19.12.09

Ariwara no Narihira (在原業平, 825 - 880)

Durante cerca de cem anos depois da compilação do Manyoshu, a corte japonesa continuou a demonstrar um intenso interesse pelos assuntos chineses que inicialmente atraíram Otomo Tabito e o seu círculo. Ao contrário dos membros do pavilhão de Kyushu, o imperador e a corte continuaram a compor sempre em chinês. Entretanto a poesia japonesa, ainda que permanecendo como um meio de comunicação informal, perdeu a sua vitalidade. Quando em meados de 800 a poesia ressurge em japonês ela ainda denota influências visíveis da poesia chinesa elaborada durante as Seis Dinastias (durante o período dos Três Reinos) caracterizada por expressões assertivas, metáforas e jogos inteligentes de palavras. Esta poesia dá uma especial ênfase ao intelecto e tem recorrentemente a argumentos e conclusões e tem ainda uma preocupação com a percepção global do leitor – afastando-se aí do estilo mais directo de Hitomaro e Akahito.




Nariwara no Narihira por Eisen (1820)

Um dos primeiros seguidores desta tradição foi Ariwara no Narihira, este autor de Waka cuja descendência genealógica denota ligações imperiais sendo, sendo o 15º filho do príncipe Abo (filho do Imperador Heizei). Permaneceu uma figura menor numa hierarquia cada vez mais dominada pelo poder do clã Fujiwara. O seu maior cargo profissional foi o de responsável oficial da corte, cargo este para o qual foi apontado alguns meses antes da sua morte. Há registos de que tenha sido anteriormente apontado para cargos de relevo mas os seus devaneios românticos levaram-no a situações polémicas – rumores que o envolvem com Fijiwara no Takaiko – ao que parece, uma consultora da corte.



Pessoas a atravessar a ponte em arco por Ariwara no Narihira por Katsushika Hokusai

Temos conhecimento da importância da sua obra devido à referência que Ki no Tsurayuki lhe faz no prefáfio de Kokin Wakashu.

Os registos históricos descrevem-no como um ser de carisma, atraente e culto, tendo recebido alta formação em poesia chinesa. Muito envolvido na vida poética do seu tempo, escreveu para várias ocasiões específicas nas celebrações da corte. Os seus poemas denotam um grande conhecimento e domínio técnico mas com uma ligeira tendência para uma tonalidade grave e séria que o deixou à margem dos leitores que preferiam uma tonalidade mais leve e humorística. Esta faceta introspectiva é bastante peculiar nos seus poemas de amor. Sendo ele próprio considerado um conquistador na área das paixões, a sua história está parcialmente relatada no Ise Monogatari (Conto de Ise) – a sua matéria empírica para a escrita não seria pouca. O Ise Monogatari contém muitos dos seus poemas no género Waka embora nem todos os poemas atribuídos àquela que é no livro a sua ‘personagem’ sejam efectivamente seus. Acredita-se que mesmo Murasaki Shikibu se inspirou na sua vida amorosa para escrever os sucessivos relatos de paixão e lascívia de Hikaru Genji no Genji Monogatari, a referência ao herói romântico tentando conquistar uma consultora da corte é uma das situações que leva os especialistas a esta conexão. Considerado um dos modelos de beleza masculina do seu tempo, na sua obra a temática do amor surge quase como uma ideia pura de desejo e perda do controlo sobre o meio e sobre si próprio, uma vertigem consentida, como define Steven Carter “to have powers of reason that the stronger forces of emotion refuse to obey”.

Aqui alguns exemplos de traduções por Thomas McAuley disponíveis on-line:



yo no naka ni/taete sakura no/nakariseba/Faru no kokoro Fa/nodokekaramasi




If, in this world of ours

All the cherry blossom

Disappeared

The heart of spring

Might find peace.

(Composto no Palácio de Nagisa)
KKS I: 53




keFu kozu Fa/asu Fa yuki to zo/Furinamasi/kiezu Fa ari tomo/Fana to mimasi ya

Had I not come today,

Tomorrow, in a blizzard

They might be falling.

Not to melt away, but,

Would they still seem the flowers?

KKS I: 63


nuretutu zo/siFite worituru/tosi no uti ni/Faru Fa ikukamo/arazi to omoFeba


Soaked through, and

Heedless of it, I plucked this:

For this year

Spring, is all but

Gone: or so I felt.

KKS II: 133



+Poemas




Trans. Helen Craig McCullough (1968). Tales of Ise: Lyrical Episodes from 10th Century Japan. Stanford University Press. ISBN 0-8047-0653-0.

Carter, Steven D. (translator), Traditional Japanese Poetry: An Anthology, Stanford University



Sara F. Costa

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