Tuesday, February 09, 2010

Kazuo Ishiguro e As Colinas de Nagasaki

Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki em 1954 mas a sua família mudou-se para Inglaterra quando este tinha apenas seis anos. Licenciou-se em Filosofia na University of Kent e concluiu o mestrado em Escrita Criativa em 1980 na University of East Anglia, na cidade de Norwich. Nomeado pela revista Granta como um dos melhores 20 escritores britânicos da actualidade, a sua nacionalidade pedida pelo próprio em 1982, não nos deve enganar em relação ao vínculo dos seus livros com o cenário japonês ou, pelo menos, à expressividade cultural que lhe é própria. De facto, há no autor uma identidade japonesa indeclinável e é algo que se depreende assim que se começa a ler a sua obra.

Obviamente que o seu posicionamento lhe permite uma consciência mais multicultural, o que só pode ser benéfico na consciência transversal da sua produção. É conhecido por ser um autor de best sellers de qualidade, já que o número de vendas pode reflectir o aspecto comercial mas a qualidade da obra obtém frequentemente reconhecimento tendo o seu expoente máximo na atribuição do importante Man Booker Prize ao livro “The Remains of the Day”.
Parte da temática genérica dos seus livros recria retratos psicológicos individuais e colectivos do Japão moderno, incidindo muitas vezes na memória do período pós-guerra. A particular ligação a Nagasaki constituirá um encadeamento natural a tal abordagem. Por isso Ishiguro é um nome inevitável na listagem dos autores contemporâneos ligados ao Japão. E por onde começar? Bom, o bom senso dir-nos-ia pelo início! Por isso trago para este artigo o primeiro livro escrito pelo autor, “A Pale View of Hills” de 1982. O livro foi editado em Portugal pela Relógio D’Água com o título “As Colinas de Nagasaki”. A edição é já antiga e talvez se possa, portanto, pensar já numa reedição… Fica a ideia!

As Colinas de Nagasaki falam da memória de Etsuko, japonesa a viver em Inglaterra cujo passado num ambiente de guerra deixou muitos legados traumáticos, entre a morte do primeiro marido ao suicídio de um filha. Etsuko começa a contar à filha a sua memória de uma vizinha que conheceu antes de sair do país e é por aí que a narrativa se desenvolve.
A fase inicial de Ishiguro é muito debruçada para as reminiscências, as memórias semi-obscuras, distorcidas e acima de tudo claustrofóbicas. A ideia de que todos os acontecimentos progressivamente moldarão a nossa mente ou que a nossa mente se reflecte sucessivamente nas nossas obsessões presentes e que a noção de insignificância é, no fundo, muito questionável. Há uma grande densidade psicológica sem uma grande densidade lexical. As personagens são apresentadas de uma forma muito pura e factual. Os pensamentos são deduzidos, não verbalizados. Há um ambiente muito relacional japonês, com toda a sua formalidade e superficialidade mas também a sua crueza, a sua sinceridade que para lá do véu de cortesia que pode ter um impacto que a um ocidental pode parecer ligeiramente belígero. Outras temáticas presentes são as do conflito de mentalidades, a revolução e o atrito do conservadorismo que de alguma forma nos é apresentado como empático ainda que não muito racional. O autor usa contextos irónicos para realçar a reflexão sobre o papel da mulher e da mentalidade tradicionalista, o ensino patriótico, a noção de autoridade e a opressão do passado que continua a influenciar o presente, apesar das mudanças políticas. É assim que se constrói esta elegia suave onde o minimalismo da história assume a forma do indizível.

Sara F. Costa
também em

Thursday, February 04, 2010

HERÓIS E BESTAS, SEVÍCIAS E PUDORES, SEGUNDO TANIZAKI JUN’ICHIRO

“BUSHUKÔ HIWA — 武州秘話 — A HISTÓRIA SECRETA DO SENHOR DE MUSASHI” (1931—32)
     
 

                “Rezam as crónicas da época, que pelo décimo mês do décimo-oitavo ano de Ten’Bun ( 天文十八年十月)[1549], Yakushiji Dan’Jo Masakata adoeceu subitamente, e enquanto decorria o assalto ao Castelo de Ojika.
                 “O cêrco foi, pois, levantado, e as suas forças marcharam em retirada para Kyoto, onde Yakushiji viria a perecer, escassos dez dias volvidos, na sua mansão em Abura’Kouji.
                “Resulta, porém, claro d’“As Confissões de Dôami” e do “Sonho De Uma Noite” que tais relatos em nada correspondem à verdade do sucedido...              Pois que, à época destes eventos, só um punhado de próximos de Yakushiji se inteirou da verdade desta história. E no Castelo de Ojika, só o próprio Hôshimaru (法師丸) — futuro Senhor de Musashi — da verdade sabia...”

«De Quando Ambas As Forças Em Batalha Se Tomaram De Espanto E  As Hostes De Yakushiji Dan’Jo Masakata Levantaram Cêrco E  Debandaram...» in “Bushukô Hiwa (武州秘話) — A História Secreta do Senhor de Musashi”
 TANIZAKI JUN’ICHIRO, 1931       



        Inédita em Portugal e recentemente trazida a público no Brasil, em versão portuguesa, com tradu          ão a cargo de Dirce Miyamura, sob o título “A Vida Secreta do Senhor de Musashi” (ed. Companhia das Letras, São Paulo, Setembro de 2009) — desta feita, e à semelhança da versão inglesa de Anthony H. Chambers, de 1982 (“The Secret  History of the Lord of Musashi”), fazendo-se acompanhar da novela sua ‘gémea’ intitulada “Yoshino Kuzu” (吉野 - “Arrowroot” na versão de Chambers), esta igualmente publicada pela primeira vez em 1931 —, “Bushukô Hiwa” (武州秘話) permanece, no nosso tempo, como uma das mais  extraordinárias obras vertidas do indomitável génio de Tanizaki Jun’Ichiro (1886-1965), vulto incontornável da literatura nipónica do século XX e autor de um dos mais emblemáticos e celebrados espólios literários do seu tempo. E se esta obra, ainda relativamente desconhecida entre nós, terá à data da sua conclusão, em 1932, suscitado um vasto manan         cial de emoções, do riso enternecido de uns à indignação puritana de outros, ela conserva ainda hoje, in equivocamente e em estado puro, a frescura de espírito burlesco e o humor hilariante que lhe deu o tom, e que raríssimos escritores do seu tempo partilharam com o aclamado autor de “Sasame Yuki  (細雪) — As Irmãs Makioka”  (1943-48).

