Thursday, March 01, 2012

Kojiki - A tradução continua! [Capítulo 1 - 2]

Muitos anos passaram desde a minha primeira tentativa de tradução do Kojiki para o Bungakuu. Consciente do sucesso da tradução resolvi continuar o processo esperando proximamente publicar a tradução completa. Depois de olhar para a minha primeira contribuição apercebi-me que tinha dado na altura poucos elementos sobre a “origem” dessa tradução francesa. Como nunca é tarde demais, o texto original dessa tradução foi escrita por um francês anónimo que publicou no seu website enciclopédico http://japonline.free.fr/Encyclo-accueil.htm uma versão resumida do Kojiki em flash. Apesar de alguns defeitos de escrita e de uma ocultação excessiva de algumas partes da narração julgo que essa retransmissão do livro é suficientemente elucidativa e simplificada para transmitir o conteúdo da obra de forma eficiente e moderna. Em algumas circunstâncias a fonetização das palavras japonesas poderá fugir dos critérios escritos que cada um de nós utiliza individualmente. Peço como tal alguma tolerância para com essa transcrição. Por outro lado tentei desta vez inserir o meu cunho pessoal com mais insistência para compensar aquilo que considero os pontos fracos do texto aqui traduzido. Considero que o resumo aqui publicado é suficientemente abrangente para transcrever as subtilezas que fornecerão elementos de reflexão sobre a cultura japonesa e a sua ligação à obra. Para acompanhar o texto resolvi também integrar imagens que ajudarão certamente a uma melhor visualização do universo por vezes muito abstracto dos kamis japoneses.
Continuação do capítulo 1
A multiplicação dos Kamis na Terra.
Os dois recém-casados não se ficaram por aqui. Deram nascença a todos os Kamis que se encontram agora na Terra: Kami das árvores, das montanhas, das pedras, das plantas e das flores, dos mares, dos lagos e dos rios.
O seu primeiro filho foi Owatatsumi o senhor dos oceanos. Depois, Izanami deu nascença a Kamihaya Akitsu Hiko que controla as terras e Haya Akitsu Hime que controla a superfície do mar. Múltiplos Kamis surgiram pouco depois.
Izanami deu então nascença ao Kami do fogo, Kagutsuchi no Kami. O parto acaba porém tragicamente: Izanami morre queimada pela incandescência da sua progenitura.
Antes de morrer, da sua boca surgem Kanayama biko e Kanayama hime, os deuses do metal,  assim como Haniyasu hiko e Haniyasu hime, deuses da terra.
Izanami juntou-se ao Reino das Sombras. Assim nasceu, pela primeira vez, a morte e as suas consequências: a decomposição e o luto.
Enraivecido, Izanagi decapita o recém-nascido com a sua espada Totsuka no Tsurugi. Do sangue de Kagutsuchi nascem novos kamis para cada gota derramada.
Izanagi tinha perdido o gosto de viver. Sem a sua esposa a vida já não fazia sentido. Resolveu então ir à sua procura. Afinal de contas, ele sempre era um deus.

Questionou todos os homens e animais que cruzava no seu caminho se esses conheciam algum meio para encontrar a sua falecida esposa. Uma serpente indicou-lhe o caminho, a entrada para o Inferno (Yomi) situada na província de Izumo.
À medida que Izanagi penetrava nas trevas do inferno a luz desaparecia. Ouviu gritos e gemidos que teriam aterrorizado qualquer homem mas a sua determinação era imutável. Caminhou muito tempo na obscuridade absoluta. Enquanto o desespero se apoderava do seu coração, Izanagi ouviu finalmente a voz da sua amada.
Não a pode ver, mas consegue ouvir a sua voz distintamente. Izanami está feliz por ver o seu esposo ter iniciado tão grande caminhada para se juntar a ela.
-“Vim para te levar comigo”
Era porém tarde demais pois Izanami já tinha comido os alimentos do Reino das Sombras o que tornava impossível o seu regresso à superfície.
-“Vou ainda assim suplicar os deuses deste Reino para que esses me permitam regressar contigo!” disse. “Espera por mim aqui o tempo necessário, promete não seguir-me e que não saíras daqui!”.
Izanagi assim prometeu…

Capítulo 2
 E assim aguardou até que a espera se tornou insustentável. Impaciente, resolveu quebrar a promessa. Caminhou outra vez na escuridão. Parecia-lhe ouvir a voz da sua esposa implorar-lhe para que não continuasse mas a tentação era demasiado forte, ele tinha que a ver nem que por um breve instante.
Aproximou-se de Izanami enquanto essa lhe implorava para ele ir embora. Retirou um dos dentes do seu pente para fazer uma tocha. Através da clareza, viu por um instante a beleza intacta de Inazami decompor-se e apodrecer perante os seus olhos. A sua carne era devorada pelos vermes.
Aterrorizado, Izanagi resolveu fugir do inferno. Demónios corriam atrás dele enquanto a sua esposa gritava “Traidor! Quebraste a tua promessa!”. Os próprios guardiões do inferno perseguiam-no.
Uma vez fora Izanagi pegou imediatamente num rochedo para selar a porta do inferno. 
O nascimento de Susano-o e Amaterasu
Izanagi errou até à ilha de Kyushu. Próximo do Rio das Laranjeiras, ficou fascinado pela clareza da água. A pureza do rio poderia lavar-lhe dos seus males e ajudar -lhe esquecer os seus problemas.
Retirou a sua roupa e tomou banho. 14 Abluções precisamente.
Vinte e seis novos Kamis nasceram deste banho, uns da sua roupa outros das partes do corpo que ele limpou.
Ao limpar o seu olho direito deu nascença a Tsukiyomi, o kami da Lua. Do seu nariz nasceu Susano-o, o kami impetuoso das tormentas. Finalmente, do seu olho esquerdo nasceu Amaterasu, a kami do sol. Desde esse momento a vida seria dividida entre noite e dia.
Izanagi, fascinado pela beleza de Amaterasu, pediu-lhe para essa erguer-se e iluminar o céu para o bem de todos.

