4.8.16

As confissões de Kanae Minato

Confissões() é a mais recente peça de ficção japonesa editada em Portugal (julho de 2016) e traduzida em português pela Suma de Letras, uma chancela da Penguin Random House Grupo Editorial. O romance foi traduzido para inglês em 2014, editado no Japão em 2008. A obra conta com três milhões de exemplares vendidos no Japão e menção como um dos melhores thrillers do ano na Booklist e no The Wall Street Journal em 2014. Conta ainda uma adaptação a cinema por Tetsuya Nakashima. A autora Kanae Minato (凑佳) escreveu este livro aos trinta anos e ainda não assegurou a mesma popularidade em relação às suas obras posteriores mas, da mesma forma que este livro chega ao mundo anglo-saxónico seis anos depois de ter saído no Japão, pode ser que ainda voltemos a ter contacto com edições traduzidas de outra produção sua.




A literatura contemporânea japonesa traduzida para o ocidente começa nos últimos anos a recair sobretudo no subgénero do terror e do mistério. Tornou-se uma tendência geral esperar que um japonês escreva mais uma vez sobre o sistema educativo despótico com consequências perversas, os laços familiares de uma sociedade desassossegada, o comportamento humano de natureza abalável, o amor doentio e as vinganças mais criativas. Por outro lado, numa sociedade altamente obcecada com a organização e a notoriedade pessoal como canalização de prestígio nacional na anulação do indivíduo é precisamente o tipo de sociedade que gera o ambiente propício ao desabrochar de literatura contracorrente e subversiva. No fundo, chega-nos o melhor porque o pior também lá existe e é precisamente essa a inspiração dos bons autores.

Yuko Moriguchi é professora de ciências numa escola do ensino básico. Depois de um noivado que terminou em tragédia, a sua filha de quatro anos é tudo o que lhe resta. Frustrada com a malvadez dos seus estudantes, o incidente nefasto que provoca a morte da sua última alegria conduz Yuko a uma loucura vingativa. A sua despedida será sangrenta.

Relatado a várias vozes, ou a várias “confissões”, a narrativa desenvolve-se sobre contornos negros para contornos ainda mais negros em que várias tragédias se sucedem mas se reencontram numa só explicação articulada no final. O estilo simples e impessoal da exposição esconde uma história rebuscada e com vários sobressaltos. Mas os sobressaltos são mais do que episódios descritivos, são antes diferentes leituras e auscultações da psicologia humana assim como na contextualização insalubre de cada personagem mais perversa que a anterior. Parte do lado perturbador da história relaciona-se com o facto de ser uma levada a cabo essencialmente por crianças de 12 e 13 anos.

Com algum historial na literatura japonesa contemporânea, a questão da Lei da Criminalidade versus o Linchamento popular surge como reflexão legítima mas nunca linear. Se em 19Q4, Haruki Murakami se debruça sobre uma poderosa assassina em nome do bem ou em Death Note o personagem de anime acha-se com autoridade de condenar com pena de morte quem bem entende, a questão surge mais uma vez neste livro de Minato. Ao referir-se ao caso de uma criança que matara os pais com veneno, a professora protagonista reflete “Lembro-me de pensar então que não seria necessário um julgamento num caso daqueles. As pessoas que mais sofrem teriam o direito de julgar os que os magoaram (…) só seria preciso julgamento quando não restasse ninguém”. 

O livro procura explorar o conceito de justiça popular através de uma reflexão sobre os motivos que conduzem as suas personagens ao ato criminoso. 



Na sociedade portuguesa é recorrente a conversa de café que faz a apologia da pena capital nos casos que mexem com a opinião pública.  Esse instinto de justiça pelas próprias mãos é um conceito primitivo que não cabe num estado de direito democrático por mais tentador que seja.

A faceta típica de sociedade japonesa – as aparências e a importância do prestígio, a importância da ordem aparente – é bastante explorada na personagem do Naoki Shitamura e na sua mãe que não quer que o filho se torne naquilo a que os japoneses chamam de Hikikomori引き篭 - um termo que só existe em japonês e que designa um comportamento de isolamento extremo. Mesmo que os motivos para esse comportamento sejam um profundo trauma por uma experiência que destrói a sanidade mental do filho – “o importante é não pensarem que o meu filho é um Hikikomori” alega a personagem.

Dentro do ambiente obscuro e perturbador do livro há imagens fabulosas como o momento em que a criança que pensa ter sido infetada com sida pela professora – que lhe teria colocado sangue infetado no leite - decide cortar as mãos e ir ao supermercado marcar todos os produtos com sangue.
Num país onde os níveis de criminalidade são relativamente reduzidos, é coerente que “as pessoas tenham uma aversão instintiva ao assassinato” e “num país como o Japão, onde a religião não conta grande coisa, suspeito que a maioria das pessoas tenha sido ensinada a valorizar a vida, acima de tudo, contudo, a maioria dessas pessoas apoiam a pena de morte no caso de crimes particularmente brutais, sem se darem conta da inconsistência da sua posição” reflete a criança génio da história. (pág. 166)


“Confissões” sai no Verão e pode ser lido em algumas horas na praia mas não promete relaxamento de férias, porque o seu efeito é o de uma ansiedade pulsante que quebra certos estigmas que ainda existem na nossa ficção – como o de crianças assassinas, o mesmo tópico da obra mais conhecida de Yukio Mishima.

“O que será que as pessoas querem realmente saber acerca de um criminoso? As suas origens ou os seus problemas psicológicos ocultos? Ou talvez os seus motivos para cometer um crime?” pag.164


Sara F. Costa


18.2.16

Tokyo Vice de Jake Adelstein


Jake Adelstein é o Gaijin que muitos de nós gostariam de ser. O geek ocidental que vai para a Sophia University estudar literatura e que acaba por dominar a língua japonesa de tal forma que é convidado a trabalhar num dos mais emblemáticos jornais nacionais do Japão, o Yomiuri Shinbun. Todos sabemos que ler jornais é o último bastião do conhecimento da língua japonesa e o Jake não se limita a ler, ele próprio redige os artigos, vénia lhe seja feita. A particularidade da história de vida deste judeu americano é que ele acaba por cobrir todo o departamento de jornalismo criminal e entrar em contacto visceral com o submundo tokyohita, tratando por tu personagens do meio mediático Yakuza como, por exemplo, Tadamasa Goto.


Nesta jornada pelo submundo, Jake descreve-nos a sociedade que idolatra a sua máfia através de banda desenhada e de revistas cor-de-rosa como se de anti-heróis ficcionais se tratassem. Esta sinistra convivência leva-o a compreender que no início deste século o crime organizado no Japão se sofisticou. Onde antes só se encontrava tráfico de droga e de prostitutas, hoje encontram-se as empresas de Loan Sharking. Os Yakuza são os maiores detentores e maiores vendedores de produto imobiliário no Japão. Estando presentes em todos os sectores da atividade económica, estes grupos têm representação política através do principal partido do parlamento japonês, o LDP (Liberation Democratic Party). Sabe-se que um ex-primeiro-ministro era membro do mais poderoso grupo de Yakuza do Japão, os Yamaguchi-gumi. Sabe-se também que um antigo Ministro da Justiça era membro do gang Inagawa-kai, cujos escritórios se encontram todos visíveis em frente ao Ritz-Carlton. E quando um ministro da justiça é ele próprio um mafioso, podemos imaginar como anda o estado de lei japonês no que diz respeito ao fenómeno do crime organizado.