        Mas se “Bushukô Hiwa” se nos afigura como uma obra emoldurada numa equação de termos sobejamente simples — a re-elaboração da biografia de uma temível figura do Japão feudal (heroicizada pela História dita ‘oficial’, esta cobrindo aquela de elogios, ocultando as suas facetas mais obscuras, os seus mais infrenes vícios e maquilhando o grotesco), fazendo-o por recurso a dois olvidados “manuscritos da época” entretanto descobertos pelo autor/narrador, e servindo estes como fontes fidedignas dessa outra história, a tal dita secreta, que cabe agora revelar —, não obstante esta “História Secreta...” impõe-nos, à partida, a leitura de uma ou duas advertências a título de notas prévias, prendendo-se estas com a sugestiva fórmula do seu título, passível de  suscitar uma ou outra dúvida, a saber: a referência a um certo território, feudo, suserania ou Han () ancestralmente designado pelo nome Bushu (ou Bushuu — esta última latinização dos Kanji [Bu - de bélico ou  militar] e 州 [Shuu - estado(s)] sobrepondo-se como eventualmente mais acertada), remete-nos para a questão da opção pelo nome Musashi (武蔵) a preponderar na generalidade dos títulos das versões traduzidas desta obra, até hoje publicadas no Ocidente.




                A este respeito e com rigôr, sabemos que o espaço geográfico designado por Tanizaki como lugar do domínio de Terukatsu, Senhor de Musashi’, corresponderia  a uma área só posteriormente tratada por esse nome, localizada a sul da planície de Kanto, lugar da então Edo, hoje Tokyo. 

            Certo é que, da leitura do texto original d’”A História Secreta...”, verifcamos que, com efeito, o nome Musashi , não obstante a clareza do título original, figura como cognome do dito Terukatsu do princípio ao fim da obra.


Numa segunda observação, o nome Musashi eventualmente induzir-nos-ia num inocente equívoco: referir-se-ia Tanizaki, porventura, com a sua personagem, à figura semi-mítica de  Shin’men Takezo, esse dito Miyamoto Musashi (c. 1584 - 1645), primaz dos lidadores da espada do Período Azuchi-Momoyama (安土桃山時代 — 1568-1603) e primórdios do Período Edo (江戸 — 1603 a 1868), artista pluri-disciplinar e génio quasi-DaVinciano da época posteriormente designada por Renascimento de Kyoto (京都文復興期  — Kyoto Bungei’fukkouki), o mesmo herói do  lendário duelo de Ganryu’Jima (「 巌流島の決闘」) no qual eliminaria o seu arqui-rival Sasaki Kojirô (佐々木小次郎), e autor do magistral Go’Rin-No-Shô (「五輪書」)  — o mil e uma vezes citado “Livro Dos Cinco Anéis”?


        A resposta a esta questão é categórica: nem de perto, nem de longe, existe seja que relação fôr entre esse Miyamoto Musashi que a História registou igualmente como  combatente nas fileiras de Tokugawa Ieyasu (徳川家康) nas campanhas de Sekigahara  e Shimabara e ess’outro Terukatsu, ‘Senhor de Musashi’, personagem inteiramente fictícia, e saída tão-só da imaginação incendiária de Tanizaki.
        Desta breve análise, depreendemos que o título possível de “A História Secreta do Senhor de Bushu(u)” poderia sempre servir como última opção para uma versão traduzida, dispensando, assim, os eventuais equívocas supra mencionados.
            Em todo o caso, o título com a referência a um certo “Senhor de Musashi”, entre nós, parece ter assente terreno e vindo para ficar.  Subsistirá, em qualquer recurso,  a dúvida sobre se esta última opção recorrente se deverá a uma particular astúcia ou estratégia editorial, transversalmente disseminada, com vista a atrair o potencial interesse de todos quantos identificam no nome Musashi o fascínio suscitado pela vida e  feitos do personagem real que o envergou em idêntico período histórico a esse que serve de cenário à novela de Tanizaki: o Período Sengoku (戦国時代 - Sengoku Jidai: período do País em Guerra), era de violentas guerras civis iniciadas em meados do século XV — final do Período Muromachi (室町時代 — 1336-1573) —, que devastariam o Japão por mais de dez longas e penosas décadas, e atingiriam o seu auge pela segunda metade do século XIV, com os conflitos protagonizados por Oda Nobunaga (織田信長), Toyotomi Hideyoshi (豊臣秀吉) e o acima referido Tokugawa Ieyasu (徳川家康).

*
·        Génese de uma quimera incompleta


       
       Acerca das origens d’”A História Secreta...”, Anthony H. Chambers, tradutor da mais conhecida versão inglesa desta obra, elucida-nos a este respeito, lançando mão a um curioso manancial de referências.

            Diz-nos Chambers que em 1948, havendo concluído a sua opus magnum, “Sasame Yuki — As Irmãs Makioka”, Tanizaki escreveu que entre as obras de sua autoria de que mais gostava, destacava “Tadeku Mushi (蓼喰う蟲) — Ele Há Gostos Para Tudo...” [“Some Prefer Nettles”, na versão inglesa], (1928-29) e “Yoshino Kuzu” (吉野葛“A Fécula de Yoshino”,“Arrowroot” na versão inglesa), como figurando entre as suas favoritas. Entre estas, destacava igualmente “Bushukô Hiwa — A História Secreta do Senhor de Musashi” (武州秘話).

       

            De 1910 até cerca de 1930, Tanizaki favorecera um certo estílo novelístico ‘ortodoxo’, “dinamizado por uma escrita descritiva minuciosa e pelo recurso a diálogos com propósitos estritamente objectivos”, como sucede no caso de “Tadeku Mushi (蓼喰う蟲) [Some Prefer Nettles]”, onde encontramos tais características  bem empregues.
      