Caixa de texto: Nascimento de Amaterasu
 Por outro lado o seu irmão Susano-o era muito mais inclinado para actos violentos. Constantemente agressivo, procurando sempre criar o caos à sua volta, a sua passagem pelos mares, o seu reino, provoca terríveis tempestades. A sua imprevisibilidade oscilava entre a letargia de uma brisa e a fúria de um tufão.  
Provocar inundações, destruir diques, arrozais, navios, tudo não passavam aos seus olhos de brincadeiras feitas aos seres humanos.



A ira de Amaterasu
Susano-o era também capaz de afecto… Mas apenas para a sua irmã Amaterasu. Um dia resolveu visitá-la no céu.
Os kamis que moravam na via láctea, assustados pela perspectiva de serem visitados por um  kami tão turbulento, visitaram Amaterasu e pediram-lhe para essa livrar-se do seu irmão. Os kamis conheciam bem Susano-o e os seus frequentes estragos que eles tinham que resolver. Por outro lado Amaterasu também não apreciava muito o seu irmão que ela considerava brutal e grosseiro.
A Kami do Sol pegou no seu arco divino de madeira lacrada vermelha e de duas aljavas recheadas de flechas. Colocou-se em posição frente à porta do Reino Divino com a firma intenção de impedir a ascensão de Susano-o.   
Um rio separa o Reino da Terra e o Reino dos Deuses e no qual um arco-íris faz ofício de ponte. Susano-o parou na margem oposta ao Reino dos Deuses. Muito educado, cumprimentou a sua irmã que se encontrava na outra margem.  Amaterasu perguntou-lhe o que ele vinha fazer e quais eram as suas intenções.
O Kami da tempestade respondeu com sinceridade que apenas vinha para a visitar. Começou a rir de forma tonitruante e ensurdecedora.
 Surpreendido com a frieza de Amaterasu, pediu-lhe para ambos quebrarem as suas armas em sinal de boa fé.
Susano-o entregou-lhe a sua espada que ela quebrou em 3 pedaços.
Amaterasu entregou-lhe o seu arco e flechas que ele igualmente quebrou.
Os dois irmãos estavam finalmente juntos. Amaterasu não podia deixar porém de desconfiar do seu irmão. Ela dificilmente conseguia lidar com a sua rudeza e falta de educação. Infelizmente esse acabou por ser a causa de numerosos problemas e a sua presença no Reino Divino não foi tolerada por muito mais tempo.
Amaterasu acabaria por sofrer as consequências.
Das suas numerosas actividades, a costura era uma das preferidas de Amaterasu. Um dia, rodeada das suas serventes e em plena ocupação, o tecto abriu-se numa larga fissura. Os destroços caiam abundantemente enquanto as costureiras fugiam apavoradas. Um potro degolado caiu da fissura enquanto o terrível riso de Susano-o ecoava na sala. Estava muito satisfeito por ter pregado uma boa partida à sua irmã.



As vibrações do seu riso faziam cair cada vez mais destroços que feriam algumas serventes enquanto outras gritavam aterrorizadas pela visão do sangue do potro. Amaterasu estava também ferida no dedo. Enraivecida, encontrou-se com os outros kamis para exigir a expulsão de Susano-o. Os outros deuses demonstraram indiferença. Susano-o não lhes tinha feito nada e sendo ele um kami a sua presença era perfeitamente justificável. O seu irmão não era problema deles.
Amaterasu humilhada refugiou-se numa caverna selando a porta. Sem a sua presença o mundo entrou numa era de escuridão. Sem calor, apenas a luz das estrelas e do Kami da lua dissipavam parcialmente o escuro.
Os outros kamis começaram também eles a sofrer as piadas de mau gosto do Susano-o. Pouco tempo depois todos os kamis se juntaram para suplicar Amaterasu que essa regressasse e expulsasse o seu irmão. Com o orgulho ferido a kami do Sol não respondeu aos apelos.
O grande concelho dos kamis, composto pelos cinco primeiros casais, resolveu convocar todos os deuses. Milhões apresentaram-se perante o concelho.


 Ainda assim, apesar de reunidos, nenhum deles conseguiu encontrar uma ideia que conseguisse convencer Amaterasu. Omoikane, o kami “cheio de ideias”, propôs utilizar o canto dos galos para que esses invocassem a kami do Sol. Entusiasmados com a proposta, milhões de galos foram colocados em todos os toriis. Amaterasu manteve-se imperturbável e todos os kamis concluíram que os galos eram criaturas vaidosas por pensarem ser os responsáveis do surgimento do sol.
O kami cheio de ideias encontrou um novo estratagema. Amaterasu sendo uma mulher, esta seria inclinada para o ciúme e a inveja como qualquer outra mulher. Omoikane propôs então provocar o ciúme da Amaterasu. Todos os kamis concordaram com a proposta. Foram buscar uma árvore gigante que enfeitaram com pedras preciosas fabricadas por Tamanoya.
O kami que trabalhava na forja, Ishikori Dome, criou um espelho gigante com painéis de outro chamado Yata no kagami. O todo foi colocado frente à caverna onde se encontrava Amaterasu.
Os deuses encadearam milhares de luzes cuja luz se reflectia no espelho e nas jóias. Todos começaram a rir-se e a celebrar essa nova fonte de luz. Aclamavam essa nova divindade solar. Uzume, kami da dança, convidou todos os deuses para um baile histérico. 

