Kikyo.

·        Uma lascívia de cabeças cortadas e narizes amputados...


            Mas na mesma medida em que recria a narrativa de uma rígida história de matriz confucionista, “A História Secreta do Senhor de Musashi”, igualmente consegue o feito inimitável de parodiar, até à última sentença, o puritanismo desse mesmo estilo: os mesmos aspectos da vida que os historiadores e cronistas de índole confuciana tratariam por pudicícia de ocultar nos seus relatos, Tanizaki fá-los exibir com o mais dissoluto despudor.







O narrador jamais trata de se questionar acerca da veracidade dos feitos ultrajantes, do grotesco e do do patético, atribuídos a Terukatsu por via do “Sonho de Uma Noite” e  d’“As  Confissões de Dôami”, ao longo da narrativa,  ainda que conjecturando, aqui e ali, sobre as motivações que teriam, eventualmente, levado os biógrafos desse Senhor de Musashi, a dissimular tais detalhes, e prossegue, com relativa prudência, dissertando sobre o quadro mental do temido guerreiro.

            De um outro prisma, o mesmo narrador parece dissecar, em tom de comédia, a sua própria lubricidade sado-masoquista, pronunciada ao longo da narrativa, num estilo semelhante aquele que caracterizaria  a última das obras maiores de Tanizaki, “Diário de Um Velho Louco” (瘋癲老人日記 - Fuuten Rôjin Nikki),  de 1961.


       
        E é nesse mesmo tom incerto entre o solene e o jocoso,  e em traços ora soltos ora mui precisos, que “Bushukô Hiwa” nos conduz através da estranha vida de Terukatsu, herdeiro do Daimyo Terukuni, Senhor de Musashi, que até completar a idade de quinze anos se fez conhecer pelo nome de Hôshimaru.  E que nesse período de maturescência, entregue primeiro aos escrupulosos cuidados do Senhor de Tsukuma, suserano de Ojika (e como refém deste), se deixaria exorbitar, antes que fôsse homem feito, por essa inconfessável lascívia de quem tomou do raro privilégio  de, uma certa noite, observar e  deslumbrar-se, no resguardo da distância, pel’essas mãos das mulheres do Castelo de Ojika, lavando e maquilhando, em gestos suaves e concisos, as cabeças reclamadas dos decapitados em batalha. E havendo, entre estas, aquelas que se achavam privadas de seus narizes, fugaz detalhe que houvera,  porém, de‘inda mais fazer por inflamar a precoce volúpia do infante Hôshimaru. E todas estas coisas e outras mais que não cuidaram os escrivães de fazer constar nas crónicas, mas que do escrutínio do “Sonho de Uma Noite”  e d’“As  Confissões de Dôami”, las sabemos hoje, e com a mesma perplexidade com que Terukatsu p’la primeira vez olhou de perto essa insondável e mui serena Kikyo, consorte do Senhor Tsukuma Oribenoshou Norishige, dama de esmerados preparos, intíma, como assim outra não houvesse, das Artes da Poética e da Música, e candidamente insuspeita do papel que o destino lhe guardava nesta estranha e secreta história...

            Algures entre o deboche e o sublime, Tanizaki, com esta sua “História Secreta...” — e como  só ele, em sua época o soube fazer —, depunha ante o seu público uma genial comédia negra, espelho reflexivo da luz feérica das suas próprias obsessões, e despojada paródia de si mesmo. E diga-mo-lo claro: é precisamente essa rara habilidade para se rir de si mesmo,  assim aberta e publicamente, a faceta da obra de Tanizaki que ainda hoje a faz tão capaz de se conservar intacta na sua genialidade.
           



BIBLIOGRAFIA:

·         MIYAMOTO MUSASHI (宮本武蔵), 五輪書“Go’Rin Shô — The Book Of Five Rings” (biling. ed.  — coord. William Scott Wilson/Matsumoto Michihiro) — Kodansha International, Tokyo, 2001.
·         TANIZAKI JUN’ICHIRO (谷崎潤一郎), 武州公秘話“Bushukô Hiwa”  — Chuôkôron-Shinsha [中央公論新社], Tokyo, 2005.
·         TANIZAKI JUN’ICHIRO (谷崎潤一郎), “The Secret History Of The Lord Of Musashi” (trad. Anthony H. Chambers) — Vintage/Random House, London, 2001.


           

            LUÍS FILIPE AFONSO
Hakata, Kyushu, Japão  — Fevereiro de 2010