Viver por dentro o universo underground japonês teria que ficar registado nas suas memórias e é compreensível que Jake se tenha dedicado a relatar os acontecimentos mais emocionantes que atravessou enquanto jornalista do departamento criminal do Yomiuri. O seu ritual noturno passado a vaguear pelas ruas de Shinjuku e de Roppongi são em Tokyo Vice janelas de uma curiosidade sádica e lasciva por onde todos queremos espreitar:

“As far as entertainment districts went, in 1999 nothing beat Kabukicho for pure sleaze. Drugs, prostitution, sexual slavery, rip-off bars, dating clubs, massage parlors, S-and-M parlors, pornography shops and porn producers, high-dollar hostess clubs, low-dollar blow job salons, more than a hundred different yakuza factions, the Chinese mafia, gay prostitute bars, sex clubs, female junior high school students’ soiled uniforms/panties resale shops, and a population of workers more ethnically diverse than anywhere else in Japan. It was like a foreign country in the middle of Tokyo.” (pág. 160)

 Quando o americano decide meter o nariz nas totalmente legais criminalidades yakuza recebe rapidamente as boas-vindas:  “Either erase the story, or we’ll erase you. And maybe your family. But we’ll do them first, so you learn your lesson before you die” lê-se no prelúdio do livro.



Foi um amigo que me sugeriu este livro quando estava a tirar o seu doutoramento e a escrever uma tese sobre crime organizado na China e no Japão. É sem dúvida um excelente manual de apresentação ao submundo japonês da mesma forma que é um excelente manual de introdução ao jornalismo no Japão, aos seus mecanismos, assim como à forma como os japoneses ‘trabalham’ – tudo aquilo que sabemos desde organização vertical à existência da palavra Karōshi (過労死) que se pode traduzir por ‘morrer por excesso de trabalho’.

Jake Adelstein não se assume como escritor mas este livro tem momentos romanescos, desde descrições das suas aventuras sexuais às reflexões sobre a mais solitária sociedade do mundo:

“You can look at Kabukicho as an example of the sociopathology of Japanese life. Host and hostess clubs are probably the most misunderstood aspects of Japan’s adult entertainment industry. They’re not about sex, they’re about the illusion of intimacy (…) intimacy is a commodity in Japan.”. (pág. 181)

Tokyo Vice é um livro editado pela Constable & Robinson Ltd em 2010. Em 2013 o autor refere que: "The book is translated into Japanese but no publisher will touch it. It steps on too many toes.”

A tradução para português também ainda não existe. 

Jake Adelstein é de momento um repórter no Departamento de Estado Norte-americano onde investiga o tráfico humano no Japão.

Tokyo Vice está neste momento a ser adaptado para cinema com Daniel Radcliffe no papel de Jake.


Sara F. Costa

7.9.15

Manazuru - Hiromi Kawakami



"A narrativa apresenta-se como uma história inocente e límpida, mas sem que saibamos onde nos leva. E, na sombra de certas passagens dir-se-ia que descobrimos qualquer coisa." Seiji em relação ao romance de Kei


Passaram doze anos desde que Kei vira o marido pela última vez. Rei desaparecera sem dar sinal, deixando para trás uma filha de 3 anos, a esposa e a sogra. Como antítese do marido desaparecido surge Seiji, um pai de família com quem Kei mantém um relacionamento amoroso, supostamente marginal mas perfeitamente natural no enquadramento da narrativa. Em Tóquio, Kei não consegue aceder com exatidão à sua própria memória, só quando se encontra a sós em Manazuru adquire os meios para comunicar com o passado. Passado esse que não se apresenta linear mas antes com várias bifurcações.

Há na escrita de Hiromi Kawakami uma prosa elegíaca, polvilhada por pontos de tensão e de alívio. Pode dizer-se que todo o livro é uma viagem tortuosa a um passado tão volátil como o mar de Manazuru, onde a personagem encontra um refúgio. Um asilo estirado entre a relação que estabelece com espectros que a perseguem, mas que nunca se tornam atividade central do relato, e a indagação das motivações que levaram um homem naturalmente inacessível a perder-se para sempre. É um enquadramento clássico do espírito na mitologia japonesa. Não existe a assimilação conceptual do fantasma enquanto elemento de perigo. O fantasma é uma extensão da perscrutação da psique de Kei.

Se, por um lado, o livro nos fala da relação entre as três mulheres de três gerações diferentes e enfatiza a dificuldade da mãe ao lidar com a sua filha adolescente, muitas vezes tenaz e irascível, por outro faz-nos compreender que essa dificuldade é momentânea e que pertence à realidade da mesma forma que o arroz glutinado pertence ao mochi. A relação de Kei com os homens é conflituosa e representa, em última análise, solidão.

 O desaparecimento misterioso de Rei é várias vezes reinterpretado e sugerido. Um sonho em que naugrafa num barco em chamas? Um sonho em que Kei o asfixiou até à morte? Os espíritos sabem onde ele está? O pai e a irmã decidem considera-lo morto e Kei trata do óbito.

Como em grande parte da literatura japonesa, o invólucro descritivo e límpido da prosa imprime arguciosamente camadas de significação à narrativa. Podemos definir este livro como um thriller psicológico repleto de uma lenta, amena melancolia. Podemos encará-lo como uma reflexão sobre o papel de género na sociedade japonesa contemporânea ou uma meditação sobre a relação complexa entre uma mãe e uma filha. Ou podemos simplesmente deixar-nos levar por uma história que acaba tão inexplicável como começa. Desprendendo-nos do impulso da lógica e provavelmente das referências culturais que nos levam a decifrar a racionalidade por detrás de todos os acontecimentos, talvez ao ler Kawakami o melhor seja deixarmo-nos levar por sensações e estados de espírito numa expedição ao âmago da memória em constante mutação. 

Hiromi kawakami (1958) é uma tokyohita traduzida e publicada em Portugal pela Relógio D’água em 2012 com as obras “Manazuru” e “Os Anos Doces”.


Sara F. Costa

28.1.15

Kenzaburo Oe: “As regras do tagame”





Torika ko 取替え子-, em inglês “Changeling”, em Portugal “As regras do tagame”. Esta obra autobiográfica e cheia de reflexões sobre a arte e as memórias é um livro de Kenzaburo Oe. Conhecida é a história do cunhado do autor, Juzo Itami que se suicidou em 1997, saltando de um edifício. Este suicídio, talvez como qualquer suicídio mais ou menos evidente, adquiriu contornos misteriosos. Dentro das teses mais recorrentes encontra-se a seguinte; Itami fora forçado a suicidar-se devido a um filme em que denuncia membros dos Yakuza. Uma segunda hipótese estaria relacionada com os tabloides, aqueles que o perseguiram insistentemente com histórias de relações extraconjugais.

Ambas as teses discorrem ao longo das páginas desta obra de Oe. As Regras do Tagame pertencem a uma trilogia ainda não completamente traduzida nem para inglês nem para Português mas cujos títulos em inglês seriam “The Boy With a Melancholy Face’’ (2002) and “Farewell to My Books!’’ (2005).

“Tagame” é o nome dos auscultadores que Kogito dizia parecerem-se a escaravelhos de água dos riachos de Shikoku (tagame). Através destes auscultadores, Kogito pode manter conversas com Goro, uma vez que este lhe deixa uma pilha de cassetes com os seus pensamentos de modo a manter com o amigo uma conversa à distância. A distância essa, Kogito não suspeitava, poderia ser a da própria morte.

O mundo da fama, neste caso debruçando-se sobre Kogito, um escritor consagrado e a sua relação com o cunhado Goro, um realizador consagrado (clara alusão à sua relação biográfica com o cunhado). Explora bastante os meandros do mundo da competição artística, da promoção e da megalomania de se superarem continuamente uns aos outros como forma de afirmação. Numa das passagens do livro um desses realizadores que tinham Goro como ódio pessoal escreve “Quando Goro estava a olhar para o solo, do cimo daquele edifício, talvez o meu prémio lhe tenha dado um empurrãozinho ligeiro”. A cobertura televisiva e o universo tabloide é aqui dissecado pela personagem principal, uma vez que há grandes possibilidades de ter sido todo esse burburinho mediático o responsável pelo esgotamento do realizador.