        Contudo, de 1930 a 1935, Tanizaki envereda por um estílo sobremaneira mais ‘experimental’ e enredado em subtilezas, um género quase-novo de “ensaio-ficção”, cujo propósito declarado seria o de “encontrar a forma que conferisse ao conteúdo uma sensação completa, grandiosa de realidade.”
            Aliada a esta conversão de estilo, um renovado interesse na contemplação da História e  Estética nipónicas, faz-se manifestar na sua escrita ainda antes da decada de 30, e sobretudo a partir de 1926.
            É em “Yoshino Kuzu” que Tanizaki apresenta, pela primeira vez, os seus dois novos interesses paradoxais: experimentalismo e tradição.
            Tendo pressentido ser inteiramente capaz de fazer fruir tão (aparentemente) improvável combinação, Tanizaki explorá-la-ia em várias das suas obras maiores, onde se destacam “A História Secreta...”, “Ashikari” (蘆刈) de 1932, “Shunkin’shô — Retrato de Shunkin” (春琴抄) de 1933, e a “A Mãe do Major Shigemoto” (少将滋幹の母), de 1949.
            A técnica narrativa vertida em “Yoshino Kuzu”, e n’ “A História Secreta...”, parece, por seu turno, ter colhido a inspiração na obra de Stendhal, “L’Abbesse de Castro”, inclusa nas “Chroniques italiennes”, que Tanizaki traduzira para Japonês ainda em 1928.  Na obra de Stendhal, à semelhança do que sucede com o protagonista de “Yoshino Kuzu”, o narrador viaja até Itália, partindo em busca da verdade acerca de uma história que, algures no tempo, teria sido distorcida por cronistas tendenciosos, e, na mesma esteira d’“A História Secreta...”, revela a sua versão dos factos, baseando-se em dois manuscritos recém-descobertos. Há, porém, uma diferença notória entre a obra de Stendhal e as de Tanizaki:    Stendhal recorre a manuscritos autênticos ao compôr as suas “Chroniques italiennes”, ao passo que Tanizaki mais não faz que pur’e simplesmente inventar os dois ‘manuscritos’ que sustentam a sua “A História Secreta do Senhor de Musashi” —   o “Sonho de Uma Noite” (見し夜の夢 - Mishi Yoru No Yume), atribuído à Monja Myokaku, e “As  Confissões de Dôami” (道阿弥の手記 - Dôami No Shuki) resgatadas a um seu  pajem d’outrora — e todas as personagens dest’última, à excepção de alguns Daimyo (大名 — senhores feudais) referidos no prefácio e no Tomo I, são , todas elas, absolutamente fictícias — em todo o caso, adverte-nos A. H. Chambers, o leitor não deverá assumir o narrador de “Yoshino Kuzu” como se se tratando do próprio Tanizaki: “a ‘Mãe’ mencionada nestra obra é, na verdade, a mãe do amigo de [do personagem] Tsumura” escrevia Tanizaki em 1964. “Minha Mãe nasceu em Fukugawa, Edo, em 1864, e veio a falecer em Kakigara-chô, distrito de Nihonbashi, Tokyo, em 1917; como filha devota de Tokyo, minha Mãe nunca se deslocou ao Japão ocidental [Yoshino, Kyoto, Nara, Osaka, etc.](...)”

Com efeito, a escrita de Tanizaki é notoriamente menos auto-biográfica que a da grande maioria dos escritores Japoneses seus contemporâneos. Tanizaki preferia clara e inequivocamente, fazer uso, tão-só, da sua prolífica imaginação. “Recentemente dei comigo enredado neste péssimo hábito”, escreve em 1926, “torna-se-me impossível ler, ou escrever, seja o que fôr que tome factos reais por matéria-prima, ou que avulte o que quer que seja — ainda que remotamente — de realista. E é por esse motivo que não faço o menor esforço por ler quaisquer obras destes autores de agora que vão surgindo nas publicações periódicas todos os meses. [Quanto muito] dou-lhes uma vista-de-olhos, às primeiras cinco, seis linhas, e logo dou por mim a dizer p’ra comigo mesmo «Aha! lá está ele a escrever sobre ele próprio...» e perco logo toda e qualquer vontade de prosseguir [com a leitura]. Via de regra dou por mim a ler coisas que em nada se prendam com os dias de hoje. Quando leio novelas históricas, historietas d’entreter ou até mesmo obras de algum realismo de há uns cinquenta anos atrás, ou até, porventura, obras de autores Ocidentais contemporâneos, que em nada se relacionam com a sociedade nipónica de hoje, aí sim!, posso deleitar-me com esses mundos que me são dados contemplar somente pelo exercício da minha imaginação.”
     
 E à semelhança do narrador de “Yoshino Kuzu”, Tanizaki terá, inicialmente, planeado escrever, conforme sugerira em 1933,  uma longa narrativa histórica, ao estilo de um “Quo Vadiz?”, fazendo desenrolar a acção no Japão feudal, numa tela de personagens repleta de cortesãos, um Shogun, sacerdotes, lindas donzelas insinuantes, intrincadas em labirínticas tramas e outras relações complexas, sofrendo incontáveis vicissitudes.  Tanizaki considerava, porém, que na sua generalidade, as crónicas históricas japonesas de índole tradicional, e dominantes no âmbito de  uma certa cultura clássica do seu país, se achavam demasiado enredadas numa certa ortodoxia confucionista, que as tornava excessivamente didácticas e sobremaneira insalubres, e lamentava, em termos depreciativos, o fardo do confucionismo na tradição histórico-literária do Japão.

            “Jamais saberemos quanto génio se perdeu nessa dita ‘literatura sóbria’ e por efeito dessa noção, dominante no Japão d’outrora, de que as novelas e o teatro só serviriam como entretenimento de mulheres e crianças, jamais podendo integrar o espólio cultural de um samurai. Um homem de letras como um Rai Sanyo ( 山陽 — 1780-1832), por exemplo, quantas e quão belas obras, de inegável valor literário, político e historiográfico e ainda assim dotadas de algum calor humano, de um pouco de Alma que fôsse, teria ele produzido, em lugar dess’enfadonha “História Não-Canónica do Japão.”

            E em particular, as visões tradicionalmente perfilhadas quer pelo Confucionismo, quer pelo Budismo no concernente às mulheres — de que estas seriam seres inferiores, pouco ou nada meritórios de alguma atenção séria —, com efeito, faziam-se igualmente reflectir nas crónicas e relatos históricos do Japão pré-Meiji, para tristeza de Tanizaki.
           
            Em 1931, o próprio escreveria:

            “Com frequência, dou por mim a pensar que gosto seria poder escrever uma novela histórica baseada numa figura do passado, mas logo dou comigo invariavelmente frustrado ao deparar-me constantemente com a dificuldade em formar uma imagem minimamente clara que seja das mulheres que teriam rodeado este ou aquele personagem em dada época...
            “Desde tempos imemoriais , que as genealogias das famílias do Japão incluindo a da própria Família Imperial (皇室Kô’shitsu), sempre providenciaram um vasto  manancial de detalhes acerca dos seus elementos do sexo masculinos; mas, quando toca às mulheres, a informação  resume-se invariavelmente a essas notas fugazes de “mulher” ou “feminino”, via de regra sem qualquer menção dos respectivos ano do nascimento ou da morte, e no mais das vezes sequer dos próprios nomes.
            “Por outras palavras: a História do Japão compõe-se de ‘indivíduos-homens’, mas nela nem faz sequer sentido  procurar um ‘indivíduo-mulher’...”

E, no ano seguinte, escreveria: “O meu desejo, aquilo que eu realmente gostaria de fazer, seria recriar a moldura psicológica dessa Mulher Nipónica de um certo Japão feudal, tal e qual como esta se manifestava, assim, isenta de quaisquer interpretações modernas, e retratá-la de tal modo que ela pudesse tocar a Alma, os corações dos leitores de hoje.”
“...Até mesmo  uma mulher que aparentasse guardar a mais cerrada castidade e a mais empedernida pureza de ideais, terá, por um instante, e sem sombra de dúvida, experimentado a sensualidade de um amor cárneo, imoral, porventura imprescrutável aos olhos de seus pares e de todos quantos a rodeassem; ciúme, ódio, crueldade, e tantas outras paixões desenfreadas, ainda que tenuamente, se lhe houvessem de’insinuar Alma adentro...
“Contudo é extremamente difícil retratar de forma convincente uma mulher que, nem por um momento breve que fôsse, alguma vez tivésse exteriorizado o menor sinal de tais paixões: alguém que vivesse uma vida inteira na clausura do seu próprio mundo interior.”