Amaterasu sai da gruta surpreendida pelo barulho. Espreitou lá fora e apreciou o espectáculo. Amaterasu não tardou em ficar louca de inveja. Saiu da sua gruta para ver aquela que lhe estava a tirar o protagonismo.
 Enquanto se aproximava parecia-lhe ver a mais bela das mulheres até aperceber-se que não passava do seu próprio reflexo no gigantesco espelho Yata no kagami. Enganada, Amaterasu quis regressar para a sua caverna. Era sem contar com o kami poderoso Tajikarao que destruiu a entrada da gruta e selou-a com a corda Shirikumi. Foi nessa ocasião que nasceu a tradição das shimenawa.
Amaterasu sentia-se perdida e desapontada mas pouco depois apercebeu-se que todos precisavam dela. Feliz outra vez, a kami do Sol pegou no espelho Yata no kagami e nas jóias Magatama agradecendo a oferenda.


Matthieu Rego


Monday, December 12, 2011

1Q84


O primeiro volume de 1Q84 deixa-me com uma sensação que não é nova ao leitor de Murakami. A sensação de dispersão numa realidade com um sentido intrínseco demasiado próprio e no qual ninguém pode dar garantias de antever uma resolução simples. Chego ao fim do primeiro volume com muitas coisas sobre as quais pensar mas com poucas respostas concretas.
Passo a uma análise por etapas. Temos uma personagem feminina carismática e com uma personalidade forte, Aomame, uma instrutora de artes marciais que trabalha em nome de propósitos obscuros, sob as suas próprias leis e os seus entendimentos da realidade e da justiça. Leis que de tão próprias são efetivamente ilegais e correspondem a um código de valores considerados pelo autor como demasiado pessoais para serem previstos pela sociedade em geral. Este é um aspeto que me deixa logo um bocado boquiaberta. É um bocado excessivo entrar tão levemente por temas tão complexos e tão sensíveis. A justiça popular é um tema bastante apaixonante mas bastante questionável. A ideia era criar um sistema privado e ultrassecreto que trabalha em nome do bem por vias consideradas menos boas. Assim, nas primeiras páginas assistimos ao assassinato de um diretor de uma petrolífera que alegadamente cometera muitos crimes de natureza de violência doméstica contra a esposa. Ligado a este tema entramos em contacto com a história da amiga Tamaki, também brutalmente violentada física e psicologicamente pelo marido até ao ponto do suicídio. Depois ficamos a saber que a filha da anciã para a qual Aomame trabalha também se suicidou pelas mesmas circunstâncias. Partindo do princípio que a lei japonesa é fundamentalmente machista e discriminatória, estas mulheres decidem juntar-se para criar um sistema de vingança pessoal com propósitos mundiais. Os japoneses fantasiam muito sobre estas formas simplistas de modificar o mundo, faz-me lembrar conceitos como os de Death Note e coisas do género. A verdade é que podemos também encarar este livro como introdutório e não como perspetiva finalizada sobre algo. Uma pista para isso surge mais para o fim quando Aomame admite a possibilidade da anciã transportar uma certa “loucura” ou “preconceito” (pág. 356).

Paralelamente, e como não poderia deixar de ser nos livros de Murakami, temos um universo relatado à margem do de Aomame que é, neste caso, o universo de Tengo. A organização ultrassecreta contra a violência doméstica desenvolve-se ao lado de uma história nos bastidores de um universo editorial onde Tengo e o editor Komatsu decidem reescrever o livro da jovem Fuka-eri de forma a que este conquiste o prémio Akutagawa (o mais prestigiado do Japão). Durante um período há aqui o desenrolar de uma certa meta narrativa, estamos a ler algo que se debruça sobre a problemática de um livro que na realidade como leitores não conhecemos. Fuka-eri passa aqui a ser o centro dos enigmas e a sua história de vida leva-nos a conhecer o movimento “takashima” e o grupo “sakigake”, aqui traduzido por “vanguarda”.
Neste ponto, o autor fala de seitas derivadas dos tumultos de esquerda nos anos 60 nas universidades do Japão (já lemos sobre isto no Norwegian Wood, no Crónicas de um pássaro de corda, etc). Neste livro essas seitas passam a ser parte fulcral do enigma. A história delas é-nos narrada como seitas que se centravam em ideais bons – os do cultivo e da existência autossustentável - mas que foram descarrilando para organizações minadas pela corrupção e pela cedência a pressões.
A especulação ética serve de justificação teórica à ação: “Toda a perícia e todo o processo de investigação, do mesmo modo todo o procedimento prático e toda a decisão, parecem lançar-se para um certo bem. É por isso que tem sido dito acertadamente que o bem é aquilo por que tudo anseia” é a citação de Aristóteles que Komatsu evoca na página 287.
É um enquadramento interessante que nos leva a posicionar o livro sob uma certa vertente ideológica mas sem deixar de lado outras reflexões. Uma daquelas que considerei pessoalmente mais interessante passa pela teorização literária que é utilizada por Komatsu mas que se revela como uma teorização do autor. Detalhe de excelência neste aspeto quando o autor nos conduz a uma reflexão sobre a descrição das duas luas (pág. 323) e depois nos apresenta as duas luas na realidade transfigurada de Aomame.
Pelo caminho, há muitos temas no livro que não se revelam como centrais para o desenvolvimento da ação principal mas que contribuem para um certo exercício de pensamento. Destaque para uma observação de Aomame relativamente à sua paixão pela história e pela forma como se opõe a certa altura à contemplação do passado de forma desenquadrada (pág. 347). Os mesmos aspetos interessantes provenientes deste interesse de Aomame surgem por exemplo quando refere o facto do meio ser a mensagem, numa referência a McLuhan e a referência histórica à reflexão sobre o massacre: os que sofrem e os que esquecem.
A descrição da comida e do sexo transportam-nos para atmosfera sensorial recorrente do autor e que lhe confere o rótulo de progressista. Para além disso, há uma ilegalidade e noção de maldade das quais os intervenientes são conscientes mas aceitam. Lá para o fim do volume as duas realidades começam finalmente a tocar-se. Este momento no livro é para mim um dos melhores que já li em Murakami. Isto porque é óbvio que o leitor já tem uma atitude de detetive enquanto lê as duas histórias aparentemente desconexas mas ainda assim a forma como Murakami cria o elo de ligação é bastante voraz e surpreendente.
No fim, resta-nos repensar todo o conceito do livro nos seus aspetos aparentemente mais óbvios mas realmente complexos: qual é o paralelismo entre o 1Q84 de Murakami e o 1984 de George Orwell? Entramos em contacto com a noção de “povo pequeno” como conceito essencial da obra escrita por Fuka-eri, qual é a analogia com “o irmão mais velho” (Big brother)? Será que Murakami quer culpar as pessoas que obedecem mais do que aqueles que tudo vigiam e controlam?
Onde entra a Ilha de Sacalina de Tchékov no meio disto tudo? É para enfatizar o apelo ao sexismo e ao machismo vivido no mundo ou há a tentativa de criar uma realidade distópica como a de Orwell? E o Heike Monogatari e o síndrome de Savant? As personagens ouvem todas música erudita e expressam-se com uma certa destreza intelectual, será que só há classe média culta no Japão?
Quando a Ayumi vem revelar os meandros execráveis dos elementos da polícia, fico com a mesma sensação de estranheza do conceito inicial de justiça popular, onde é que o autor nos quer levar?
Não será certamente fácil entendê-lo ainda para mais tendo em mente que ainda me faltam dois volumes para chegar a uma conclusão minimamente concreta, portanto, o melhor é aguardar a conclusão da leitura deste livro que se revela recomendável desde que funcione, para já, como alavanca de questões e expectativas.