Outra referência biográfica, sempre presente na literatura de Kenzaburo Oe é o filho deficiente, Hikari, que nasceu com uma hérnia no crânio e cuja vida só poderia ser salva com uma operação que lhe causasse danos mentais permanentes.
Para além do traço autobiográfico e de toda a interpretação que podemos fazer face à vida do autor, o conceito de Tagame é para mim um conceito extremamente profundo. A personagem principal consegue comunicar com alguém que já não existe neste mundo. Todas as noites, depois da morte de Goro, Kogito obsessivamente mantém diálogos semi-imaginários com o amigo através do Tagame. Trabalha de dia e tem uma vida noturna em que fica até de madrugada a falar com o fantasma do amigo. Esta situação começa a ser perturbadora para a mulher e filho e lança o escritor a aceitar uma proposta de trabalho em Berlim, para se afastar um pouco de tudo aquilo que no seu dia-a-dia o lembrava do companheiro falecido e do próprio Tagame. Um conceito assim – a tecnologia ao serviço do espiritismo (ou espiritualidade, dependendo do posicionamento de análise) – é tão intrinsecamente japonês que me lembra imediatamente animes como Serial Experiments Lain, a menina que enviava emails depois de se suicidar e que continuava a existir num mundo digital paralelo.
O livro imerge-se nesta conceção do espírito enquanto morada eterna do ser. Esta abordagem é reforçada num pequeno episódio em que a mãe de Kogito lhe explica que fala com ele quando o vê na televisão “Tudo parecem aparições. Falo sozinha e falo contigo quando estás na televisão.” Também um traço marcante da literatura e arte japonesa desde Genji  Monogatari, a noção de espectro, espírito, aparição volátil enquanto transportador da essência de uma pessoa, independente do corpo.
As conversas através do Tagame e as próprias memórias do escritor são coisas que no livro se misturam e se tornam num grande diálogo entre este e o seu amigo suicidário. Conta-nos as suas memórias de conversas sobre a morte, o conceito de corpo e de espírito, a sua separação. As “conversas com palavras rebuscadas” em que na adolescência discorriam sobre estes tópicos metafísicos e simultaneamente existencialistas.
“Não estaria Goro, ao decidir morrer de livre e espontânea vontade a identificar-se com aqueles que se empenham na descoberta de uma claridade divina?” pág. 31.




Algo que me cativou particularmente nesta leitura foi o facto de Kogito – neste caso, a personagem que incorpora o retrato do autor – mencionar a poesia francesa como ponto de referência para a sua obra literária. Noutras obras poderia pensar-se em Kenzaburo Oe mais relacionado com autores como Blake, Yeats ou Eliot (as suas influências assumidas). Mas aqui, a existência do espírito artístico do escritor potente passa para uma fase de revisão da sua criação, como a menção aos poemas de Rimbaud traduzidos para o japonês por Hideo Kobayashi. Goro despede-se com o poema “Adieu” de Un saison en enfer. Como grande fã desde adolescência dos simbolistas franceses este é para mim um ponto de identificação maior com a literatura japonesa contemporânea do que com a literatura americana de início do século XX que costuma ser a grande influência destes autores. Digamos que este livro tem uma viragem mais europeia nos seus conteúdos e referências.

A cassete do tagame foca um incidente em 1952, quando Goro e Kogito, enquanto adolescentes são cativados por um líder ultranacionalista marginal cujo plano passa por uma insurreição simbólica contra a ocupação americana. Mais tarde Goro e Kogito são confrontados com uma proposta concreta de um soldado americano pró-japão em encontrar armas e tentar um golpe de estado. Não consigo evitar de recordar Yukio Mishima.  A posição da personagem assim como a do autor são evasivas, embora este tipo de contextualização política seja recorrente ao longo do livro. Em última análise, o autor reconhece que a maturidade da arte passa pela perda da inocência.

Não me parece que seja um livro com uma conclusão clara, mas antes um livro com o qual se pode meditar sobre inúmeros temas, alguns universais e outros mais intrinsecamente japoneses para os quais um conhecimento mais profundo da realidade sociopolítica e da história recente do Japão se demonstram necessários.

Algumas passagens sobre o funcionamento dos Yakuza foram apontados pela crítica como demasiado gráficas. Penso que não foi parte de um plano estilístico pensado mas numa declaração sincera de questionar o seu próprio estilo.

Com o passar do tempo e da idade é comum encontrarmos os autores a deambularem sobre o que é ou não moral, a darem sugestões e ensinamentos. Em Oe esse tipo de pensamento afasta-se do seu ego e transforma-se num silêncio poético rambaudiano. Há sem dúvida um tom de questionamento sobre a sua produção e o caminho que escolheu enquanto artista e autor. O que é certo é que qualquer outro caminho seria igualmente questionável, na vida ou na arte. O silêncio que Rimbaud conseguiu tão jovem pode ser a resposta a uma vida repleta de procuras infindáveis.   


Sara F. Costa

9.10.14

“A Peregrinação do Rapaz sem Cor” de Haruki Murakami



Resumo: Nos seus dias de adolescente, Tsukuru Tazaki gostava de ir sentar-se nas estações a ver passar os comboios. Agora, com 36 anos feitos, é engenheiro de profissão e projeta estações, mas nunca perdeu o hábito de ver chegar e partir os comboios. Lá está ele na estação central de Shinjuku, ao que dizem «a mais movimentada do mundo», incapaz de despregar os olhos daquele mar selvagem e turbulento «que nenhum profeta, por mais poderoso, seria capaz de dividir em dois». Leva uma existência pacífica, que talvez peque por ser demasiado solitária, para não dizer insípida, a condizer com a ausência de cor que caracteriza o seu nome. A entrada em cena de Sara, com o vestido verde-hortelã e os seus olhos brilhantes de curiosidade, vem mudar muita coisa na vida de Tsukuru. Acima de tudo, traz a lume uma história trágica, que a memória teima em não esquecer. Os quatro amigos de liceu, donos de personalidades diferentes e nomes coloridos, cortaram relações com ele sem lhe dar qualquer explicação. Profundamente ferido nos seus sentimentos, Tsukuru perdeu o gosto pela vida e esteve a um passo da morte. A páginas tantas, lá conseguiu não perder a carruagem. Com "Os Anos de Peregrinação" de Liszt nos ouvidos, regressa à cidade que o viu nascer e atravessa meio mundo, viajando até à Finlândia, em busca da amizade perdida. E de respostas para as perguntas que andam às voltas na sua cabeça e lhe queimam a língua. Será que o rapaz sem cor vai ser capaz de seguir em frente? Arranjará finalmente coragem para declarar de vez o seu amor por Sara? Uma inesquecível viagem pelo universo fascinante deste escritor japonês que chega a milhões de leitores espalhados pelo mundo inteiro. Um romance marcadamente intimista sobre a amizade, o amor e a solidão dos que ainda não encontraram o seu lugar no mundo.

Crítica:
Ontem à noite, a umas cinquenta páginas do fim de “A Peregrinação do Rapaz sem Cor” ou em inglês “Colorless Tsukuru Tazaki and His Years of Pilgrimage” ( dou a versão inglesa porque Murakami gosta sempre mais da tradução para inglês dos seus livros) pensei: vou ouvir "Le mal du pays" de Lizt e tentar mergulhar completamente no universo que o autor quer eu mergulhe. Às vezes os livros trazem certos apontamentos que funcionam como manuais de instrução. Se a música está presente sessenta vezes durante o livro, é porque é suposto eu ir ouvi-la. Mais raro é eu gostar realmente muito que me deem instruções.