            Estas palavras foram registadas pouco antes da redacção de “Bushuko Hiwa — A História Secreta do Senhor de Musashi” e da criação da apaixonante e atormentada Dama Kikyo.

·        Uma lascívia de cabeças cortadas e narizes amputados...


            Mas na mesma medida em que recria a narrativa de uma rígida história de matriz confucionista, “A História Secreta do Senhor de Musashi”, igualmente consegue o feito inimitável de parodiar, até à última sentença, o puritanismo desse mesmo estilo: os mesmos aspectos da vida que os historiadores e cronistas de índole confuciana tratariam por pudicícia de ocultar nos seus relatos, Tanizaki fá-los exibir com o mais dissoluto despudor.







O narrador jamais trata de se questionar acerca da veracidade dos feitos ultrajantes, do grotesco e do do patético, atribuídos a Terukatsu por via do “Sonho de Uma Noite” e  d’“As  Confissões de Dôami”, ao longo da narrativa,  ainda que conjecturando, aqui e ali, sobre as motivações que teriam, eventualmente, levado os biógrafos desse Senhor de Musashi, a dissimular tais detalhes, e prossegue, com relativa prudência, dissertando sobre o quadro mental do temido guerreiro.

            De um outro prisma, o mesmo narrador parece dissecar, em tom de comédia, a sua própria lubricidade sado-masoquista, pronunciada ao longo da narrativa, num estilo semelhante aquele que caracterizaria  a última das obras maiores de Tanizaki, “Diário de Um Velho Louco” (瘋癲老人日記 - Fuuten Rôjin Nikki),  de 1961.


       
        E é nesse mesmo tom incerto entre o solene e o jocoso,  e em traços ora soltos ora mui precisos, que “Bushukô Hiwa” nos conduz através da estranha vida de Terukatsu, herdeiro do Daimyo Terukuni, Senhor de Musashi, que até completar a idade de quinze anos se fez conhecer pelo nome de Hôshimaru.  E que nesse período de maturescência, entregue primeiro aos escrupulosos cuidados do Senhor de Tsukuma, suserano de Ojika (e como refém deste), se deixaria exorbitar, antes que fôsse homem feito, por essa inconfessável lascívia de quem tomou do raro privilégio  de, uma certa noite, observar e  deslumbrar-se, no resguardo da distância, pel’essas mãos das mulheres do Castelo de Ojika, lavando e maquilhando, em gestos suaves e concisos, as cabeças reclamadas dos decapitados em batalha. E havendo, entre estas, aquelas que se achavam privadas de seus narizes, fugaz detalhe que houvera,  porém, de‘inda mais fazer por inflamar a precoce volúpia do infante Hôshimaru. E todas estas coisas e outras mais que não cuidaram os escrivães de fazer constar nas crónicas, mas que do escrutínio do “Sonho de Uma Noite”  e d’“As  Confissões de Dôami”, las sabemos hoje, e com a mesma perplexidade com que Terukatsu p’la primeira vez olhou de perto essa insondável e mui serena Kikyo, consorte do Senhor Tsukuma Oribenoshou Norishige, dama de esmerados preparos, intíma, como assim outra não houvesse, das Artes da Poética e da Música, e candidamente insuspeita do papel que o destino lhe guardava nesta estranha e secreta história...

            Algures entre o deboche e o sublime, Tanizaki, com esta sua “História Secreta...” — e como  só ele, em sua época o soube fazer —, depunha ante o seu público uma genial comédia negra, espelho reflexivo da luz feérica das suas próprias obsessões, e despojada paródia de si mesmo. E diga-mo-lo claro: é precisamente essa rara habilidade para se rir de si mesmo,  assim aberta e publicamente, a faceta da obra de Tanizaki que ainda hoje a faz tão capaz de se conservar intacta na sua genialidade.
           



BIBLIOGRAFIA:

·         MIYAMOTO MUSASHI (宮本武蔵), 五輪書“Go’Rin Shô — The Book Of Five Rings” (biling. ed.  — coord. William Scott Wilson/Matsumoto Michihiro) — Kodansha International, Tokyo, 2001.
·         TANIZAKI JUN’ICHIRO (谷崎潤一郎), 武州公秘話“Bushukô Hiwa”  — Chuôkôron-Shinsha [中央公論新社], Tokyo, 2005.
·         TANIZAKI JUN’ICHIRO (谷崎潤一郎), “The Secret History Of The Lord Of Musashi” (trad. Anthony H. Chambers) — Vintage/Random House, London, 2001.


           

            LUÍS FILIPE AFONSO
Hakata, Kyushu, Japão  — Fevereiro de 2010

Friday, January 15, 2010

Yasushi Inoue井上靖



Yasushi Inoue (1907 – 1991) nasceu em uma família de médicos e foi criado desde os seus seis anos por uma avó gheisha, em uma região montanhosa perto de Tokyo. O kimono com crisântemos, os frios abissais, os bairros marginais, são imagens recorrentes na obra do grande escritor, quadros da sua infância que o seguem e reaparecem com fidelidade na obra inteira. Destes aspectos surgem a calmaria, a solidão da sua escrita, a formosura dos pormenores tão silenciados – femininos e constituídos em determinantes universais. Mas aonde Inoue foi buscar a sua técnica estrutural tão precisa, igual ao bisturi de um grande cirurgião dos sentidos? Não aprovado no exame de admissão na Faculdade de Medicina, para o desagrado dos seus pais, Inoue se forma em estética e filosofia pela Universidade Imperial de Kyoto, com uma tese final sobre o Paul Valéry. Nada surpreendente para um jovem que, através da poesia, já tinha revelado o seu eixo criativo ainda na adolescência. Logo depois de finalizar os estudos, inicia a carreira jornalística, graças a ela veio a sua predileção para novelas curtas, micro romances e estilo intencionalmente lapidário. Por quase um ano deixa o jornalismo e segue para os campos de batalha, servindo como soldado na China, entre 1937 e 1938.

Este pormenor poderá ter influenciado na preferência do escritor, a posteriori, pelo detalhe histórico minucioso, o mundo Chinês, e as novelas históricas em geral. Foi por causa deste percurso turbulento que só estreou na literatura aos 42 anos, com dois mini romances: Ryoju (Fuzil de caça) e Togyu (A luta de touros), o segundo trazendo-lhe o famoso prémio Akutagawa um ano depois, em 1950. É o momento em que renuncia ao jornalismo e se dedica totalmente a literatura. Publicou inúmeros romances. Alguns deles se transformaram em êxitos cinematográficos, inclusive marca Akira Kurosawa.