Sara F. Costa

Thursday, September 29, 2011

Hanaoka Seishu no Tsuma


Este é um tipo de livro que se encontra escavando uma pilha de um alfarrabista ou remexendo nos livros que se encontram junto a placas que dizem “2euros” em feiras do livro. Trata-se de uma edição de 1983 da Circulo de Leitores e na altura ainda imprimiram uns 6000 exemplares mas penso que não voltou a ser reeditado. De facto, “Hanaoka Seishu no Tsuma” ou “a esposa de Hanaoka Seishu” é a obra mais popular da escritora Sawako Ariyoshi editado pela primeira vez no Japão em 1966. A edição portuguesa deu-lhe o nome da protagonista “Kae” e acrescentou “as duas rivais”. Para além disso, inspirou-se na versão japonesa d’ “O aviso” para fazer a capa (ou algo que a isto se assemelhe). Mas efetivamente, isto é literatura japonesa em todo o seu esplendor, não é um filme de terror japonês de low budget.

Hanaoka Seishu (1760-1835) foi um cirurgião japonês conhecido pelos seus contributos para a história da medicina na área dos anestésicos. Teve uma formação em medicina tradicional chinesa e em métodos ocidentais transmitidos essencialmente pelos holandeses. Um romance que se centrasse na sua biografia seria já por si certamente interessante, mas Sawako foi mais longe na complexidade da sua abordagem e, se do ponto de vista de um leitor ocidental não percebemos muito bem se estamos a ler um livro escrito por um homem ou por uma mulher, rapidamente será fácil percecionar toda a psique feminina envolvida na narração.
Isto porque a autora vai para além dos feitos medicinais do Seishu (mestre) e dá-nos a conhecer a sua biografia do ponto de vista das mulheres que o envolveram e que foram um contributo real para a sua notoriedade profissional.

O livro apresenta-nos antes de mais a forma de organização social daquele período – fins de período tokugawa – fazendo-nos acompanhar as vivências de Kae que, depois de prometida ao filho de um médico local, teve de abandonar a própria família para ir viver com a família do marido. Assim nos posiciona a autora, no olhar de uma jovem virgem prestes a envolver-se com a sua nova vida. Mas mais do que explorar esta noção sexista que levava as mulheres a serem expulsas do seu próprio meio para se deslocarem para os meios dos homens, a autora focaliza-se numa relação muito particular mantida entre dois elementos essenciais: uma sogra e uma nora. É aqui que entram todas as coordenadas psicológicas relativas à possessão de uma mãe pelo filho que entram em choque com aquelas que dizem respeito a uma mulher pelo seu homem.

De facto, este não é o único tipo de complexo psicológico mantido no seio de uma família mas uma vez que retrata o estilo de organização de um período da história do Japão tão longo e tão opressor do ponto de vista psico-social, este complexo edipiano que e as mães tentavam a todo custo que não fosse sublimado para impedir a substituição do objeto de desejo tinha repercussões evidentes no estilo de relações familiares que se reproduziam um pouco por toda a sociedade.

Claro que há aquele aspeto que qualquer obra deste período não consegue ocultar: esta foi uma época extremamente particular para o desenvolvimento das aparências como forma de estar na vida. A organização comunitária que punia pela ostracização formava paradigmas muito específicos de comportamento e todas as aparências ganhavam um relevo profundo na existência das pessoas e, com mais restrições, na vivência das mulheres – sempre com um papel maternal, protetor e de sacrifício pelo bem-estar masculino.