 Seja em livros, seja em filmes, seja em qualquer género de ficção que quiserem, é muito irritante que quem os crie seja condescendente ao ponto de dar indicações à audiência, explícitas e claras – não me parecem dar muito crédito ao meu sentido interpretativo. Contudo, não pego muito na música clássica mas sei que Murakami pega sempre em música clássica, faço-lhe a vontade e honestamente sinto que a peça dá corpo à narração em muitos aspetos. 

 Mas é Murakami. Para quem já leu as minhas críticas no passado aos livros do autor sabe que costumo tocar sempre nos aspetos que me desapontam. E continuo a ler (embora não tenha conseguido avançar com o segundo 1Q84, não lhe consegui dar crédito). Mas é uma leitura tão light que fica em poucas horas feita e este livro foi tão falado porque toda a gente estava um pouco ávida por mais uma obra do autor best-selling e eu pensei “claro que tem que estar no bungaku”. A popularidade de Murakami só no Japão é francamente impressionante e de todos os autores apontados para Nobel da Literatura, Murakami seria o único para quem o prémio da condecoração em dinheiro, não fizesse a mínima diferença à sua já larga fortuna. 


 Dito isto, passo a enumerar as coisas das quais eu me costumo queixar em H. Murakami: redundâncias; explicação das explicações; excesso de realidades paralelas sem consequência; excesso de realidades paralelas que recorrem a sonhos e que mais uma vez não têm consequência (funcionava bem em duas ou três obras, máximo!); story arcs que não fecham; sexismo; pormenores sexuais aleatórios (gratuitos?). Aponto isto tudo a este último livro. Acrescento que tocou um conteúdo que me incomodou, que é a falsa acusação de violação, ao estilo “Gone Girl”, banalizando a falsa acusação de violação que é bem menos recorrente e verosímil do que o que possa parecer na nossa ficção de ultimamente. 

 A metáfora das cores e dos nomes, Tsukuru que é o verbo “fazer”, há reflexões interessantes sobre o tema das estações de comboio, sobre as cidades, sobre a mágoa e o passado. Uma sátira interessante à estrutura empresarial japonesa com a personagem de Ao. As referências à música clássica são enquadradas e devo dizer que apesar de tudo o que está escrito anteriormente: ontem à noite, a cinquenta páginas do fim, eu tinha a esperança de vir a gostar muito mais do livro. Eu reescrevia esta história tal como está com um fim que podia ser deixado aberto a interpretações sem perder um sentido, uma orientação. 

Não pode ficar tudo sem consequências, constantemente. Se a personagem principal não se tivesse revelado exatamente igual ao que sempre foi, talvez Tsukuru Tazaki pudesse ter, por fim, a cor pela qual tanto ansiava.

 O livro entra em áreas absolutamente obscuras da psicologia erótica incluindo sonhos com violações, bissexualidade inconsciente e necrofilia mental acidental e considero esta abordagem um dos pontos de interesse do livro, apenas demasiado ornamental.

 É absolutamente caótico entrar pelas histórias de Murakami e acho que é esse caos que nos vicia. Só que não é por baralhar completamente o leitor que um mau livro passa a ser bom.


Sara F. Costa

20.6.14

Out – Uma Saída :: Natsuo Kirino




      A “Saída” de Natsuo Kirino é uma história profusa de contornos obscuros. Como em tantos géneros artísticos da produção japonesa, não é um livro que possa ler para descontrair pacificamente, não é daqueles aconselháveis a ler antes de dormir. Isto é, a menos que o leitor esteja confortável ao ler descrições de violência doméstica, sexual assim como descrições de decomposição de corpos que, apesar de se apresentarem com uma nota de pragmatismo como descreve Masako “um trabalho que tem que ser feito”, não deixa ainda assim de projetar na imaginação do leitor uma série de imagens, no mínimo, grotescas. Eu pessoalmente tive pesadelos quando peguei no livro e li uma larga fatia num curto espaço de tempo. Já ouvi relatos de pessoas que se sentiram fisicamente indispostas. Eu sei que o gore nos media é mais que presente nos dias que correm, mas não devemos subestimar o impacto da nossa imaginação aquando de tais descrições.  
  

              Este livro é uma espécie de Sex and City macabro já que seguimos as peripécias de quatro colegas, mas não se espere um glamour meloso e uma amizade saída de um conto de fadas. Neste livro seguimos o trajeto de mulheres unidas pelo seu trabalho de produção em linha numa fábrica de comida pré-feita durante um turno da noite. Interessante a referência aos brasileiros que com elas trabalham – este grupo de brasileiros descendentes de japoneses que procuram no Japão uma alternativa à falta de mobilidade social no Brasil. Têm a possibilidade de imigrar, passando lá o tempo que quiserem sem qualquer visto (situação rara já que o Japão controla rigorosamente as suas fronteiras). Entre os japoneses com o seu conservadorismo “pré-guerra” que procuraram fortuna a trabalha nas quintas brasileiras, há aqueles de um Japão moderno liberal que preferem regressar, muitas vezes já na segunda geração. Estes gaijin brasileiros são representados no livro com hostilidade: homens altos e fortes que no ambiente do livro parecem assustadores, para além de um caso particular de um homem de origem brasileira que é um sex ofender que persegue as mulheres da fábrica. Logo se apercebeu que “a terra dos seus antepassados não prestava muita atenção ao facto de que o seu sangue lhe corria nas veias (…) no aeroporto, nas ruas, ele sabia que era visto como um gaijin e isso magoo-o”. Uma expressão da dificuldade de integração na sociedade fechada que é a japonesa.



                Tudo contribui para a construção do cenário negro que serve de fundo ao longo das páginas, só como um autor japonês o poderia descrever: morte, ódio, matança e algum amor (num sentido muito próprio). Entre as mulheres que vivem sem exceção com graves dificuldades financeiras, um trabalho que lhes desregula o descanso e a sanidade física e mental, todas parecem presas a casamentos disfuncionais com homens detestáveis, preguiçosos ou distantes.


   A forma como se tornam íntimas não passa por falar em aventuras sexuais com milionários mas antes porque precisam todas de dinheiro e compram o silêncio e o trabalho uma das outras, sobretudo aquando do principal story arc que envolve o assassinato de um dos maridos, todas as diferentes mulheres com diferentes personalidade se unem não em torno de sentimentos de compaixão mas por puro pragmatismo. (É quando vejo que a minha comparação com sex and the city é despropositada, mas acho que seria um enredo fabuloso seguir o mesmo tipo de story line de sex and the city aplicando-lhe um lado violentamente realista,  de vidas realistas)  Apesar da empatia que se cria com as peripécias mais negras, não considero que o leitor se reveja em nenhuma das personagens. Há um gradual reenforço das relações interpessoais entre as personagens. No entanto, este não é um livro sobre amizade, mas antes um livro sobre desespero. Macabro, grotesco, com um lado vigorosamente feminista, que expõe pobreza, miséria, na sua maior parte não intencional mas também intencional (como na personagem de Kuniko). Nenhuma das mulheres se sente realizada a nenhum nível da sua vida, nem mesmo perante a morte.



Depois do primeiro homicídio e do segredo aparente em que se conseguira tornar, na segunda metade do livro Masako e as colegas encontram no crime uma oportunidade de negócio. Uma saída para todos os seus problemas. Contudo, cortar humanos em pedaços e espalhá-los no lixo não poderia ser um negócio sustentável.
Perturbador como se pretende, leva o leitor a criar empatia com uma sequência de crimes.


A prosa tem um ritmo apertado, tenso e constante, nunca com pressa para entregar respostas, o que alimenta o suspense, entretendo e cativando.