Obras principais:
Ryoju (1949), Togyu, (1949), Asunaro monogatari (1953), Yodo dono nikki (1955), Aoki okami (1959), Waga haha no ki (1975).



Bibliografia:

INOUE, Yasushi. (2007) Maestrul de ceai (O mestre de chá). Bucuresti: Humanitas.
--------------------. (2000) Pusca de vanatoare (Fusil de caça). Bucuresti: Humanitas.



Iolanda Vasile

Wednesday, January 13, 2010

Fuzil de caça - Inoue Yasushi(井上靖)


Título : «A arma de caça»


Título em original: 猟銃 (Ryoju)


Autor: Inoue Yasushi(井上靖)


Tradução em português(Brasil): ´Fuzil de caça´


Escrito em: 1949



O que abençoa o amor? Quando ele pára de ser puro, quando passa de um “estado normal” para um vício da natureza, quando começa a dependência do outro, esquecendo-se dos deveres sociais, das obrigações familiares e das leis de ser?


Quem define tudo isto e com que direito; e especialmente, como uma arma de caça pode interligar os quatros destinos que se revelam nos três episódios epistolários do pequeno romance? Que seja talvez a arma de caça, ou a tristeza, e não o amor, o fio que emerge atrás do título, o romance de uma outra história com sabor policial tenso, assinado por Yasushi Inoue?


Ao longo da primeira parte, que contem as cartas da menina Shoko, se constrói o drama de um destino imerso na solidão. Não falamos da miúda marcada pelo divórcio violento e inesperado dos pais, mas do homem, central no romance, Misugi Yosuke, cuja história se revela de três pontos de vista: o da filha da sua amante, o da sua esposa, e o da sua amante.


O amor se introduz com ódio. Também ódio se emana na maneira de se expressar, sempre referindo-se ao amor como uma espécie de crime contra o humano.


A carta de Midori, a esposa, é cruel, pseudo-frívola, e de um distanciamento sempre alterado pelo fracasso de uma carne jovem, cuja história de amor significou uma perpétua busca em tantos outros corpos de sexo oposto, que tentam recompor o do marido. Sempre buscando a dominação visual física, mas antes de tudo a inteligência severa de uns olhos humanizados pelo amor, ela pede o seu direito à única coisa que lhe restou: a necessidade de tentar seguir a frente através das mesmas buscas. O divórcio de um marido que nunca lhe mostrou amor, e de que agora, através da morte da sua amante, no mesmo tempo amada prima dela, encontrou o tal gatilho actuador para o pedir.


A poesia da primeira parte, que representa, ao mesmo tempo, a introdução autoral no assunto, transpassa todo o livro. É a base sobre a qual se constrói gradualmente o personagem masculino. A partir de ali, a poesia em si é transposta nos factos enfatizados com tanto subjectivismo e tristeza criadora, quase romântica, nas cartas das três mulheres da sua vida. O silêncio e o frio de dentro e de fora, que o autor do poema conseguiu captar tão simples e lúcido, é o momento em que Misugi relembra, já assumindo o próprio destino, os último 13 anos da sua vida. Um poema conduzido a posteriori a tantas cartas de feminino desespero.


A sombra que se destaca ao longo do romance parece se construir de facto dos corpos das personagens, já mortas e residindo, por acaso, nas próprias vidas. Estas figuras inusitadas são conduzidas adiante como reacção às acções das outras personagens, como um acto cíclico vicioso, da incapacidade de intervenção indeterminada no próprio destino.

Amar/ Ser amado. Querias amar ou querias ser amada? As perguntas centrais do livro e da vida da amante Saiko, mas que determinam a vida de todos os outros, se revelam apenas no final do romance, levando a carga do To Be or Not to Be Shakespeare-iano.




Em perpetuas madrugadas
De reencontros em dois
O zumbido dos silêncios…



Iolanda Vasile

Sunday, January 10, 2010

Kitchen, de Banana Yoshimoto


Falarei sobre o primeiro livro da autora Banana Yoshimoto, o qual me foi emprestado pela minha amiga Marília Kubota. Aliás, ela me emprestou-o logo depois que eu lhe mostrei algumas coisas que eu escrevia. Me deu o livro dizendo que “ela escreve bonitinho”.
Bem, eu adoro ler, leio sempre que posso, mas confesso que leio um tanto quanto devagar. Conheço pessoas que lêem muito rápido e mal sei como conseguem. No entanto, eu leio apenas uma vez e depois lembro da história por muito tempo. Claro que releio certos livros, mas no geral isso não acontece. “Kitchen” é um livro bem rápido de se ler, leve e gostoso, com suas 162 páginas divididas em 3 contos. E todos abordam um só assunto: a perda de alguém muito próximo e especial.

Nas duas histórias (já que os dois primeiros contos fazem parte da mesma trama) a personagem principal tem que enfrentar a realidade pós-perda de alguém bastante especial. Em “Kitchen”, Mikage acabara de perder a avó e não sabe que caminho tomar, já que não tinha mais os pais nem qualquer outro parente por perto. Nisso é acolhida por Yuuichi e sua mãe, Eriko (uma pessoa nada normal, eu diria). Assim a moça começa a lutar para superar tamanha perda e continuar a viver. Já em “Lua Cheia (Kitchen 2)”, Mikage e Yuuichi sofrem um novo abalo e buscam um caminho para uma nova vida juntos.
“Moonlight Shadow”, o terceiro e último conto do livro, a personagem Satsuki perde seu namorado em um acidente de carro e começa a correr todas as manhãs para ocupar a mente. É então que encontra Urara, uma jovem misteriosa que diz que num dia muito especial que só acontece de cem em cem anos, algo único aconteceria. Tal informação encheu a vida da moça de um novo colorido e objetivo, fazendo com que ela tivesse forças para continuar a viver.
Enfim, é um livro bem bonitinho mesmo, que te fará chorar meio que sem querer. Você fica lendo e pensando em todas as pessoas que lhe são especiais mas que de uma hora para outra podem não estar mais ao seu lado. Tudo bem, por mais clichê que isso seja, é a mais pura verdade, infelizmente.

Mylle Silva

Wednesday, December 30, 2009

A Casa das Belas Adormecidas – Yasunari Kawabata




Yasunari Kawabata é um dos escritores japoneses contemporâneos de maior sucesso no mundo. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1968 e quatro anos depois cometeu suicídio. A solidão, a angústia da morte e a atração pela psicologia feminina foram seus temas constantes. E uma das obras em que ele mais explora o erotismo feminino é A Casa das Belas Adormecidas.

