Friday, July 18, 2008

小野小町 Ono no Komachi (809-901)

Tornou-se uma mulher lendária recordada pela sua beleza e pelo seu temperamento passional que a faz escrever muitos poemas de amor e poemas eróticos (talvez os mais eróticos aceites por este cânone). A sua existência é recordada em lendas e peças de teatro No.
A sua poesia apresenta figuras de estilo e retórica elaborada e apurada que a torna representativa do género da Waka.



Caracterização de Ono no Komachi durante o Jidai Matsuri 2007 (festival tradicional)


Retrato da autora por Kikuchi Yosai(菊池容斎)

Behold my flower:
Its beauty wasted away
On idle concerns
That have kept me gazing out
As time coursed by with rains (furu nagame).

Neste poema está presente mais uma figura de estilo característica desta poesia, por exemplo:
No último verso ながめる、長め, duas palavras têm o mesmo som mas diferentes sentidos. A esta figura de estilo dá-se o nome de kakekotoba 掛詞.
O mesmo acontece com “furu” que tanto significa “passar o tempo / envelhecer” como “chover”.

Presume-se que kakekotoba existe na literatura japonesa devido à limitação silábica da língua e à natureza sintética dos poemas.

Em termos simbólicos a perda da cor da flor representa a metáfora do envelhecimento do sujeito poético.

Outra figura de estilo presente no poema é o conceito de engo 縁語 que se refere ao aparecimento de duas palavras fortemente relacionadas. ながめる、ふる – chover e chuva.


Por vezes o aparecimento da palavra ume 梅 (flor branca ou avermelhada) referia-se à mulher. (exemplo: Aristocracy culture, pág. 437 “If ours were a world…”) comparando a mulher a uma flor que por vezes não pode ser vista mas cujo cheiro pode ser sentido.

Consciente ou inconscientemente a forma “indirecta” de expressão da escrita acaba por afectar o pensamento e a mentalidade colectiva do Japão.


Sara F. Costa

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Monday, June 30, 2008

A era clássica – Período Heian - Kokinwakashu

Depois do colapso da Dinastia Tang na China (em 894, o chamado 国風文化 gokufuubunka), o Japão sentiu a necessidade de se afastar da predominância cultural que o continente tinha exercido sobre ele e quis afirmar a sua identidade cultural afastando-se, por exemplo, do budismo.

Assim a arte japonesa começou a florescer entre a corte imperial que era dominada essencialmente pela família Fujiwara 藤原. Para se ter poder ou se pertencia à família Fujiwara ou se tinha muita instrução para poder trabalhar para o imperador.


A poesia começou a ter uma função muito comunicativa e acompanhada. Além disso, passou a ser um assunto muito sério onde dominava a rivalidade e a procura pela técnica mais perfeita. Popularizaram-se os concursos literários entre os aristocratas.

Os poemas eram valorizados pela sua cadência elegante, refinadas, pelo seu efeito fluido e limpo, sereno e pela sua beleza harmoniosa. Os poemas eram criticados por serem pouco polidos, falta de ritmo e ininteligibilidade.

O 古今和歌集Kokinwakashu tornou-se a colectânea central da poesia deste tempo.
Esta poesia compilada por Ki no Tsurayuki era uma poesia direccionada para os elementos da corte, quer para escritores da corte como para leitores dela. Contudo, poderia integrar poemas de classes inferiores desde que estes respeitassem o “bom gosto” considerado segundo o compilador.
É ainda de realçar que, apesar de kokiwakashu tentar ser uma afirmação do corte de influências chinesas, o livro é escrito em chinês (já que o chinês era a escrita dos intelectuais enquanto o hiragana só se começa a afirmar como a escrita entre as mulheres no séc. X).

Tsurayuki, na introdução do Kokiwakashu, faz uma analogia para descrever os Wakas presentes na antologia “com um coração humano na sua raiz e inúmeras palavras nas suas folhas”.

Além disso, é nesta altura que surge no Japão o primeiro romance da história da literatura mundial: o Genji Monogatari de Murasaki Shikibu.

Exemplo de poema presente em kokinwakashu:

How long must I wait
To see again the traveler
Who leaves this morning,
Journeying where wild bees hum
In autumn bush-clover fields?

Este poema tem uma estrutura simples mas tem uma forte expressão emotiva. É também possível verificar que os poemas eram fortemente influenciados pelas estações do ano (utilizando o calendário chinês).