É o retrato ácido pouco glamoroso de uma sociedade mecanizada e complexa no seu caos tão aparentemente organizado, passo o paradoxo. Explora o lado dos empobrecidos, marginalizados numa sociedade de economia aparentemente pujante: o racismo nas prostitutas chinesas, nos brasileiros; o sexismo – as mulheres como cidadãs de segunda classe; e, claro, a subjacente miséria retratada das classes ostracizadas. As mulheres reféns da sua pobreza e do desprezo dos outros como Yoshi, os gananciosos, consumidores superficiais como Kuniko, a inteligente, trabalhadora mas discriminada e mal paga "menina de escritório", como Masako as mulheres vítimas de violência doméstica, como Yayoi. Todas à procura de uma saída que se revela um beco sanguinário que “reduz um humano a um objeto como outro objeto qualquer”.  De lembrar que o Japão é um país onde as estruturas tecnológicas e o mundo de aparências nas grandes metrópoles como Tokyo aparentam uma certa modernização de pensamento mas a não esquecer que os tradicionalismos e as mentalidades de um passado recente continuam infiltradas na sociedade, sobretudo no que toca às questões de género. A personagem principal, Masako, é uma mulher de meia-idade que se ancora a um encobrimento de um homicídio. O livro transmite a perceção criada sobre uma mulher inteligente, forte e pragmática como uma mulher que assusta. Esta experiência empurra-a ainda mais para a marginalização social. Acaba por ter um efeito em Satake, o yakuza com um passado de assassínio bruto.


    O culminar do enredo é obviamente um clímax não revelável aqui na crítica ao livro, mas posso dizer que é tão bizarro como a restante leitura. No www.goodreads.com o livro está classificado em Literatura japonesa mas também na categoria d’ “Os mais perturbadores livros alguma vez escritos”, ao lado de “American Psycho”, “Lord of the Flies”, “1984” e “A Clockwork Orange”.






Natsuo Kirino  (桐野 夏) nasceu a 7 de Outubro de 1951 em Kanazawa, Perfeitura de Ishikawa.  Licenciada pela Universidade de Seikei, vive em Tokyo e pertence a um grupo cada vez mais acentuado de escritoras japonesas no género policial. A sua prosa tende a concentrar-se na psicologia criminal. Conhecida pelos seus contos pouco traduzidos, popularizou-se em 1997 com “Out”, tenho obtido com este livro vários prémios literários de grande prestígio no Japão tais como o “Mystery Writers of Japan Award”. O seu romance de lançamento  “Kao ni Furikakaru Ame” (A chuva que me cai na face) ganha em 1993 o  Edogawa Rampo Award. Em Portugal possuímos apenas esta edição. No entanto, "Grotesque", "Real World", e "The Goddess Chronicle" encontram-se já traduzidos para inglês.




Sara F. Costa

1.3.12

Kojiki - A tradução continua! [Capítulo 1 - 2]

Muitos anos passaram desde a minha primeira tentativa de tradução do Kojiki para o Bungakuu. Consciente do sucesso da tradução resolvi continuar o processo esperando proximamente publicar a tradução completa. Depois de olhar para a minha primeira contribuição apercebi-me que tinha dado na altura poucos elementos sobre a “origem” dessa tradução francesa. Como nunca é tarde demais, o texto original dessa tradução foi escrita por um francês anónimo que publicou no seu website enciclopédico http://japonline.free.fr/Encyclo-accueil.htm uma versão resumida do Kojiki em flash. Apesar de alguns defeitos de escrita e de uma ocultação excessiva de algumas partes da narração julgo que essa retransmissão do livro é suficientemente elucidativa e simplificada para transmitir o conteúdo da obra de forma eficiente e moderna. Em algumas circunstâncias a fonetização das palavras japonesas poderá fugir dos critérios escritos que cada um de nós utiliza individualmente. Peço como tal alguma tolerância para com essa transcrição. Por outro lado tentei desta vez inserir o meu cunho pessoal com mais insistência para compensar aquilo que considero os pontos fracos do texto aqui traduzido. Considero que o resumo aqui publicado é suficientemente abrangente para transcrever as subtilezas que fornecerão elementos de reflexão sobre a cultura japonesa e a sua ligação à obra. Para acompanhar o texto resolvi também integrar imagens que ajudarão certamente a uma melhor visualização do universo por vezes muito abstracto dos kamis japoneses.
Continuação do capítulo 1
A multiplicação dos Kamis na Terra.
Os dois recém-casados não se ficaram por aqui. Deram nascença a todos os Kamis que se encontram agora na Terra: Kami das árvores, das montanhas, das pedras, das plantas e das flores, dos mares, dos lagos e dos rios.
O seu primeiro filho foi Owatatsumi o senhor dos oceanos. Depois, Izanami deu nascença a Kamihaya Akitsu Hiko que controla as terras e Haya Akitsu Hime que controla a superfície do mar. Múltiplos Kamis surgiram pouco depois.
Izanami deu então nascença ao Kami do fogo, Kagutsuchi no Kami. O parto acaba porém tragicamente: Izanami morre queimada pela incandescência da sua progenitura.
Antes de morrer, da sua boca surgem Kanayama biko e Kanayama hime, os deuses do metal,  assim como Haniyasu hiko e Haniyasu hime, deuses da terra.
Izanami juntou-se ao Reino das Sombras. Assim nasceu, pela primeira vez, a morte e as suas consequências: a decomposição e o luto.
Enraivecido, Izanagi decapita o recém-nascido com a sua espada Totsuka no Tsurugi. Do sangue de Kagutsuchi nascem novos kamis para cada gota derramada.
Izanagi tinha perdido o gosto de viver. Sem a sua esposa a vida já não fazia sentido. Resolveu então ir à sua procura. Afinal de contas, ele sempre era um deus.

Questionou todos os homens e animais que cruzava no seu caminho se esses conheciam algum meio para encontrar a sua falecida esposa. Uma serpente indicou-lhe o caminho, a entrada para o Inferno (Yomi) situada na província de Izumo.
À medida que Izanagi penetrava nas trevas do inferno a luz desaparecia. Ouviu gritos e gemidos que teriam aterrorizado qualquer homem mas a sua determinação era imutável. Caminhou muito tempo na obscuridade absoluta. Enquanto o desespero se apoderava do seu coração, Izanagi ouviu finalmente a voz da sua amada.
Não a pode ver, mas consegue ouvir a sua voz distintamente. Izanami está feliz por ver o seu esposo ter iniciado tão grande caminhada para se juntar a ela.
-“Vim para te levar comigo”
Era porém tarde demais pois Izanami já tinha comido os alimentos do Reino das Sombras o que tornava impossível o seu regresso à superfície.
-“Vou ainda assim suplicar os deuses deste Reino para que esses me permitam regressar contigo!” disse. “Espera por mim aqui o tempo necessário, promete não seguir-me e que não saíras daqui!”.
Izanagi assim prometeu…

Capítulo 2
 E assim aguardou até que a espera se tornou insustentável. Impaciente, resolveu quebrar a promessa. Caminhou outra vez na escuridão. Parecia-lhe ouvir a voz da sua esposa implorar-lhe para que não continuasse mas a tentação era demasiado forte, ele tinha que a ver nem que por um breve instante.
Aproximou-se de Izanami enquanto essa lhe implorava para ele ir embora. Retirou um dos dentes do seu pente para fazer uma tocha. Através da clareza, viu por um instante a beleza intacta de Inazami decompor-se e apodrecer perante os seus olhos. A sua carne era devorada pelos vermes.
Aterrorizado, Izanagi resolveu fugir do inferno. Demónios corriam atrás dele enquanto a sua esposa gritava “Traidor! Quebraste a tua promessa!”. Os próprios guardiões do inferno perseguiam-no.
Uma vez fora Izanagi pegou imediatamente num rochedo para selar a porta do inferno. 
O nascimento de Susano-o e Amaterasu
Izanagi errou até à ilha de Kyushu. Próximo do Rio das Laranjeiras, ficou fascinado pela clareza da água. A pureza do rio poderia lavar-lhe dos seus males e ajudar -lhe esquecer os seus problemas.
Retirou a sua roupa e tomou banho. 14 Abluções precisamente.
Vinte e seis novos Kamis nasceram deste banho, uns da sua roupa outros das partes do corpo que ele limpou.
Ao limpar o seu olho direito deu nascença a Tsukiyomi, o kami da Lua. Do seu nariz nasceu Susano-o, o kami impetuoso das tormentas. Finalmente, do seu olho esquerdo nasceu Amaterasu, a kami do sol. Desde esse momento a vida seria dividida entre noite e dia.
Izanagi, fascinado pela beleza de Amaterasu, pediu-lhe para essa erguer-se e iluminar o céu para o bem de todos.