Esta obra-prima de Sawako Ariyoshi é uma reflexão profunda sobre o papel das aparências na vida de uma mulher deste período (ainda atual?). A sua narrativa é uma análise psicanalítica de um conflito profundo que relata simultaneamente o diálogo verdadeiro, aquele que é interior, e a perceção externa. Digamos que para a mesma situação a autora nos dá a ler as intenções reais e as imagens transmitidas conscientemente e aqui esta habilidade única de manejar a hipocrisia como um sabre dá-nos a noção de que os conflitos inter-relacionais são uma guerra onde se combate com arte e com elegância sem que por isso lhes consigamos ocultar a violência.

As duas mulheres disputam assim o afeto do jovem homem, empenhado e visionário relativamente ao seu campo de estudo, o da medicina. O livro tem momentos gráficos muito fortes. As experiências médicas de Hanaoka eram feitas em gatos e cães e há relatos muito pormenorizados do asco de Kae a viver aquela existência oprimida rodeada de cadáveres de animais. O culminar do sacrifício das duas mulheres na sua batalha pelo afeto dá-se quando ambas se querem submeter às experiências de Hanaoka, sabendo que corriam o risco de não despertar dos comas a que o cirurgião as submeteria ou ficarem com graves danos cerebrais para o resto da vida, tais como os que podiam ser observados nos animais-cobaias que utilizava.

Os métodos de Hanaoka, a sua inspiração e as suas influências estão tão bem descritas como se de um artista se tratasse. A convicção, a visão, as inspirações várias do brilhante médico assim como a referência sistemática ao seu mestre chinês Hua Tuo. Hua Tuo foi um famoso médico chinês do Período dos Três Reinos que abriu caminho para as experiências de Hanaoka no campo das anestesias e da cirurgia com uma famosa poção chamada “mafeisan” cujas componentes ainda não são claramente conhecidas, mas que formaram as primeiras anestesias na história da medicina. Hoje em dia este médico mítico tem um lugar especial no orgulho coletivo chinês (apareceu-me em vários textos de manuais de chinês para estrangeiros) mas foi demasiado pioneiro para um tempo que encarava a cirurgia como um sacrilégio uma vez que envolvia mutilação corporal. A poção mafeisan evoluiu assim com Hanaoka para uma poção de nome japonês chamada tsusensan.

Em poucas páginas adquirimos uma perceção cultural muito apurada daquele período, confrontando-nos com a evolução histórica de uma ciência tão importante como a medicina e ainda entrando por campos da psicanálise que não são assim tão recorrentes na literatura ocidental, talvez porque a nossa emancipação e o nosso vanguardismo são demasiado superficiais para aceitar um conflito de amor mãe-filho que podemos encarar como perturbador. Serão estes nossos tabus, afinal, uma forma de conservadorismo?
Fica a dica de leitura.

Sara F. Costa

Monday, September 12, 2011

O particular Mundo «Não Humano» de Osamu Dazai



Texto: Mário Rufino

Osamu Dazai criou, em «Não Humano» (e em outros livros), agora editado pela Eucleia Editora, um mundo estranho e inóspito. Yozo, personagem principal, representa o que mais há de primário no ser humano. Ao entrarmos em «Não Humano» partilhamos os medos e obsessões do próprio autor. A sua vivência pessoal, a tentação contínua que o puxava para a morte (concretizado num duplo suicídio com a sua amante), as drogas, o álcool, sexo, tudo é exorcizado perante o leitor de uma forma honesta e, em consequência, cruel. Este tipo de ficção dita confessional levou a que o autor seja considerado um dos principais autores japoneses do século XX.

«A minha vida é vergonhosa.Não consigo sequer imaginar como deve ser viver como um ser humano» (pag.13)

O que mais impressiona em «Não Humano» não é a descrição de violência física ou mesmo a tortura psicológica. O que mais impressiona neste livro é a indiferença à dor própria e alheia. A estrutural moral e social é outra, se é que existe. Yozo está sempre à margem das emoções (excepto de um medo primário de animal), não se envolve socialmente e vê o sentimento como um sintoma de doença.« (…) alguns anos mais tarde, observei, em silêncio a violação da minha própria esposa.Tentei, na medida do possível, evitar envolver-me nas complicações sórdidas do ser humano.» (pag. 61)
A personalidade é escondida atrás de inúmeras brincadeiras, palhaçadas segundo o próprio, impedindo o “outro” de o observar, de o conhecer. É uma vida representada, irreal.O suicídio é uma obsessão pela qual se deixa seduzir por duas vezes. A primeira vez que se tenta suicidar, Yozo/Osamu é resgatado por um barco de pesca. Não o tentou sozinho. Uma mulher saltou com ele e afogou-se. Ele jamais conseguiu ultrapassar o sentimento de culpa. A necessidade/capacidade do autor se desnudar emocionalmente perante o leitor é autêntica e mostra a singularidade deste livro. «Não Humano» é um mundo à parte.A simbiose entre ficção e realidade proporciona uma viagem da qual não queremos sair. O percurso de Yozo é, em essência e nos principais acontecimentos, paralelo ao de Osamu Dazai.É importante mencionar que, ao analisar a estrutura do romance (confessional), o narrador não chega a conhecer a personagem. Ao sabermos que o enredo é muito moldado aos acontecimentos da sua vida, podemos especular que há, pelo menos, duas perspectivas no autor: Aquele que sofre e o que se analisa. E a separação entre ambos é dramática: «Nunca tinha visto tão impenetrável rosto num homem.» (pag. 12)
Poucos autores conseguem criar mundos diferentes, livros que causem impacto no leitor. O mundo «Não Humano» de Osamu Dazai é um desses mundos literários criados para nos abanar e, estranhamente, seduzir-nos a percorrê-lo e acabar a viagem.
«Tudo passa.Essa é a única coisa que achei assemelhar-se a uma verdade na sociedade dos seres humanos onde até agora vivi como se num inferno.Tudo passa» (pag. 122)

Sunday, August 28, 2011

"Kyoto" de Yasunari Kawabata



Quando Kawabata foi eleito Prémio Nobel em 1968, “Kyoto” foi um dos três romances especificamente mencionados pelo comité organizador do certame. Foi o último livro de Kawabata antes de falecer e é uma obra emblemática, amplamente divulgada no mundo anglo-saxónico como uma das primeiras a despertar interesse académico pelos romances japoneses do pós-guerra.