Eguchi é um senhor de 67 anos que visita um hotel no qual moças são dopadas e pagas para passar a noite com velhos que “deixaram de ser homens”, nas palavras do prórpio personagem. Todas as meninas eram virgens, e a condição da casa é que nenhuma delas poderia ser corrompida pelos visitantes. Elas dormiam nuas e profundamente no quarto enquanto os senhores gozavam do prazer de estar ao lado delas.

Ao todo Eguchi tem contato com seis “belas adormecidas”, cada qual deixando uma marca diferente no velho. Ao longo do romance o personagem passeia por suas lembranças, além de encontrar-se com a alma feminina, com todas as mulheres de sua vida.

Ao ler A Casa das Belas Adormecidas, o leitor terá a impressão de estar diante de uma pintura da qual extrairará alguma interpretação, mas nunca uma resposta exata. A conclusão, ao contrário do que estavamos acostumados na cultura ocidental, é muito mais subjetiva do que certeira, digamos assim.

Acredito que exista uma beleza latente e incômoda nos textos do Kawabata, como se estivéssemos diante de um irrealizável constante. Como se fadados ao nada. E é exatamente por isso que vale muito a pena ler.



Mylle Silva

Saturday, December 19, 2009

Ariwara no Narihira (在原業平, 825 - 880)

Durante cerca de cem anos depois da compilação do Manyoshu, a corte japonesa continuou a demonstrar um intenso interesse pelos assuntos chineses que inicialmente atraíram Otomo Tabito e o seu círculo. Ao contrário dos membros do pavilhão de Kyushu, o imperador e a corte continuaram a compor sempre em chinês. Entretanto a poesia japonesa, ainda que permanecendo como um meio de comunicação informal, perdeu a sua vitalidade. Quando em meados de 800 a poesia ressurge em japonês ela ainda denota influências visíveis da poesia chinesa elaborada durante as Seis Dinastias (durante o período dos Três Reinos) caracterizada por expressões assertivas, metáforas e jogos inteligentes de palavras. Esta poesia dá uma especial ênfase ao intelecto e tem recorrentemente a argumentos e conclusões e tem ainda uma preocupação com a percepção global do leitor – afastando-se aí do estilo mais directo de Hitomaro e Akahito.




Nariwara no Narihira por Eisen (1820)

Um dos primeiros seguidores desta tradição foi Ariwara no Narihira, este autor de Waka cuja descendência genealógica denota ligações imperiais sendo, sendo o 15º filho do príncipe Abo (filho do Imperador Heizei). Permaneceu uma figura menor numa hierarquia cada vez mais dominada pelo poder do clã Fujiwara. O seu maior cargo profissional foi o de responsável oficial da corte, cargo este para o qual foi apontado alguns meses antes da sua morte. Há registos de que tenha sido anteriormente apontado para cargos de relevo mas os seus devaneios românticos levaram-no a situações polémicas – rumores que o envolvem com Fijiwara no Takaiko – ao que parece, uma consultora da corte.



Pessoas a atravessar a ponte em arco por Ariwara no Narihira por Katsushika Hokusai

Temos conhecimento da importância da sua obra devido à referência que Ki no Tsurayuki lhe faz no prefáfio de Kokin Wakashu.

Os registos históricos descrevem-no como um ser de carisma, atraente e culto, tendo recebido alta formação em poesia chinesa. Muito envolvido na vida poética do seu tempo, escreveu para várias ocasiões específicas nas celebrações da corte. Os seus poemas denotam um grande conhecimento e domínio técnico mas com uma ligeira tendência para uma tonalidade grave e séria que o deixou à margem dos leitores que preferiam uma tonalidade mais leve e humorística. Esta faceta introspectiva é bastante peculiar nos seus poemas de amor. Sendo ele próprio considerado um conquistador na área das paixões, a sua história está parcialmente relatada no Ise Monogatari (Conto de Ise) – a sua matéria empírica para a escrita não seria pouca. O Ise Monogatari contém muitos dos seus poemas no género Waka embora nem todos os poemas atribuídos àquela que é no livro a sua ‘personagem’ sejam efectivamente seus. Acredita-se que mesmo Murasaki Shikibu se inspirou na sua vida amorosa para escrever os sucessivos relatos de paixão e lascívia de Hikaru Genji no Genji Monogatari, a referência ao herói romântico tentando conquistar uma consultora da corte é uma das situações que leva os especialistas a esta conexão. Considerado um dos modelos de beleza masculina do seu tempo, na sua obra a temática do amor surge quase como uma ideia pura de desejo e perda do controlo sobre o meio e sobre si próprio, uma vertigem consentida, como define Steven Carter “to have powers of reason that the stronger forces of emotion refuse to obey”.

Aqui alguns exemplos de traduções por Thomas McAuley disponíveis on-line:



yo no naka ni/taete sakura no/nakariseba/Faru no kokoro Fa/nodokekaramasi




If, in this world of ours

All the cherry blossom

Disappeared

The heart of spring

Might find peace.

(Composto no Palácio de Nagisa)
KKS I: 53




keFu kozu Fa/asu Fa yuki to zo/Furinamasi/kiezu Fa ari tomo/Fana to mimasi ya

Had I not come today,

Tomorrow, in a blizzard

They might be falling.

Not to melt away, but,

Would they still seem the flowers?

KKS I: 63


nuretutu zo/siFite worituru/tosi no uti ni/Faru Fa ikukamo/arazi to omoFeba


Soaked through, and

Heedless of it, I plucked this:

For this year

Spring, is all but

Gone: or so I felt.

KKS II: 133



+Poemas




Trans. Helen Craig McCullough (1968). Tales of Ise: Lyrical Episodes from 10th Century Japan. Stanford University Press. ISBN 0-8047-0653-0.

Carter, Steven D. (translator), Traditional Japanese Poetry: An Anthology, Stanford University



Sara F. Costa

Sunday, December 06, 2009

«O amor, a morte e as ondas»



Título : «O amor, a morte e as ondas»

Título em original: 死と恋と波と

Autor: Inoue Yasushi(井上靖)

Tradução em português: N/A

Escrito entre: 1950 e 1951







O «O amor, a morte e as ondas» reúne as seguintes novelas:

• «O amor, a morte e as ondas» (死と恋と波と)

• «O Jardim de pedras» (石庭)

• «O aniversário de casamento» (結婚記念日)

People fade away. Se fôssemos desaparecer alguém iria observar o nosso desaparecimento? Se deixássemos de amar alguém iria observar a nossa “desaparição"?

Yasushi Inoue nos remete novamente ao seu estilo insinuante – minucioso, através de um tríptico, que parece revelar-se tal como em romances policiais.

Construídas como mini romances, as três novelas seguem a mesma linha narrativa, acabando em oposição às expectativas iniciais. Bastante pertinentes, nos falam sobre as perspectivas perante a vida, o amor ou «fora do amor», a redenção através da incidência ou da intuição do amor.