 Por outro lado o seu irmão Susano-o era muito mais inclinado para actos violentos. Constantemente agressivo, procurando sempre criar o caos à sua volta, a sua passagem pelos mares, o seu reino, provoca terríveis tempestades. A sua imprevisibilidade oscilava entre a letargia de uma brisa e a fúria de um tufão.  
Provocar inundações, destruir diques, arrozais, navios, tudo não passavam aos seus olhos de brincadeiras feitas aos seres humanos.



A ira de Amaterasu
Susano-o era também capaz de afecto… Mas apenas para a sua irmã Amaterasu. Um dia resolveu visitá-la no céu.
Os kamis que moravam na via láctea, assustados pela perspectiva de serem visitados por um  kami tão turbulento, visitaram Amaterasu e pediram-lhe para essa livrar-se do seu irmão. Os kamis conheciam bem Susano-o e os seus frequentes estragos que eles tinham que resolver. Por outro lado Amaterasu também não apreciava muito o seu irmão que ela considerava brutal e grosseiro.
A Kami do Sol pegou no seu arco divino de madeira lacrada vermelha e de duas aljavas recheadas de flechas. Colocou-se em posição frente à porta do Reino Divino com a firma intenção de impedir a ascensão de Susano-o.   
Um rio separa o Reino da Terra e o Reino dos Deuses e no qual um arco-íris faz ofício de ponte. Susano-o parou na margem oposta ao Reino dos Deuses. Muito educado, cumprimentou a sua irmã que se encontrava na outra margem.  Amaterasu perguntou-lhe o que ele vinha fazer e quais eram as suas intenções.
O Kami da tempestade respondeu com sinceridade que apenas vinha para a visitar. Começou a rir de forma tonitruante e ensurdecedora.
 Surpreendido com a frieza de Amaterasu, pediu-lhe para ambos quebrarem as suas armas em sinal de boa fé.
Susano-o entregou-lhe a sua espada que ela quebrou em 3 pedaços.
Amaterasu entregou-lhe o seu arco e flechas que ele igualmente quebrou.
Os dois irmãos estavam finalmente juntos. Amaterasu não podia deixar porém de desconfiar do seu irmão. Ela dificilmente conseguia lidar com a sua rudeza e falta de educação. Infelizmente esse acabou por ser a causa de numerosos problemas e a sua presença no Reino Divino não foi tolerada por muito mais tempo.
Amaterasu acabaria por sofrer as consequências.
Das suas numerosas actividades, a costura era uma das preferidas de Amaterasu. Um dia, rodeada das suas serventes e em plena ocupação, o tecto abriu-se numa larga fissura. Os destroços caiam abundantemente enquanto as costureiras fugiam apavoradas. Um potro degolado caiu da fissura enquanto o terrível riso de Susano-o ecoava na sala. Estava muito satisfeito por ter pregado uma boa partida à sua irmã.



As vibrações do seu riso faziam cair cada vez mais destroços que feriam algumas serventes enquanto outras gritavam aterrorizadas pela visão do sangue do potro. Amaterasu estava também ferida no dedo. Enraivecida, encontrou-se com os outros kamis para exigir a expulsão de Susano-o. Os outros deuses demonstraram indiferença. Susano-o não lhes tinha feito nada e sendo ele um kami a sua presença era perfeitamente justificável. O seu irmão não era problema deles.
Amaterasu humilhada refugiou-se numa caverna selando a porta. Sem a sua presença o mundo entrou numa era de escuridão. Sem calor, apenas a luz das estrelas e do Kami da lua dissipavam parcialmente o escuro.
Os outros kamis começaram também eles a sofrer as piadas de mau gosto do Susano-o. Pouco tempo depois todos os kamis se juntaram para suplicar Amaterasu que essa regressasse e expulsasse o seu irmão. Com o orgulho ferido a kami do Sol não respondeu aos apelos.
O grande concelho dos kamis, composto pelos cinco primeiros casais, resolveu convocar todos os deuses. Milhões apresentaram-se perante o concelho.


 Ainda assim, apesar de reunidos, nenhum deles conseguiu encontrar uma ideia que conseguisse convencer Amaterasu. Omoikane, o kami “cheio de ideias”, propôs utilizar o canto dos galos para que esses invocassem a kami do Sol. Entusiasmados com a proposta, milhões de galos foram colocados em todos os toriis. Amaterasu manteve-se imperturbável e todos os kamis concluíram que os galos eram criaturas vaidosas por pensarem ser os responsáveis do surgimento do sol.
O kami cheio de ideias encontrou um novo estratagema. Amaterasu sendo uma mulher, esta seria inclinada para o ciúme e a inveja como qualquer outra mulher. Omoikane propôs então provocar o ciúme da Amaterasu. Todos os kamis concordaram com a proposta. Foram buscar uma árvore gigante que enfeitaram com pedras preciosas fabricadas por Tamanoya.
O kami que trabalhava na forja, Ishikori Dome, criou um espelho gigante com painéis de outro chamado Yata no kagami. O todo foi colocado frente à caverna onde se encontrava Amaterasu.
Os deuses encadearam milhares de luzes cuja luz se reflectia no espelho e nas jóias. Todos começaram a rir-se e a celebrar essa nova fonte de luz. Aclamavam essa nova divindade solar. Uzume, kami da dança, convidou todos os deuses para um baile histérico. 

Amaterasu sai da gruta surpreendida pelo barulho. Espreitou lá fora e apreciou o espectáculo. Amaterasu não tardou em ficar louca de inveja. Saiu da sua gruta para ver aquela que lhe estava a tirar o protagonismo.
 Enquanto se aproximava parecia-lhe ver a mais bela das mulheres até aperceber-se que não passava do seu próprio reflexo no gigantesco espelho Yata no kagami. Enganada, Amaterasu quis regressar para a sua caverna. Era sem contar com o kami poderoso Tajikarao que destruiu a entrada da gruta e selou-a com a corda Shirikumi. Foi nessa ocasião que nasceu a tradição das shimenawa.
Amaterasu sentia-se perdida e desapontada mas pouco depois apercebeu-se que todos precisavam dela. Feliz outra vez, a kami do Sol pegou no espelho Yata no kagami e nas jóias Magatama agradecendo a oferenda.