Deixaria um apontamento inicial relativo ao título do livro. O título original é koto (古都), que se poderia traduzir por “antiga capital”, no entanto, como este título é uma clara alusão à cidade de Kyoto (京都), muitas traduções do livro decidiram optar por colocar o nome “Kyoto” como título. Foi o caso da D. Quixote em Portugal, numa reedição do livro, uma vez que este já tinha sido publicado em 1969, possivelmente devido ao galardão de Kawabata em 68. Não temos referências da versão através da qual foi traduzido. A maioria das edições inglesas podem ser encontradas com o título “The Old Capital”. A questão do título é uma pequena nuance, mas claro que há um jogo intencional de palavras que acaba por se perder.
O resumo da narrativa é breve.

O romance desenvolve-se em torno de Chieko, de vinte anos, filha de Shige, um estilista de quimonos e obis que mantém um pequeno negócio na parte tradicional de Kyoto. Durante muitos anos, Chieko suspeitou ser uma filha adoptiva e acaba por confirmar isso quando encontra Naeko a rezar no templo de Yasaka. Naeko revela parecenças físicas demasiado evidentes, levando Chieko a crer que esta habitante das florestas do norte em Kitayama pudesse ser uma possível irmã biológica. Entretanto, Chieko teria pedido a Hideo, um tecedeiro, que lhe preparasse um obi específico, com motivos de vanguarda para os valores tradicionais japoneses, inspirado em Kandinsky e outros artistas europeus contemporâneos.

Os aspectos principais a reter da ambiência tradicional típica dos livros de Kawabata têm a ver com um confronto de valores, do facto dos personagens se dedicarem a algo que apesar de nobre, parece começar a perder o seu sentido devido às forças sociais que se instalam e que são incontroláveis, às quais nos temos simplesmente que adaptar. Este sentimento ultrapassa a mera reflexão do fabrico de quimonos no Japão contemporâneo porque os livros de Kawabata acabam por ter esta repercussão filosófica que se apropria do campo genérico da existência. Quando a noção de vanguardismo e de existência antecipada ao seu tempo é algo que se tornou compreensão comum para qualquer pessoa que reflecte sobre a arte, a noção de resguardar a nobreza do passado arrisca-se a ter uma conotação retrógrada devido ao facto de se estabelecer por convenções demasiado clássicas. Contudo, o que é visível na perspectiva do autor é que esse classicismo não tem que ser desadequado desde que seja aclamado por uma manifesta pureza. Chieko percorre o seu passado em retalhos de memórias e de suposições com um forte sentido familiar quase ultrapassado, tentando contudo contrabalançar um sentimento adolescente de revolta com um forte sentido de responsabilidade de alguém que sempre se dedicou à nobreza da tecelagem. Mas os motivos de árvores nos quimonos que antes simbolizavam a essência da natureza, hoje são temas repetitivos sem valor artístico.
O livro deixa uma sensação ténue de valor nacionalista que se manifesta por uma clara insinuação de aculturação durante o período pós-guerra, mas, para sermos honestos, que obra tipicamente japonesa não o faz? Contudo, estas ideias não são explícitas e portanto estas questões estão longe de serem panfletárias, que é o mais relevante para a consideração artística.

É uma abordagem muito típica de Kawabata mas muita da literatura emblemática japonesa se compõe destes alicerces que são tão diferentes dos paradigmas da nossa literatura. Os livros não são compostos por dramas complexos, nem por pensamentos extremamente intrincados nas suas abordagens intelectuais, na nossa concepção ocidental do termo. No entanto, um livro como este é para ser lido para um estrangeiro como uma viagem solitária por um país com uma religião que não é a nossa e que estamos longe de compreender, com rituais que nos são estranhos, com uma explicação específica sobre o fabrico de peças tradicionais de roupa de uma cultura que não é a nossa. Não é uma viagem divertida porque é uma viagem ao coração dos habitantes de um sítio que mudou os seus propósitos do dia para a noite e que deixou um vazio muito grande por preencher, mas é certamente uma viagem bastante pura à essência da cultura japonesa.

Sara F. Costa

Tuesday, April 12, 2011

Murakami Reading Challenge 2011


O Murakami Reading Challenge 2011 não é um concurso, é sim um interessante desafio de leitura, direccionado tanto para fãs de Murakami, incitando-os ao aprofundamento e à releitura, como para “iniciantes”, convidando-os a descobrir o maravilhoso imaginário deste autor japonês.

Os leitores de todo o mundo são incitados, também, a partilhar as suas críticas literárias, reunindo-se assim, pelo período de um ano, numa envolvente tertúlia literária, ainda que virtualmente, enriquecendo e cultivando o gosto pela leitura.