Em «O aniversário de casamento» se constrói o primeiro discurso das decepções. Dois anos após a morte da mulher, Karaki não consegue pensar em um segundo casamento. É normal, a maioria diria; mas isso não acontece por ele ser o homem de um único amor, como nos ‘quadros’ ideais. Através de um casamento – e aqui o pensamento conduz, involuntariamente, a uma má escolha – Karaki sente que uma futura mulher ‘sem juízo’, ao ser gastadora, poderia desonrar a imagem da primeira esposa. Desta maneira, o marido justifica o seu isolamento no universo de um primeiro casamento nada perfeito, mas cujo conforto psicológico, especialmente com a morte da esposa, faz preferir a sua avareza ao invés de uma outra ‘solidão’ a dois.

Tudo emerge lento, outonal, entre sons de tigelas, vento cortante, pensões, comida tradicional e tatami. No quadro de um Japão do século passado, o casal parece ter surgido como a maioria, convencional, da mesma forma levando também a sua pequena vida no seu pequeno apartamento na periferia da grande cidade.

As personagens femininas são construídas, aparentemente, como um reflexo das masculinas, surgindo implicitamente da narrativa textual, em tons definitórios para a vida do carácter masculino.

As mulheres de Inoue são subtis e determinantes, são retratos que influenciam e marcam a vida dos homens que se encontram ‘por perto’. Não são eles ‘os amados’, e ao seu turno, de alguma forma natural, não são elas ‘as amadas’, mas apenas respeitadas, subjectivamente, pelas suas ‘qualidades’. Talvez, o aspecto mais interessante que estas mulheres têm em comum é o facto de chegarem a ser amadas apenas depois de terem saído da vida de cada um dos homens: seja pela morte, seja pela ausência física ou simplesmente tornando-se presença. As três novelas vêm ressaltando um aspecto comum: a solidão. Como consequência da perda do outro – em facto uma redenominação duma solidão de dois – o sentimento torna-se além de cíclico, omnipresente.

As ‘almas feridas’ das personagens e o inteiro quadro, conseguem transmitir o “afogamento”, já insuportável e perpétuo, da impossibilidade quase perversa, de intervir no próprio destino, aceitando o vazio existencial.

O jardim tradicional japonês, as águas termais de Hakone, o templo Saihōji, Kyōto ou Tōkyō passam a ser apenas instrumentos do turismo sentimental.

Ao mesmo tempo este esqueleto topográfico, visual, eufónico e cultural é o que mantêm o quadro lírico.

Afinal, olhar para a página vazia que está em sua frente é como olhar-se no espelho, forçando-se a se ver.



Iolanda Vasile

Wednesday, November 25, 2009

Um Grito de Amor Desde o Centro do Mundo


Escrito em 2001, “Um grito de amor desde o centro do mundo” é o segundo livro de Kyoichi Katayama (片山恭一) e tornou-se rapidamente num tremendo sucesso de vendas no Japão, sobretudo depois da famosa actriz Kou Shibasaki (Battle Royale, Dororo...) ter falado publicamente do livro dizendo que este a tocou profundamente levando-a às lágrimas em vários momentos. O livro vendeu mais do que o top dos best-sellers de Haruki Murakami, Norwegian Wood. Um sucesso que já lhe valeu adaptação a manga por Kazumi Kazui e a cinema pelo sul-coreano Jeon Yun-Su com o título inglês “My girl and I” ainda que o título do mesmo filme em japonês tenha sido adaptado para “僕の、世界の中心は、君だ" que se pode traduzir por “Tu és o centro do meu mundo”.



Há uma certa problemática que ainda não compreendi muito bem. Aparentemente, o autor começou por designar o livro por "恋するソクラテス”, ou seja, “Sócrates apaixonado”, por isso a VIZ Media quando editou a obra nos EUA atribuiu-lhe o nome “Sócrates in Love”, mas por algum motivo, em edições posteriores, o livro recebeu a designação de 世界の中心で、愛をさけぶ, “Um grito de amor desde o centro do mundo” que é uma referência ao livro de contos de Harlan Ellison "Crying Out Love in the Center of the World". “Um grito de amor desde o centro do mundo” é este mês editado pela Alfaguara. Esta edição não traz na capa nenhuma referência à edição através do qual foi traduzido nem deixa explícita a língua que serviu de língua de origem para a edição portuguesa, o que é lamentável.



O livro de Katayama é um drama que se assume logo nas primeiras páginas. Sabemos que há uma morte e sabemos que há uma perda, não há suspense, o leitor sabe à partida qual é a temática das cerca de duzentas páginas seguintes, a reflexão sobre a morte e sobre a perda. O sucesso de vendas não lhe retira autenticidade, é uma história simples e autêntica sobre o contacto humano com a morte, sobre o seu conformismo ou falta dele, reflexões simples que mesmo simples não são de modo algum superficiais. Há um contexto juvenil povoado por personagens adolescentes. Sakutaru Matsumoto é um jovem de dezasseis anos apaixonado pela colega de turma, Aki Hirose, que corresponde a essa paixão. Contudo, Hirose acaba por padecer de uma doença que a conduz à morte. A forma como Sakutaru lida com toda a situação de primeiro namoro simultaneamente condenado a uma experiência traumática e perturbadora é o foco do livro.


Eu diria que o livro tem uma índole profundamente “japonesa” sem querer cair em nenhum tipo de pré-concepção, mas há de facto uma linha orientadora muito ligada às suas origens culturais. Isso deve-se às sucessivas referências directas a escritores japoneses – o nome de Sakutaru é logo mencionado por um personagem como sendo também o nome do escritor Sakutaro Hagiwara – ou referências à cultura anime e manga – por como exemplo no momento em que a personagem principal compara a sua amada à Nausicaa de Miyasaki. Mas há algo de mais transcendente e difícil de exteriorizar. A forma aparentemente linear como tudo ocorre, é dramático mas não há um vendaval de emoções enérgicas ou violentas a trespassar as personagens nem as suas acções, todos os cenários possuem uma naturalidade tão simples que quase se torna difícil explicar a sua dimensão perturbadora, sempre tão presente, sempre tão visceral e real. O livro não se baseia em nenhuma história verídica nem disso necessita pois verídica é a realidade da morte, ou melhor, a realidade de existir transportando uma perda ou as várias perdas que podem cravar-se em cada construção individual da realidade. Outros factores mais concretos convergem para a caracterização deste espaço japonês, as referências aos rituais xintoístas, a prática das artes marciais de origem japonesa (kendo e judo), e um ponto extremamente simbólico que é o do nome de Aki Hirose cujo kanji de Aki é 亜紀, enquanto Sakutaru pensava que seria 秋, uma vez que a leitura destes kanjis é homófona mas no segundo caso significa “Outono”, só que Saku não sabia porque Aki costumava escrever o seu nome utilizando apenas o silabário katakana (aparentemente em moda entre os jovens japoneses). Um outro ponto alto do livro centraliza-se na relação de Saku com o seu avô que serve de suporte de fundo com uma história semelhante à do jovem personagem e que é uma personagem recorrente para transmitir o balanço da sabedoria quando o neto se deixa consumir pela violência adolescente do vazio (no seu sentido niilista). O avô representa uma sabedoria ancestral e é a personagem com a qual se debaterá o conceito de “amor”, na sua acepção metafísica, que é o segundo grande tema do livro. A morte e o amor. Uma abordagem sensível, realista que sugere uma visualização cinematográfica, apesar das suas prolepse e analepse que seriam facilmente explicadas com formato de flashbacks. Um drama, na minha perspectiva, bem conseguido que vem dar-nos a conhecer uma nova figura em afirmação das letras japonesas.

