20.10.07

Crónica de um Pássaro de Corda (ねじまき鳥クロニクル)

Até à data é o meu livro favorito de Murakami. Sim, podem ficar desde já com uma perspectiva parcial da coisa. Mas ainda assim tentarei ser equitativa ao longo da exposição do artigo. É difícil sintetizar num pequeno artigo toda a dimensão deste volumoso livro mas não pretendo fazer uma análise exaustiva pois isso seria pretensioso, vou-me portanto ficar por uma mera exposição da obra.



Simultaneamente, a história de um casamento que se desmorona misteriosamente, um lamento acerca da superficialidade das políticas contemporâneas, uma investigação acerca das dolorosas, e bem guardadas, memórias da Segunda Guerra Mundial, e um romance de formação sobre a busca de identidade, pessoal e de toda uma nação, e com personagens tão surpreendentes quanto profundamente autênticas. Quase por magia, o mundo quotidiano do Japão moderno parece-nos estranhamente familiar.

Na minha perspectiva, este livro tem bem delineados os seus contrastes. Isto é, é perfeitamente possível apontar cumes de qualidade e declinações catastróficas.
Toru Okada era um homem com uma vida mediana, sem grandes imprevistos, casado com uma webdesigner, filha de um político rígido e com um irmão estranhíssimo (Noboru Wataya). Quando o seu gato desaparece (por sinal o gato tem o mesmo nome do cunhado), a sua vida começa a ganhar contornos que ele nunca compreendeu e que nunca conseguiu controlar. Como se enfiado num remoinho aleatório perante o qual se torna impotente, Toru Okada parte em busca da sua mulher quando esta abruptamente sai de casa sem anuncio prévio. A busca pela sua esposa e a procura de explicação para esta súbita crise no seu casamento introduzem-no num universo recheado de situações bizarras e personagens insólitas. De entre as irmãs videntes, uma adolescente estagnada no absurdo da sua existência (May Kasahara), um velho soldado massacrado na Manchúria, naquela que foi a antecipação da Segunda Guerra Mundial e um político com largos distúrbios sexuais e estranhos poderes de manipulação maquiavélica.





Este livro tem os típicos ingredientes de um livro de Murakami: cenas sexuais amplamente descritas, twists no enredo sem um fundamento coerente por vezes a curto prazo, por vezes incoerente até ao final do livro. Reflexões sobre a frivolidade da sociedade japonesa contemporânea. Um livro essencialmente urbano, essencialmente frio e essencialmente completo.

(O que se segue é mais direccionado para quem já leu o livro!...)

Pontos altos:

As descrições de guerra são absolutamente fabulosas. São qualquer coisa de profundamente arrepiante, profundamente absorvente. São um auge de tudo o que já li de Murakami até à data, estão mesmo em grande nível. Mais: a personagem de Noboru Wataya é um pouco inexplicável por um lado, mas por outro encerra em si um sentimento muito bem conseguido de impotência, manipulação e de absurdo. A metáfora do poço é lindíssima.

Neste livro o factor descritivo não me aborrece como em outros livros do autor. Acho que se integra na história. É um livro com mais de 600 páginas e leva o seu tempo a ser lido e por isso eu sinto que já que tenho que ler 600 páginas, então eu quero que elas me tragam tudo o que há para trazer sobre a personagem. Eu quero saber como é que ele estrela os ovos, como é que ele varre a sala. Toru Okada é um homem solitário no meio dos milhões de pessoas que existem em Tóquio (como todos os personagens centrais dos livros de Murakami). Então eu acho que aqui o leitor exige sentir a sua solidão. E a solidão dele é muito bem conseguida nos detalhes.

Mas há muito mais coisas boas: as “inexplicações” à lá David Lynch simplesmente derretem-me. Há quem odeie Murakami precisamente por isto, eu adoro-o. O homem do taco de basebol, é um exemplo fantástico de uma metáfora a ser interpretada pelo leitor que eu acho que só um escritor com muita ousadia arriscaria colocar.

O lirismo envolvido no título/conceito do livro: o pássaro de corda, o pássaro que é ouvido ao longo de todo o livro por personagens totalmente distintas, a dar corda ao mundo.