A participação neste desafio permite ao leitor atingir vários escalões: ler um livro de Murakami corresponde ao nível Hajime, aos três livros ascende-se a Sheep Man, Toru com cinco livros, Nakata com sete, Sumire ao ultrapassar os 10 livros e, finalmente, Super-frog ao ler tudo o que já alguma vez foi editado por Murakami. Estes níveis ou escalões surgem apenas como incentivo a uma leitura habitual, não trazem consigo qualquer tipo de imposição, o leitor é livre de fazer as suas escolhas.

Estamos em Abril, ainda há muito tempo para ler toda a obra de Murakami, ou apenas um conto. Importa, acima de tudo, que se leia, que se descubra e redescubra com gosto o imaginário “murakamiano”, que se conheça um pouco do tanto que este autor nipónico tem para dar.

Para mais informações sobre este Murakami Reading Challenge 2011, basta visitarem o site oficial desta curiosa “competição” literária.

fonte: Clubotaku

Monday, April 04, 2011

Lua-de-Mel de Banana Yoshimoto


Este livro retrata uma bela história de amor entre dois jovens que foram criados juntos – Manaka e Hiroshi (eram vizinhos), tornaram-se cúmplices, confidentes e casam-se com apenas 18 anos. O seu amor foi construído sobre um passado em comum, mas as suas personalidades são muito diferentes. Manaka sempre foi amada e protegida pelo pai, pela madrasta e pela sua mãe que vive em Brisbane – Austrália, enquanto que Hiroshi foi abandonado pelos pais e criado por um avô cuja saúde débil fez com que Hiroshi se sentisse permanentemente em pânico perante a hipótese de não estar com ele quando este viesse a falecer. Este constante peso sobre os seus ombros fez com que Hiroshi se tornasse num jovem tímido, reservado e assombrado por sentimentos totalmente contrários aos sentidos durante a chamada idade da adolescência.
Quando Manaka entrou pela primeira vez na casa de Hiroshi, viu que num quarto se encontrava um altar terrivelmente sinistro, sobre o altar estavam muitos objectos: velas, ossos, pinturas estranhas, imagens de divindades malignas e assustadoras, entre outros, que eram da mãe e do pai de Hiroshi.
Sozinho, após a morte do avô, Hiroshi começa a arrumar as coisas que seu avô o deixara, e todos os dias a noite ía dormir com Manaka. Manaka, cansada de ver o seu parceiro com aquele ar triste e de o ver a arrumar aquela casa sozinho, decide ir ajuda-lo e acaba por ficar a dormir naquela casa.

Certo dia, Hiroshi diz a Manaka que esta não precisava de ir mais aquela casa porque ele tinha que fazer uma coisa chata: tirar o altar de lá! À medida que limpavam o altar, deparavam-se com muitas coisas estranhas: garrafas com líquidos turvos, estatuetas, uma espécie de sutras escritos em caracteres indecifráveis, roupa impregnada de algo que parecia sangue, entre outros; no entanto, encontraram um pequeno vaso, envolvido num tecido rosa, que se encontrava escondido na parte mais interior do altar. Desse vaso saiu “um objecto mal cheiroso, embrulhado numa gaze embebida de sangue – era um osso humano. Hiroshi, espantado, disse a Manaka para não o deitar fora porque aquele osso poderia ser de seu irmão, e os dois concordaram em enterrar aquele osso debaixo da cameleira1, no jardim de Manaka.

Na noite em que finalmente a casa ficou completamente limpa, tanto Manaka como Hiroshi não conseguiam dormir, e foi aí que Hiroshi disse a Manaka que o pai dele tinha morrido. Manaka, surpreendida, perguntou-lhe porque é que não se fez funeral, Hiroshi respondeu-lhe que foi um suicídio em grupo, em nome da sua religião, tomaram veneno e depois incendiaram a casa para não deixarem vestígios, Manaka ao saber disto, tinha constantemente pesadelos, em que Hiroshi morria.

No dia seguinte, Hiroshi acordou e fez uma proposta a Manaka: fazer uma segunda lua-de-mel, a madrasta de Manaka aconselhou-os a irem para Austrália, ter com a verdadeira mãe de Manaka. Esta, para ganhar dinheiro, começou a trabalhar em part-time num supermercado do seu bairro e à noite ajudava a sua madrasta nas traduções.
Enquanto esperavam pela mãe de Manaka no aeroporto de Brisbane – Austrália, Manaka decidiu contar a Hiroshi coisas sobre a sua mãe verdadeira. Quando a mãe dela chegou ao aeroporto, Manaka teve uma grande surpresa ao descobrir que sua mãe se encontrava grávida, mas também ficou contente porque aquela criança tem o seu próprio sangue e que seguramente será bonita. Foram para casa da mãe de Manaka, onde adormeceram, quando Manaka acordou, Hiroshi estava a olhar fixamente para ela e contou-lhe uma visão que tivera: vira-a em pé, debaixo da cameleira, com os joelhos sujos de lama, grávida.

No dia seguinte, foram para um jardim zoológico, e no final do dia encontraram-se com a mãe de Manaka num restaurante e Hiroshi, sem hesitação nenhuma perguntou à mãe de Manaka porque é que quando se foi embora, não levou a filha consigo. A mãe de Manaka contou-lhes a história e no final, tanto Hiroshi como Manaka ficaram comovidos.
No dia seguinte, decidiram ir dar um passeio, e Hiroshi perguntou a Manaka com o que é que ela sonhou; depois de saber o “conteúdo do sonho” de Manaka, Hiroshi diz-lhe que o seu sonho aproxima-se muito da realidade e revelou-lhe o porquê da seita do seu pai se terem suicidado em conjunto: o chefe daquela seita era uma mulher e o pai dele era um dos dirigentes, a fundadora e os dirigentes, em dias estabelecidos, deviam conceber uma criança e, uma vez nascida, deixavam-na morrer à fome e, como acreditavam que ela tinha dentro de si uma força especial, comiam-na todos juntos. Hiroshi viveu sempre com receio de ser chamado por aquela seita. Enquanto que ele comia alegremente na sua casa, muitas crianças do seu próprio sangue eram mortas por pessoas com o coração doente, foi por isso que ele quis enterrar aquele osso, em honra dos seus irmãos que morreram. Manaka, depois de ouvir aquela história, ficou muito contente pelo facto de Hiroshi ter conseguido escapar ao destino de um nascimento tão terrível.