Sara F. Costa

Thursday, November 19, 2009

EU SOU UM GATO




A obra


Ao aparecer num terreno baldio, “sombrio, úmido e pegajoso”, o gato, narrador deste romance, depois de passar por algumas poucas adversidades, acaba parando numa casa onde é acolhido por Chinno Kushami, o professor mal-humorado e estagnado em sua completa falta de perspectiva. Ridiculariza de maneira demolidora a vida da intelectualidade do Japão da Era Meiji, mostrando a fragilidade do professor e daqueles que o cercam. Sugerindo-se sempre como um ser de raça superior, o gato, com sua pesada munição e ares de dândi, não poupa nada nem ninguém. Sua linguagem é carregada de sarcasmo quando o assunto é o ser humano. Mesmo quando há uma ternura esta é impregnada de deboche.

Soseki investe, por meio do olhar de fora, recurso que usa habilmente, em profundas análises psicológicas do ser humano – influenciado por William James (1842-1910) e suas pesquisas sobre o subconsciente. Todos os personagens passam pelo crivo do felino que leva o leitor a uma jocosa aventura, chamando-o para ser seu cúmplice na tarefa de desvendar o trágico cinismo interior de cada personagem e seu mundo repleto de mesquinhez, mentiras, vaidades e desolação.

Muitas vezes trazendo para o texto idéias de escritores e filósofos do passado ou contemporâneos, Soseki propõe uma reformulação do modo japonês de escrever e pensar, a partir do contato com o pensamento e os costumes do Ocidente. Essa reformulação vem ao encontro das mudanças efetuadas na Era Meiji (1868-1912), quando o Japão passou por reestruturações políticas, econômicas e sociais, tornando-se potência mundial.

Publicado inicialmente em forma de capítulos no Hototogisu, importante jornal literário da época, e lançado em 1905, Eu sou um gato é a estréia literária de Natsume Soseki e uma das primeiras faturas da renovação modernista da literatura japonesa. Com este livro, o autor atingiu imenso sucesso de público e crítica.

Além de nos levar a reflexões sobre a condição contraditória e quebradiça do ser humano diante dos eventos diários, esta é uma obra que nos proporciona ótimos momentos de diversão, características que mantêm o poder de atração desse importante livro para sucessivas gerações de leitores no Japão e no exterior.




Trecho


“Sou um felino que reside com um acadêmico capaz de atirar sobre sua mesa de trabalho um livro de Epicteto após lê-lo. O espírito cavalheiresco existente na ponta de meu rabo é mais que suficiente para embarcar nessa expedição. Não se trata de nenhuma retribuição devida a Kangetsu, nem de uma ação para a consecução de simples objetivos individuais de alguém de sangue quente. Exagerando um pouco, é uma admirável e louvável ação que busca concretizar a vontade celestial de amor pela justiça e imparcialidade.”

“Os humanos têm quatro patas, mas se dão ao luxo de utilizar apenas duas. Poderiam andar mais depressa se usassem todas, mas se contentam apenas com um par, deixando as restantes estupidamente penduradas como bacalhaus postos a secar. Vê-se que os humanos são muito mais desocupados que nós gatos e é possível entender a razão de se entregarem a tantas idiotices para preencher seu tempo. O mais curioso é que esses ociosos circulam por aí não apenas afirmando sempre estarem muito ocupados, mas com uma fisionomia que aparenta estarem atarefados e impacientes, como se fossem ter uma estafa de tanto trabalhar. Ao me verem, alguns deles afirmam como seria agradável ter uma vida sem aporrinhações igual à minha. Por que então não buscam transformar as próprias vidas nesse sentido? Ninguém lhes exige que se ocupem de uma tal forma. Encher-se de afazeres para depois reclamar estar sofrendo por não dar conta do excesso de trabalho é o mesmo que acender uma fogueira para depois se lamentar do calor. No dia em que nós felinos inventarmos vinte maneiras diferentes de cortar nossos pêlos, certamente nossa tranqüilidade acabará.”

“Havia na Grécia antiga um escritor chamado Ésquilo. Esse homem possuía o tipo de cabeça comum aos acadêmicos e escritores. Quero dizer com isso que ele era careca. A razão de um crânio se tornar careca é, sem dúvida, a perda de vitalidade dos cabelos devido à má nutrição. Os acadêmicos e escritores são os que mais usam a cabeça e, em geral, vivem na pobreza. Portanto, suas cabeças são todas mal nutridas e carecas.”

“Alguns leitores devem acreditar que tudo o que escrevo não passa de invencionice, mas não sou um gato tão irresponsável. Cada palavra ou sentença tem incorporado um grande princípio filosófico cósmico e, quando postas em seqüência, tornam-se contextualmente coerentes do início ao fim, e um texto que se lia sem nenhuma pretensão por ser considerado insignificante sofre uma súbita transformação, assim como se intrincados termos budistas se tornassem de simples compreensão. Jamais deve-se ter o atrevimento de ler, correndo os olhos por cinco ou seis linhas de uma só vez, enquanto se está deitado de pernas esticadas.”

“Essa afirmação demonstra o grau de idiotice de meu amo, mas por outro lado não deixa de existir nela também uma certa lógica. Meu amo tem o hábito de valorizar aquilo que não entende. Isso não é algo necessariamente peculiar apenas a ele. Existe uma certa dignidade no imensurável e há algo impossível de se menosprezar dissimulado no incompreensível. Por isso, enquanto o homem comum se dá ares de entender aquilo que na realidade não compreende, os acadêmicos explanam o que compreendem como se não o houvessem entendido. É de conhecimento geral que nos cursos universitários os professores que discorrem sobre assuntos incompreensíveis se tornam populares e aqueles que explicam claramente o que sabem não são apreciados.”

Tradução de Jefferson José Teixeira

488 p.
16 x 23 cm
ISBN: 978-85-7448-138-8
R$ 64,00