Bibliografia
CARTER, Steven (tradutor), Traditional Japanese Poetry: An Anthology, Stanford University Press (April 1, 1993)
BASHÔ, Matsuo, O Gosto Solitário do Orvalho seguido de O Caminho Estreito, Assírio&Alvim (Lisboa, 2003)
UDA (compilador), The Kokin Wakashū (古今和歌集, Kokin Wakashū
?) (r. 887–897)
YAKAMOSHI NO, Ōtomo (compilador), Manyōshū (万葉集, man'yōshū), (759)


Sara F. Costa

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Thursday, May 15, 2008

kanazôshi

J. S. A. Elisonas – Fables and Imitations. Kirishitan Literature in the Forest ofsimple letters. Pp. 9-36.



A prosa japonesa produzida entre os anos de 1590 e 1680 foi dominada porespécies amorfas, mas aparentemente “omnívoras” classificadas pelosespecialistas japoneses – os guardiães do que eles próprios chamamkokubungaku, a “literatura nacional” – sob o rótulo de kanazôshi “folhetos em letras [japonesas] simples”. Os Jesuítas mantiveram uma intensa actividadeliterária e editorial no Japão durante os primeiros vinte e cinco anos desteperíodo, isto é, até serem expulsos do país. A sua imprensa, equipada comcaracteres móveis importados de Portugal, em 1590, (a primeira máquina destetipo vista no Japão), imprimiu cerca de 50 títulos, de que perduram exemplaresde 29 obras. Outros trabalhos literários produzidos pela missão sobreviveramem manuscritos. A lista dos textos associados ao proselitismo cristão,independentemente de terem sido publicados na época ou não, incluemalgumas das obras-primas da prosa japonesa, nomeadamente Myôtei mondôBulletin of Portuguese-JapaneseStudies, ed. João Paulo Oliveira e Costa, vol. 4, Jun. 2002 2(The Myôtei Dialogue, 1605) de Fabião Fukan, uma peça brilhante de apologiacristã. É notável, porém, que os especialistas japoneses da “literatura nacional”,praticamente sem excepções, ignorem a sua herança cristã do período prémoderno.(A excepção que confirma a regra é uma adaptação das Fábulas deEsopo). Esses especialistas parecem satisfazer-se remetendo essa herançapara o domínio dos linguistas, dos filologistas ou dos historiadores da cultura.De qualquer modo, eles mantém estes textos, sem reserva, fora da tipologiakanazôshi. Assim, esta tipologia mal definida toma, ao mesmo tempo, de modoindiscriminado outros candidatos a incorporação – levando-nos a questionar autilidade do termo. Além de apresentar uma modesta proposta para que asespécies sejam eliminadas devido à sua falta de coerência taxonómica, esteartigo analisa a contribuição cristã para a literatura japonesa nos últimos anosdo século XVI e nas primeiras décadas do XVII. Apresenta, depois, umaanálise mais detalhada ao que pode ser considerado como o kanazôshi cristãopor excelência. O livro analisado é uma adaptação para japonês da obra-primacristã da literatura devocionista – a Imitação de Cristo de Tomás Kempis.Publicada em Kyoto, em 1610, sob o título latino Contemptvs mundi e o títulojaponês transliterado Kontemutsusu munji, foi impresso em kana, “letrasjaponesas simples” com uma mistura mínima de kanji, “caracteres chinesescomplexos”. Este livro é, sem dúvida, um modelo da prosa japonesa coeva. É,no entanto, um exemplo claro de um texto metafrástico. Pelo contrário,Kontemutsusu munji é um exemplo de manipulação retórica demonstrandoquão longe os Jesuítas tentavam ir na sua vontade de popularizar a suaMensagem. Este caso testa os limites do seu famoso “método de acomodação”no Japão. Assim, o seu tradutor ou tradutores tiveram o cuidado de evitarconfundir os leitores japoneses através de um respeito total pelo texto deTomás Kempis sobre o “Sagrado Sacramento” no Livro 4, pelo que eliminaramsistematicamente todas as referências à presença real do corpo (carne esangue) de Jesus Cristo na Eucaristia.
Bulletin of Portuguese-Japanese Studies, ed. João Paulo Oliveira e Costa, vol.4, Jun. 2002. ISSN: 0874-9671. Dim: 240x170.

Tuesday, April 15, 2008

Poetas representativos do Manyoshu - análise de poemas



Yuryako Tenno

O primeiro poema da antologia é escrito pelo imperador Yuryako, conhecido por ser um imperador cruel e poderoso. O poema é um shoka mas ainda sem ritmo 5-7-5 e sem forma estabelecida, apesar de apresentar características dominantes do Shoka como preparação-conclusão e paralelismo e sentimento de simplicidade.