Esta partilha de memórias por parte de Hiroshi unificou-os ainda mais. Deram-se conta que a sua existência, apesar de simplória, não era, enfim, má. Fazem, a partir deste momento, planos para o futuro: comprar um cão, dormir na mesma cama, fazer um filho. Terem por fim, uma vida normal.

Nota: A Cameleira é uma árvore de origem asiática, da família das Cameliáceas, muito cultivada em Portugal pela beleza das suas flores (camélias), também denominada japoneira e camélia.


Quando acabei de ler a Lua-de-Mel, senti-me um pouco alheia aquele mundo estranho. No entanto, gostei bastante, talvez por essa mesma diferença. É um romance diferente dos outros, com uma história de amor que não segue as normas do romance ocidental e actual. É um amor não-piegas, ainda que ambos concordem que não conseguem viver um sem o outro – um amor puro, ingénuo, que parte da apreciação mútua de pequenas coisas da vida, como coalas, golfinhos, estrelas, a noite. Esta é uma peculiaridade muito própria dos orientais, nomeadamente dos japoneses – um povo “estranho”, porém simples e minimalista.
Este romance acaba por ser surreal. Como por exemplo: não é todos os dias que se descobre que o pai do parceiro é membro de uma seita macabra.

Maria Antonia Miranda

Saturday, April 02, 2011

Banana Yoshimoto

Yoshimoto Mahoko nasceu em 1964, é filha de Yoshimoto Takaaki, mais conhecido por Ryumei, provavelmente o filósofo e crítico mais importante e influente, que emergiu nos anos 60. Yoshimoto cresceu numa família liberal de esquerda e com significativamente mais liberdade do que uma típica jovem japonesa.



Após terminar a licenciatura em Literatura no Nihon University's Art College, Mahoko adoptou deliberadamente o pseudónimo andrógino Banana, numa altura em que iniciou o seu percurso de escritora, sendo que os seus primeiros trabalhos foram escritos enquanto trabalhava como empregada de balcão em Tóquio. 
Uma das maiores influências na sua escrita, tanto em estilo como em conteúdo, é o trabalho de Stephen King, do qual é admiradora. Mais tarde procurou inspiração também em Truman Capote e Isaac Bashevis Singer.


  • «Banana Yoshimoto é um dos nomes mais consagrados entre as novas escritoras asiáticas.» Lux Woman
  • «Banana Yoshimoto continua a ser referida, em todo o mundo, como uma das mais estimulantes “novas escritoras” asiáticas. E não há neste juízo, diga-se, o mínimo exagero.» José Mário Silva, Diário de Notícias
  • «A escrita de Yoshimoto é lúcida, intensa e desarmante.» The New York Times
  • «Yoshimoto é um mestre da narrativa – Nas suas histórias a sensualidade é delicada, disfarçada, mas extremamente poderosa.» Chicago Tribune

Maria Antonia Miranda

Sunday, March 27, 2011

Haruki Murakami vence 23.º Prémio Internacional da Catalunha

(Lusa) O escritor japonês Haruki Murakami foi galardoado com o 23.º Prémio Internacional da Catalunha, atribuído pelo Governo regional, que contempla um montante de 80.000 euros e uma escultura de Antoni Tàpies, anunciou a agência espanhola Efe.


O prémio reconhece a obra narrativa de Murakami por esta ter transcendido o âmbito cultural do escritor e tê-lo tornado numa referência da literatura internacional.

O júri valorizou a criação de uma obra que desenha um mundo em oscilação permanente, entre o real e o onírico, o humor e a obscuridade, e que constitui uma ponte literária entre o Ocidente e o Oriente capaz de unir a ligeireza taoísta e as tradições culturais estrangeiras da realidade oriental e ocidental.

Xavier Rubert de Ventós, presidente delegado do júri que atribuiu o prémio, disse que a obra do escritor expressa o génio japonês, considerando Murakami um "unamuniano [Miguel de Unamuno] porque tem a capacidade de levar as coisas ao limite, além de permitir absorver vários aspetos como o jazz, a pop, a manga, a magia ou a sexualidade".

O prémio é atribuído anualmente e este ano concorreram 196 candidatos de 56 países. As candidaturas foram apresentadas por 225 instituições.

Num carta escrita por Murakami depois de ter tido conhecimento do prémio, o escritor japonês disse sentir-me muito honrado com o galardão sublinhando porém não poder estar "completamente feliz" devido à situação difícil que o Japão atravessa depois do sismo de dia 11.

O autor acrescentou esperar que o prémio - que é entregue a 09 de junho - constitua "um alento" para o seu país.

Haruki Murakami nasceu em Kioto em 1949 e licenciou-se em literatura e dramaturgia na Universidade de Waseda. O seu primeiro trabalho foi vender discos e o primeiro livro escreveu-o com 29 anos.

Em 1986, depois do êxito de “Tokyo Blues”, abandonou o Japão para viver na Europa e nos Estados Unidos da América, tendo chegado a lecionar nas universidades norte-americanos de Princetown, Tufts e Massachussetts.

CP.
Barcelona, 18 mar
Lusa/fim