Pontos fracos:

Eu acho que de uma maneira geral a qualidade intrínseca do livro começa a decrescer no final. A personagem de Akasaka não me convenceu minimamente. Sim, de facto quando se é um fugitivo de guerra traumatizado pela violência, uma das coisas mais lógicas nas quais uma pessoa se quer refugiar é no design de moda. Não faz muito sentido, para além de ser uma personagem marioneta sem grande densidade própria. Um apoio para realçar a personagem principal como de resto já se tem assistido em vários livros do autor, este tipo de esquemas. Embora eu ache a personagem de Nós Moscada interessante.

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Bom, enfim, à parte de tudo isto é um livro envolvente que sabe como captar a atenção do leitor, fazendo-o atravessar a espessura das folhas sem que este dê minimamente por isso. Um livro a não perder por qualquer amante de literatura moderna!

Sara F. Costa

5 comments:

Anonymous said...

Não resisti a ler todo o post. Fiquei cheio de vontade de o ler. Se me agradar metade do que agradou Norwegian Wood, só por isso vale a pena ser lido.
Gosto bastante do non-sense à lynch e pelo que comentas este livro contém algo.
Se ja leste o NW, podes estabelecer alguma ligaçao entre essa narrativa e a do P de Corda? Seja ao nível de história, das personagens, ou dos sentimentos expressos ao longo do livro.

Jorge said...

Deixaste-me cheio de vontade de lhe pegar, vem já para o topo da pilha mal acabe este Camus...

...Lú... said...

Adorei o artigo, completamente!
Acabei, hoje, de ler o último livro de Murakami traduzido em português... "Dança, dança, dança"...
Descobri Murakami há cerca de um ano, justamente, com a "Crónica do Pássaro de Corda" que, ainda hoje, é o meu livro preferido, aquele que mais me marcou, que mais vivi... aquele que tal como o poço, faz todo o sentido, mesmo nos momentos de total absurdo...
A cada livro de Murakami que leio, cresce o meu fascinio por ele, pelos seus elementos, pelas personagens que nos mostra...
Embora exista em relação ao tempo de acção dos livros um "desfasamento" temporal com a época em que vivemos, é incrível a forma como as suas palavras se conseguem fundir com a nossa realidade e criar um paralelismo total e pleno.
Sim, já li tudo o que existe de Murakami traduzido em português, desde o "Kafka" ao incrível "Underground"... mais que ler, devorei e vivi cada palavra... além do fascínio total e absoluto pelo escritor, ficou uma paixão enorme pela cultura japonesa...
Não é fácil ler os livros deste senhor, na verdade, pode ser um verdadeiro desafio, mas, como costumo dizer, para compreender esta realidade, temos que, verdadeiramente, ser Murakami ... é mais fácil odiar os livros, achá-los intragáveis do que lê-los, compreendê-los (o que, de facto, nunca acontece totalmente) e gostar...
Já tentei partilhar Murakami com pessoas que adoram ler e as reacções já foram desde o "odiar" á "veneração", porque, com este senhor, só temos opostos... ou se ama... ou se odeia... não há espaço para o classificar como, apenas, "mais um escritor"...

Creio que me perdi um pouco no comentário... mas, numa realidade "à Murakami" é assim que as coisas fazem, realmente, sentido!

said...

Foi por acaso que aqui cheguei, quando procurava poesia japonesa... Não resisto... deixo também o meu comentário a Murakami.

Após "Sputnik, meu amor" e "Kafka à beira mar", li este "Senhor pássaro de corda" de uma forma devoradora.

Mais uma obra que respira música, sonho, ambientes, gatos e personagens a viver em várias dimensões.

Vivo um profundo fascínio pelo Japão e através de Murakami viajo pelas ilhas onde o ultra-moderno das cidades se funde com o tradicional e a tranquilidade da montanha, jardins e templos.

A leitura de Murakami não é imediata, exige algum conhecimento sobre o Japão (desde aspectos geagráficos, a conhecimentos da própria cultura e tradição).Creio que este também é o surpreendente "retrato" do Japão para uma ocidental: tudo faz sentido depois de revelado.
Murakami é o meu guia. Murakami é o meu sinagogo.

Vou iniciar "Em busca do cordeiro selvagem". Boa leitura para todos vós!
watashi jú

Eremita said...

So uma pequena sugestão: tentem saber o verdadeiro significado dos nomes das personagens porque muitas vezes tem conotaçoes diferentes. É necessario conhecer Kanji. As vezes faz uma grande diferença nas "inexplicações".
Boa leitura.
e.