Neste poema (456-79)

With a basket,
A pretty basket,
And a trowel,
A pretty trowel in hand,
Here on this hillside
Gathering herbs: young one,
I would hear your home –
Come, tell me your name!
In the sky-seen
Land of Yamato
Over the yielding realm
It is I who rule:
I, you may be sure,
Shall tell you
My home and my name.

日本と名前 – pedir o nome tem o mesmo significado de “pedir em casamento”
O cesto que a rapariga transporta é típico de uma Miko – sacerdotisa xintoísta.
Em termos filosóficos, o nome é a verdadeira existência.
Acreditavam no poder da palavra. As coisas são palavras / as palavras são coisas.
A esta filosofia dá-se o nome de “kotobama”. (ver caracter)
Neste poema ele pode soar arrogante mas também cómico, tem dois sentidos.
Talvez tenha sido colocado em primeiro lugar por falar de uma faceta humana do sangrento imperador.
Por um lado o imperador é mais humano (paixão) mas por outro considera-se um Deus (tem o direito a dominar).
Sofre de influência chinesa no conceito de pertença a uma autoridade: o poema pertencia a uma autoridade e não ao povo.


Príncipe Shotoku (574-621)

O sobrinho da imperatriz Suiko é uma figura política mítica, conhecida pelos seus feitos.
Numa excursão para Takahara, o príncipe vê um homem morto e isso fornece-lhe o tópico do seguinte poema:

He who if at home,
Would be pillowed on the arm
Of his own dear love,
On a journey, grass for pillow,
Here lies sprawled, poor traveller!

Neste poema, pillow, ou almofada, escrevem-se em japonês くさまくら。Sempre que aparece esta palavra (kusamakura) sabemos que a seguir vem a palavra 旅(たび) – viajante.
Esta situação verifica-se ao longo de vários poemas desta época até que se constituiu como uma figura de estilo própria que tem o nome de まくらことば。
Há inclusivamente palavras que sempre antecedem outras e cujo significado se desconhece. Exemplo:

めばだもの ・夜
ちはやぶる ・神



大伴家持
Otomo no Yakamochi (718-85);

Otomo no yakamochi é o ultimo tradutor da antologia e a sua poesa é marcada por uma fase nitidamente transitória, mais retórica e mais técnica.

Lady Kasa

Lady Kasa é uma poetisa que escreve muitos poemas de amor sobre forma de Tanka direccionados a Otomo no Yakamochi – aspecto comunicativo do tanka.

Look at this keepscape (katami)
And remember me, my love;
All the gem-bright year, (あたらまの年)
Long as its thread of shining days,
I too shall think of you.

Neste poema, katami significa a recordação de um morto.
Talvez porque o amor que Lady kasa sente por Yakamochi tem o seu passado, a sua história mas também questiona o projecto futuro de ambos.
あたらまの年 é uma makura kotoba.


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Bibliografia
CARTER, Steven (tradutor), Traditional Japanese Poetry: An Anthology, Stanford University Press (April 1, 1993)
UDA (compilador), The Kokin Wakashū (古今和歌集, Kokin Wakashū?) (r. 887–897)
YAKAMOSHI NO, Ōtomo (compilador), Manyōshū (万葉集, man'yōshū), (759)



Sara F. Costa

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Wednesday, April 09, 2008

Bungaku! em destaque

A revista nipo-brasileira Zashi colocou em destaque o nosso blog na secção de recomendações on-line. A equipa do bungaku! agaradece o reconhecimento e promete continuar na dianteira daquilo que de melhor se escreve no país do sol nascente. A revista Zashi dedica-se à divulgação da cultura asiática tanto moderna como tradicional direccionada para os falantes da língua portuguesa, abordando temáticas que vão desde produção artística até aspectos da política contemporânea. Vale a pena passar pelo seu site!

O artigo sobre o bungaku! pode ser visuzliado aqui.

