7.6.07

MURAKAMI E O CARNEIRO DESAPARECIDO



Já há bastante tempo que eu ficara de dar notícias do carneiro selvagem. Parti com Haruki Murakami em busca dele e andei uns tempos por lá. Mas aqui estão elas ."Soube da sua morte por um amigo." Com estas palavras se inicia este que é um dos primeiros romances de Murakami. E continua: "Ele viu a notícia quando passava os olhos pelas páginas de um matutino e deu-se ao trabalho de me telefonar a ler o texto."Se nunca mais sabemos de quem se fala ou a importância que a personagem pode ter no romance, isso é absolutamente indiferente. O que se trata aqui é do carneiro selvagem. O resto são coincidências filhas da mãe. É que há coincidências que não dá mesmo para acreditar. E, no entanto, elas surgem a cada página da obra deste autor. E de coincidência em coincidência, o narrador vai-se envolvendo (e vai envolvendo-nos) na mais bizarra busca que é possível imaginar: a de um carneiro com características tão especiais que nem é bom conhecê-las! Não é que ele seja um homem demasiado aventureiro, demasiado ousado, ou demasiado curioso, mas a vida tem destas coisas e como fugir delas?

"Tive vontade de mandar tudo às urtigas naquele preciso momento e lançar-me montanha abaixo, sem dar satisfações a ninguém. Porém, a verdade é que isso também não levaria a nada. Estava demasiado envolvido para me safar assim. Só me apetecia gritar. O recurso mais fácil seria pôr-me a chorar, mas de que me serviria? Chorar por chorar, desde há muito que havia coisas que mereciam bem mais as minhas lágrimas, como eu no fundo bem sabia. Fui à cozinha, deitei a mão à garrafa de uísque, despejei cinco dedos num copo e bebi. Foi a única coisa que me passou pela cabeça fazer."E, apesar de estarmos já bastante adiantados no livro, o mais perturbador está ainda para vir. Encontrará o narrador ou o leitor o carneiro selvagem? Saberá sequer para que anda à sua procura? Encontrará o narrador ou o leitor um sentido para a vida?
Um motivo válido para abandonar tudo, mas mesmo tudo, para perseguir carneiros selvagens com uma estrela no dorso?Constante na literatura de Murakami, a preplexidade acompanha-nos até à última página. E desta para o próximo romance. Não há como fugir ao fascínio.
A publicação em Portugal da obra de Haruki Murakami tem seguido uma ordem tão surpreendente que poderia ser tema de um dos seus romances. Não é fácil estabelecer a cronologia. No entanto, para os interessados, recomendo vivamente o fabuloso site http://www.harukimurakami.com/, onde poderão seguir o fio à meada.
De qualquer modo, o que interessa é ler Murakami, seja lá por que ordem for. Este "Em Busca do Carneiro Selvagem", que faz parte do que é conhecido pela Triologia do Rato (juntamente com Hear the Wind Sing e Pinball), uma das suas primeiras obras, contém já os ingredientes que iriam fazer o sucesso de Murakami em todo o mundo: o humor, o surrealismo, a fuga à realidade pelo fantástico e um retrato pungente do vazio espiritual e da solidão provocados por uma sociedade dominada pela mentalidade da concorrência e do capitalismo desenfreado. Demasiado obcecado por estes temas, dizem alguns dos seus críticos. Fascinantemente fiel às suas obsessões, defendem os seus admiradores. Nada como lê-lo. E já que neste momento temos alguma possibilidade de escolha, talvez seguir a ordem cronológica de publicação, que aqui fica.
Em Busca do Carneiro Selvagem (1982)
Norwegian Wood (1987)
Crónica do Pássaro de Corda (1994)
Sputnik Meu Amor (1999)
Kafka à Beira Mar (2005)

Maria Eduarda Colares

4 comments:

Anonymous said...

livro fantástico... do murakami só mesmo o sputnik é nao me disse muito...

Rui

Anonymous said...

o período de ouro de murakami!!!

Jorge Alves said...

Magnífico site!

Lauro António said...

Cara Sara, este texto, infelizmente, não é meu. É da Maria Eduarda Colares, autora do blogue Detesto Sopa.
De todas as formas, um bom blogue o seu. Continue.