Matthieu Rego


12.12.11

1Q84


O primeiro volume de 1Q84 deixa-me com uma sensação que não é nova ao leitor de Murakami. A sensação de dispersão numa realidade com um sentido intrínseco demasiado próprio e no qual ninguém pode dar garantias de antever uma resolução simples. Chego ao fim do primeiro volume com muitas coisas sobre as quais pensar mas com poucas respostas concretas.
Passo a uma análise por etapas. Temos uma personagem feminina carismática e com uma personalidade forte, Aomame, uma instrutora de artes marciais que trabalha em nome de propósitos obscuros, sob as suas próprias leis e os seus entendimentos da realidade e da justiça. Leis que de tão próprias são efetivamente ilegais e correspondem a um código de valores considerados pelo autor como demasiado pessoais para serem previstos pela sociedade em geral. Este é um aspeto que me deixa logo um bocado boquiaberta. É um bocado excessivo entrar tão levemente por temas tão complexos e tão sensíveis. A justiça popular é um tema bastante apaixonante mas bastante questionável. A ideia era criar um sistema privado e ultrassecreto que trabalha em nome do bem por vias consideradas menos boas. Assim, nas primeiras páginas assistimos ao assassinato de um diretor de uma petrolífera que alegadamente cometera muitos crimes de natureza de violência doméstica contra a esposa. Ligado a este tema entramos em contacto com a história da amiga Tamaki, também brutalmente violentada física e psicologicamente pelo marido até ao ponto do suicídio. Depois ficamos a saber que a filha da anciã para a qual Aomame trabalha também se suicidou pelas mesmas circunstâncias. Partindo do princípio que a lei japonesa é fundamentalmente machista e discriminatória, estas mulheres decidem juntar-se para criar um sistema de vingança pessoal com propósitos mundiais. Os japoneses fantasiam muito sobre estas formas simplistas de modificar o mundo, faz-me lembrar conceitos como os de Death Note e coisas do género. A verdade é que podemos também encarar este livro como introdutório e não como perspetiva finalizada sobre algo. Uma pista para isso surge mais para o fim quando Aomame admite a possibilidade da anciã transportar uma certa “loucura” ou “preconceito” (pág. 356).

Paralelamente, e como não poderia deixar de ser nos livros de Murakami, temos um universo relatado à margem do de Aomame que é, neste caso, o universo de Tengo. A organização ultrassecreta contra a violência doméstica desenvolve-se ao lado de uma história nos bastidores de um universo editorial onde Tengo e o editor Komatsu decidem reescrever o livro da jovem Fuka-eri de forma a que este conquiste o prémio Akutagawa (o mais prestigiado do Japão). Durante um período há aqui o desenrolar de uma certa meta narrativa, estamos a ler algo que se debruça sobre a problemática de um livro que na realidade como leitores não conhecemos. Fuka-eri passa aqui a ser o centro dos enigmas e a sua história de vida leva-nos a conhecer o movimento “takashima” e o grupo “sakigake”, aqui traduzido por “vanguarda”.
Neste ponto, o autor fala de seitas derivadas dos tumultos de esquerda nos anos 60 nas universidades do Japão (já lemos sobre isto no Norwegian Wood, no Crónicas de um pássaro de corda, etc). Neste livro essas seitas passam a ser parte fulcral do enigma. A história delas é-nos narrada como seitas que se centravam em ideais bons – os do cultivo e da existência autossustentável - mas que foram descarrilando para organizações minadas pela corrupção e pela cedência a pressões.
A especulação ética serve de justificação teórica à ação: “Toda a perícia e todo o processo de investigação, do mesmo modo todo o procedimento prático e toda a decisão, parecem lançar-se para um certo bem. É por isso que tem sido dito acertadamente que o bem é aquilo por que tudo anseia” é a citação de Aristóteles que Komatsu evoca na página 287.
É um enquadramento interessante que nos leva a posicionar o livro sob uma certa vertente ideológica mas sem deixar de lado outras reflexões. Uma daquelas que considerei pessoalmente mais interessante passa pela teorização literária que é utilizada por Komatsu mas que se revela como uma teorização do autor. Detalhe de excelência neste aspeto quando o autor nos conduz a uma reflexão sobre a descrição das duas luas (pág. 323) e depois nos apresenta as duas luas na realidade transfigurada de Aomame.
Pelo caminho, há muitos temas no livro que não se revelam como centrais para o desenvolvimento da ação principal mas que contribuem para um certo exercício de pensamento. Destaque para uma observação de Aomame relativamente à sua paixão pela história e pela forma como se opõe a certa altura à contemplação do passado de forma desenquadrada (pág. 347). Os mesmos aspetos interessantes provenientes deste interesse de Aomame surgem por exemplo quando refere o facto do meio ser a mensagem, numa referência a McLuhan e a referência histórica à reflexão sobre o massacre: os que sofrem e os que esquecem.
A descrição da comida e do sexo transportam-nos para atmosfera sensorial recorrente do autor e que lhe confere o rótulo de progressista. Para além disso, há uma ilegalidade e noção de maldade das quais os intervenientes são conscientes mas aceitam. Lá para o fim do volume as duas realidades começam finalmente a tocar-se. Este momento no livro é para mim um dos melhores que já li em Murakami. Isto porque é óbvio que o leitor já tem uma atitude de detetive enquanto lê as duas histórias aparentemente desconexas mas ainda assim a forma como Murakami cria o elo de ligação é bastante voraz e surpreendente.
No fim, resta-nos repensar todo o conceito do livro nos seus aspetos aparentemente mais óbvios mas realmente complexos: qual é o paralelismo entre o 1Q84 de Murakami e o 1984 de George Orwell? Entramos em contacto com a noção de “povo pequeno” como conceito essencial da obra escrita por Fuka-eri, qual é a analogia com “o irmão mais velho” (Big brother)? Será que Murakami quer culpar as pessoas que obedecem mais do que aqueles que tudo vigiam e controlam?
Onde entra a Ilha de Sacalina de Tchékov no meio disto tudo? É para enfatizar o apelo ao sexismo e ao machismo vivido no mundo ou há a tentativa de criar uma realidade distópica como a de Orwell? E o Heike Monogatari e o síndrome de Savant? As personagens ouvem todas música erudita e expressam-se com uma certa destreza intelectual, será que só há classe média culta no Japão?
Quando a Ayumi vem revelar os meandros execráveis dos elementos da polícia, fico com a mesma sensação de estranheza do conceito inicial de justiça popular, onde é que o autor nos quer levar?
Não será certamente fácil entendê-lo ainda para mais tendo em mente que ainda me faltam dois volumes para chegar a uma conclusão minimamente concreta, portanto, o melhor é aguardar a conclusão da leitura deste livro que se revela recomendável desde que funcione, para já, como alavanca de questões e expectativas.

Sara F. Costa

29.9.11

Hanaoka Seishu no Tsuma


Este é um tipo de livro que se encontra escavando uma pilha de um alfarrabista ou remexendo nos livros que se encontram junto a placas que dizem “2euros” em feiras do livro. Trata-se de uma edição de 1983 da Circulo de Leitores e na altura ainda imprimiram uns 6000 exemplares mas penso que não voltou a ser reeditado. De facto, “Hanaoka Seishu no Tsuma” ou “a esposa de Hanaoka Seishu” é a obra mais popular da escritora Sawako Ariyoshi editado pela primeira vez no Japão em 1966. A edição portuguesa deu-lhe o nome da protagonista “Kae” e acrescentou “as duas rivais”. Para além disso, inspirou-se na versão japonesa d’ “O aviso” para fazer a capa (ou algo que a isto se assemelhe). Mas efetivamente, isto é literatura japonesa em todo o seu esplendor, não é um filme de terror japonês de low budget.

Hanaoka Seishu (1760-1835) foi um cirurgião japonês conhecido pelos seus contributos para a história da medicina na área dos anestésicos. Teve uma formação em medicina tradicional chinesa e em métodos ocidentais transmitidos essencialmente pelos holandeses. Um romance que se centrasse na sua biografia seria já por si certamente interessante, mas Sawako foi mais longe na complexidade da sua abordagem e, se do ponto de vista de um leitor ocidental não percebemos muito bem se estamos a ler um livro escrito por um homem ou por uma mulher, rapidamente será fácil percecionar toda a psique feminina envolvida na narração.
Isto porque a autora vai para além dos feitos medicinais do Seishu (mestre) e dá-nos a conhecer a sua biografia do ponto de vista das mulheres que o envolveram e que foram um contributo real para a sua notoriedade profissional.