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Friday, April 04, 2008

Prorrogado Concurso de haicai

As inscrições para o Concurso Nacional de Haicai "Nempuku Sato" foram prorrogadas para o dia 5 de maio. O evento faz parte das comemorações do centenário da imigração japonesa no Brasil, numa parceria da Secretaria de Estado da Cultura com a Associação Cultural e Beneficente Nipo-Brasileira de Curitiba.
Os três melhores trabalhos receberão R$3 mil, R$2 mil e R$1 mil, respectivamente. As inscrições devem ser feitas pessoalmente ou enviadas para o Concurso Nempuku Sato, Secretaria do Estado da Cultura, Rua Ébano Pereira, 240, Curitiba – PR, CEP 80410-240.
Os haicai devem ser inéditos, escritos em língua portuguesa, seguir a métrica japonesa (três versos de 5-7-5 sílabas) e apresentar termo de estação (kigo), sem título nem rima, conforme a tradição japonesa (para saber mais, consulte o site Caqui: http://www.kakinet.com/caqui/nyumon.htm).
Os vencedores serão anunciados em maio e os poemas divulgados num evento comemorativo do centenário da imigração japonesa no Brasil.
Cada participante poderá inscrever até 3 haicai, e enviar em 3 cópias, num envelope grande. Dentro do envleope maior, anexar um envelpe lacrado com dados pessoais (pseudônimo, nome completo, endereço, telefone, e-mail, cópia de RG e CPF) . Ambos os envelopes devem ser identificados por pseudônimo. O envelope maior pode ter o endereço real do remetente.
Nempuku Sato (1898-1979) foi um imigrante japonês que ajudou a disseminar o haicai em terras brasileiras. De sua linhagem segue o poeta Masuda Goga que influenciou a paranaense Helena Kolody. Além dela, a poesia paranaense conta com nomes como Alice Ruiz e Paulo Leminski, entre os divulgadores do haicai.

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Wednesday, April 02, 2008

A beleza do diferente - Japão para Crianças

Com o objetivo de marcar o ano em que o Brasil a Editora CosacNaify lançou, para o público infantil, o delicado Minhas imagens do Japão, com texto e ilustrações de Etsuko Watanabe, traduzido por Cássia Silveira.


Mais do que uma crónica da vida urbana no Japão contemporâneo, esse livrinho guarda a chave para compreendermos um fato muitas vezes esquecido: que, apesar das diferenças, somos todos, essencialmente, seres humanos. Não é pouco.
Quando os meios de comunicação e a Internet nos bombardeiam com toneladas de informações superficiais ou inúteis - em que podemos vislumbrar, quase sempre, generalizações injustas e perigosas -, as diferenças culturais passam mais a afastar do que aproximar as pessoas, transformando o outro, o estranho, no rival, no inimigo.

Como vive uma menina de sete anos no Japão? Nesse lugar tão longínquo - não apenas em termos geográficos -, o que há de diferente e de semelhante em relação a nós?
Para responder a essa pergunta, Etsuko Watanabe apresenta-nos o Japão e seu povo: os utensílios do quotidiano, os objetos escolares, a vida em família. E como a mesa é posta, quais as vestimentas do dia-a-dia, algumas brincadeiras - as minúcias, enfim, que constroem uma civilização. Conhecemos também as palavras, com seus sons inesperados, às vezes surpreendentes, donas de uma eufonia para a qual precisamos de reeducar nossos ouvidos.


A beleza do estranho assalta-nos em inúmeros trechos da obra. A autora, formada pela Musashino Art University e com mais de sete livros infantis publicados, não despreza sequer os aspectos da intimidade. A importância da hora do banho, os vasos sanitários - curiosos e eficazes - e os banhos públicos - uma característica dessa cultura que não submeteu a nudez humana ao arbítrio da absoluta privacidade: todo o engenho do conforto e da higiene de uma civilização está resumido nesse livrinho.
De repente, percebemos que não estamos distantes do Japão dos samurais, e é como se pudéssemos vislumbrar, sob cada gesto - principalmente sob os hábitos e a disciplina escolares -, o código de honra desses antigos guerreiros.
Nada é esquecido: das brincadeiras infantis às superstições, à busca da sorte e da ajuda dos deuses; as lendas e os costumes; as crenças pueris do povo e as festas que as materializam, comemorações que são marcos da passagem do tempo, cujas alegrias podem conceder uma nova força à vida banal, fragmentada entre o trabalho e as poucas horas de descanso.

Introdução a um mundo diverso do nosso, a obra de Watanabe oferece possibilidades quase infinitas de se trabalhar com as crianças, não só para diverti-las, mas também para mostrar como as diferenças, se quisermos, podem mais unir do que separar as pessoas. Sob o olhar imparcial de uma menina capaz de se encantar com as menores coisas, Minhas imagens do Japão descreve um povo cujas tradições e história engrandecem a espécie humana.
Minhas imagens do Japão
Etsuko Watanabe (texto e ilustrações)
Tradução de Cássia Silveira
Editora Cosac
Naify40 páginas




Rodrigo Gurgel

*Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

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Thursday, March 27, 2008

Manyoshu - Introdução


Durante a era de Nara奈良時代 (710 a 794) surgem os primeiros registos da poesia japonesa inicialmente com o “Nihongi” ou “Nihonshoki” (日本書紀) que conta a origem lendária do Japão. Este livro foi redigido no idioma importado pelos nobres, o chinês e trata-se de um texto essencialmente elaborado segundo os preceitos da corte, no qual se misturam mitos ancestrais com veracidade histórica.


Depois disto a literatura japonesa foi ampliada com um grande livro de poesia,
“Manyoshu” 万葉集 (Colectânea de Dez Mil Folhas). Esta antologia reúne, em vinte tomos, 4496 fragmentos de poemas.

O Manyoshu possuía poemas de todas as classes, desde o imperador até ao homem do povo. Ou seja, possuía grande abrangência/variedade social.
Provém de uma época fortemente influenciada pela cultura chinesa e os próprios compiladores do livro tinham uma formação em literatura chinesa.
Foi também utilizado como instrumento de ligação nacional já que o espírito nacionalista se revela necessário para criar o conceito de “nação” e uniformidade cultural.

Nesta altura utilizavam-se os kanjis com funcionalidade fonética. A este tipo de Kana chamava-se Mayoga.
O hiragana só se desenvolve a partir do séc. X.


Tipos de poemas do Manyoshu por número de versos:

片歌Katauta – 5-7-7
Shoka – 5-7 (geralmente acaba com 7-7)
短歌Tanka – 5-7-5-7-7
仏足石歌Bussokusekika – 5-7-5 7-7-7

Tipos de poemas do Manyoshu por tema:

相聞歌
Soomonka – Canções de amor
Genka – poema da lamentação da morte – elegia
Zooka - outros
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Bibliografia
CARTER, Steven (tradutor), Traditional Japanese Poetry: An Anthology, Stanford University Press (April 1, 1993)
UDA (compilador), The Kokin Wakashū (古今和歌集, Kokin Wakashū?) (r. 887–897)
YAKAMOSHI NO, Ōtomo (compilador), Manyōshū (万葉集, man'yōshū), (759)
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Sara F. Costa

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Friday, March 21, 2008

A história de Murasaki de Liza Dalby

Sobre a vida e a obra de Murasaki Shikibu, a autora de A História de Genji, o primeiro romance da literatura universal e a peça mais famosa da literaturado do Japão, liza Dalby, autora de Geisha, urdiu uma ficção primorosa e delicada.Filha sensível e modesta de um poeta menor da corte, é com a sua imaginação fértil que Musaraki preenche a solidão.De início, as suas histórias sobre o destemido príncipe Genji só divertem os amigos mais chegados.Mas depressa as aventuras amorosas de Genji vêm a público.Instada por um regente carismático a aceitar uma posição na corte para entreter a imperatriz com as suas histórias, Murasaki é apanhada numa espiral de alta política e intriga sexual.É assim que escreve a sua obra-prima, A História de Genji.O romance de Liza Dalby inspira-se por sua vez nos fragmentos que sobreviveram do diário e da poesia de Musaraki para criar um retrato vívido e pormenorizado de uma mulher inteligente, sensível e complexa, mas também de uma época fascinante: o Japão do século XI.Requintada e culta, profundamente influenciada pela cultura chinesa, a sociedade japonesa da dinastia Heian é um mundo codificado e fortemente hierarquizado, em todos os actos da vida obedecem a regras fixas: as cores dos trajes, os movimentos dos leques, as cortinas que separam homens e mulheres, as relações entre pais e filhos, entre superiores e inferiores.A História de Murasaki reconstitui subtilmente as sensibilidades, maneiras, modas e preocupações desta época e o resultado não é apenas um romance histórico, mas um fascinante trabalho de arqueologia literária, em que o lirismo dos textos de Musaraki se combina magicamente com a narrativa delicada de Liza Dalby, ressuscitando um passado complexo e transportandoos leitores a uma época de raro exotismo.

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Tuesday, March 04, 2008

Musashi


Se alguma vez se perguntou qual era o samurai mais emblemático do Japão, Eiji Yoshikawa (吉川 英治,) publicadou originalmente em pequenos capítulos diários no jornal Asahi Shimbum, entre 1935 e 1939, aquilo que seria a mais bela homenagem ao guerreiro mais apreciado da Historia do Japão: Miyamoto Musashi.