O livro apresenta-nos antes de mais a forma de organização social daquele período – fins de período tokugawa – fazendo-nos acompanhar as vivências de Kae que, depois de prometida ao filho de um médico local, teve de abandonar a própria família para ir viver com a família do marido. Assim nos posiciona a autora, no olhar de uma jovem virgem prestes a envolver-se com a sua nova vida. Mas mais do que explorar esta noção sexista que levava as mulheres a serem expulsas do seu próprio meio para se deslocarem para os meios dos homens, a autora focaliza-se numa relação muito particular mantida entre dois elementos essenciais: uma sogra e uma nora. É aqui que entram todas as coordenadas psicológicas relativas à possessão de uma mãe pelo filho que entram em choque com aquelas que dizem respeito a uma mulher pelo seu homem.

De facto, este não é o único tipo de complexo psicológico mantido no seio de uma família mas uma vez que retrata o estilo de organização de um período da história do Japão tão longo e tão opressor do ponto de vista psico-social, este complexo edipiano que e as mães tentavam a todo custo que não fosse sublimado para impedir a substituição do objeto de desejo tinha repercussões evidentes no estilo de relações familiares que se reproduziam um pouco por toda a sociedade.

Claro que há aquele aspeto que qualquer obra deste período não consegue ocultar: esta foi uma época extremamente particular para o desenvolvimento das aparências como forma de estar na vida. A organização comunitária que punia pela ostracização formava paradigmas muito específicos de comportamento e todas as aparências ganhavam um relevo profundo na existência das pessoas e, com mais restrições, na vivência das mulheres – sempre com um papel maternal, protetor e de sacrifício pelo bem-estar masculino.

Esta obra-prima de Sawako Ariyoshi é uma reflexão profunda sobre o papel das aparências na vida de uma mulher deste período (ainda atual?). A sua narrativa é uma análise psicanalítica de um conflito profundo que relata simultaneamente o diálogo verdadeiro, aquele que é interior, e a perceção externa. Digamos que para a mesma situação a autora nos dá a ler as intenções reais e as imagens transmitidas conscientemente e aqui esta habilidade única de manejar a hipocrisia como um sabre dá-nos a noção de que os conflitos inter-relacionais são uma guerra onde se combate com arte e com elegância sem que por isso lhes consigamos ocultar a violência.

As duas mulheres disputam assim o afeto do jovem homem, empenhado e visionário relativamente ao seu campo de estudo, o da medicina. O livro tem momentos gráficos muito fortes. As experiências médicas de Hanaoka eram feitas em gatos e cães e há relatos muito pormenorizados do asco de Kae a viver aquela existência oprimida rodeada de cadáveres de animais. O culminar do sacrifício das duas mulheres na sua batalha pelo afeto dá-se quando ambas se querem submeter às experiências de Hanaoka, sabendo que corriam o risco de não despertar dos comas a que o cirurgião as submeteria ou ficarem com graves danos cerebrais para o resto da vida, tais como os que podiam ser observados nos animais-cobaias que utilizava.

Os métodos de Hanaoka, a sua inspiração e as suas influências estão tão bem descritas como se de um artista se tratasse. A convicção, a visão, as inspirações várias do brilhante médico assim como a referência sistemática ao seu mestre chinês Hua Tuo. Hua Tuo foi um famoso médico chinês do Período dos Três Reinos que abriu caminho para as experiências de Hanaoka no campo das anestesias e da cirurgia com uma famosa poção chamada “mafeisan” cujas componentes ainda não são claramente conhecidas, mas que formaram as primeiras anestesias na história da medicina. Hoje em dia este médico mítico tem um lugar especial no orgulho coletivo chinês (apareceu-me em vários textos de manuais de chinês para estrangeiros) mas foi demasiado pioneiro para um tempo que encarava a cirurgia como um sacrilégio uma vez que envolvia mutilação corporal. A poção mafeisan evoluiu assim com Hanaoka para uma poção de nome japonês chamada tsusensan.

Em poucas páginas adquirimos uma perceção cultural muito apurada daquele período, confrontando-nos com a evolução histórica de uma ciência tão importante como a medicina e ainda entrando por campos da psicanálise que não são assim tão recorrentes na literatura ocidental, talvez porque a nossa emancipação e o nosso vanguardismo são demasiado superficiais para aceitar um conflito de amor mãe-filho que podemos encarar como perturbador. Serão estes nossos tabus, afinal, uma forma de conservadorismo?
Fica a dica de leitura.

Sara F. Costa

12.9.11

O particular Mundo «Não Humano» de Osamu Dazai



Osamu Dazai criou, em «Não Humano» (e em outros livros), agora editado pela Eucleia Editora, um mundo estranho e inóspito. Yozo, personagem principal, representa o que mais há de primário no ser humano. Ao entrarmos em «Não Humano» partilhamos os medos e obsessões do próprio autor. A sua vivência pessoal, a tentação contínua que o puxava para a morte (concretizado num duplo suicídio com a sua amante), as drogas, o álcool, sexo, tudo é exorcizado perante o leitor de uma forma honesta e, em consequência, cruel. Este tipo de ficção dita confessional levou a que o autor seja considerado um dos principais autores japoneses do século XX.

«A minha vida é vergonhosa.Não consigo sequer imaginar como deve ser viver como um ser humano» (pag.13)

O que mais impressiona em «Não Humano» não é a descrição de violência física ou mesmo a tortura psicológica. O que mais impressiona neste livro é a indiferença à dor própria e alheia. A estrutural moral e social é outra, se é que existe. Yozo está sempre à margem das emoções (excepto de um medo primário de animal), não se envolve socialmente e vê o sentimento como um sintoma de doença.« (…) alguns anos mais tarde, observei, em silêncio a violação da minha própria esposa.Tentei, na medida do possível, evitar envolver-me nas complicações sórdidas do ser humano.» (pag. 61)
A personalidade é escondida atrás de inúmeras brincadeiras, palhaçadas segundo o próprio, impedindo o “outro” de o observar, de o conhecer. É uma vida representada, irreal.O suicídio é uma obsessão pela qual se deixa seduzir por duas vezes. A primeira vez que se tenta suicidar, Yozo/Osamu é resgatado por um barco de pesca. Não o tentou sozinho. Uma mulher saltou com ele e afogou-se. Ele jamais conseguiu ultrapassar o sentimento de culpa. A necessidade/capacidade do autor se desnudar emocionalmente perante o leitor é autêntica e mostra a singularidade deste livro. «Não Humano» é um mundo à parte.A simbiose entre ficção e realidade proporciona uma viagem da qual não queremos sair. O percurso de Yozo é, em essência e nos principais acontecimentos, paralelo ao de Osamu Dazai.É importante mencionar que, ao analisar a estrutura do romance (confessional), o narrador não chega a conhecer a personagem. Ao sabermos que o enredo é muito moldado aos acontecimentos da sua vida, podemos especular que há, pelo menos, duas perspectivas no autor: Aquele que sofre e o que se analisa. E a separação entre ambos é dramática: «Nunca tinha visto tão impenetrável rosto num homem.» (pag. 12)
Poucos autores conseguem criar mundos diferentes, livros que causem impacto no leitor. O mundo «Não Humano» de Osamu Dazai é um desses mundos literários criados para nos abanar e, estranhamente, seduzir-nos a percorrê-lo e acabar a viagem.
«Tudo passa.Essa é a única coisa que achei assemelhar-se a uma verdade na sociedade dos seres humanos onde até agora vivi como se num inferno.Tudo passa» (pag. 122)


Mário Rufino