A obra epónima “Musashi” encontra-se dividida em vários “livros” incluindo:
Livro 1. A Terra, Livro 2. A Agua, Livro 3. O Fogo, Livro 4. O Vento, Livro 5. O Céu, Livro 6. Sol e Lua, Livro 7. A luz perfeita.


Essa divisão é a dita original, sendo que em função da editora é possível encontrar a obra completa num só livro, dividida em dois: “A pedra e o sabre” e a “luz perfeita”, ou com a divisão original.

O género da obra é o reflexo da personalidade da personagem que narra, um condensado de lutas de espada com reflexões filosóficas, o retrato do percurso que leva os grandes para a glória que lhes era predestinada, pela essência do génio que dormia neles. Musashi é um percurso iniciático, o caminhar de uma reflexão sobre a excelência e a autodeterminação, um condensado do espírito marcial japonês aliado ao ritmo de uma história movimentada pela sua dimensão épica.

A história começa no fim da batalha de Sekigahara 関ヶ原の戦い que vê nascer para o Japão uma era de unificação sob o reino dos Tokugawa. Mas para Takezo Shinemen e Matahachi Hon’iden o momento é grave, fazendo eles parte das tropas de Hideyoshi, é deitado no chão fingindo a morte, que os dois esperam pacientemente pela partida dos soldados inimigos. Recolhidos por duas mulheres cuja principal ocupação é a pilhagem de cadáveres, os dois jovens da aldeia de Miyamoto são mutualmente o espelho um do outro. Quando Matahachi decide abandonar a vida que lhe era predestinada em Miyamoto para ficar nos braços da ladra Oko desleixando a sua promessa de casamento com a doce Otsu. Takezo decide continuar por si própria o seu caminho, o tigre japonês persegue o caminho que o seu corpo de gigante lhe predestinou voltando para a sua aldeia, deixa por traz o seu amigo cujos horizontes se revelam mais obscuros pela triviliadade e fraqueza da sua escolha.




Porém, Takezo é ainda imaturo e arrogante. A sua prodigiosa força física não lhe permite abrir-se ao caminho da reflexão. Voltando por si próprio para a aldeia, é condenado como um desertor e o responsável pelo desparecimento de Matahachi, torturado Takezo é obrigado a comprometer-se com si próprio e a sua condição e, libertando-se, o animal selvagem se compromete a seguir a via do guerreiro, aquela que dará sentido às suas garras e que o fará esquecer o seu nome para renascer com o nome de Miyamoto Musashi, uma alma imatura que se forja a cada passo no equilíbrio perfeito entre sabedoria e arte da espada.

O relato da história é em grande parte fictícia mas a essência da evolução da personagem é claramente fiel à história original. O autor dos “cincos anéis” ganha a densidade psicológica que a historia não lhe preservou, demonstrando ao longo da obra os altos e baixos de um processo de raciocínio em que cada viagem e aventura leva a uma nova conclusão sobre o ideal da Via da Espada. O leitor encontra-se na mesma posição, é com febrilidade que as peripécias do herói nos levam a contemplar a magnificência dos combates digno de cativar qualquer amador de mangas shonen, a reflexão filosófica que alimenta a nossa sede de saber, e acima de tudo a contemplação da construção da mente de uma personagem que ganha sabedoria conhecendo-se melhor a si própria despertando pela reflexão a nobreza de alma que já residia no seu intelecto.
A obra ainda possui um forte carácter sentimental, sendo que a história de amor do Musashi ganha em intensidade e dramatismo ao longo da obra.



O que mais sobressai da obra é a sua acessibilidade. Com efeito, por experiência própria, o livro consegue reconciliar com imensa facilidade qualquer jovem leitor com a literatura. Aqui a evolução da personagem imatura leva a um processo de auto identificação forte, em que a relfexão nunca se torna asfixiante pela importância dada à estratégia dos combates e à imprevisibilidade das peripécias da história. Nesse aspecto a obra poderia comparar-se aos três mosqueteiros ou aos romances dos cavaleiros do Rei Artur. Atrevo-me até a considerá-lo como a obra mais “mangaesca” da literatura, tudo na evolução da história parece respeitar os códigos do típico shonen, com a sua personagem imatura com potencial que se torna ao longo da história mais forte e mais matura.

A obra na minha opinião revela-se simplesmente imprescindível para qualquer amante do espírito do bushido.

Matthieu Rego

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