9.2.08

Nempuku Sato, um mestre de haiku no Brasil

Em 2008 comemoramos o centenário da imigração japonesa ao Brasil. É a ocasião propícia para divulgar o haiku (pronuncia-se ráico), o tradicional poema japonês. No Brasil, o haiku é chamado de haicai e ganhou características da poesia ocidental, com rima, título, subjetividade. Nos últimos anos foi popularizado pelo trabalho de poetas como Paulo Leminski, Alice Ruiz e Helena Kolody. Os grêmios de haicaistas mantiveram a tradição e ainda são pouco conhecidos. Mas alguns poetas que atuaram nos grêmios, como os japoneses Nempuku Sato e Masuda Goga vem sendo reconhecidos fora dos círculos mais restritos.

Nempuku ao lado de Shûhei Uetsuka (nome literário Hyôkotsu), o "pai da imigração japonesa", em foto de 1934. Hyôkotsu (1876-1935) é reconhecido como o autor do primeiro haiku em japonês escrito no Brasil (1908), mas considerava Nempuku como seu mestre.

O haicai foi introduzido no Brasil por influência da cultura francesa nas primeiras décadas do século 20. Logo foi adaptado para aproximar-se de formas mais conhecidas pelos poetas brasileiros, como a trova e o epigrama lírico. Com a chegada dos imigrantes japoneses, os haicaistas brasileiros começaram a familiarizar-se com aspectos menos exteriores da poesia japonesa, nos anos 30 e 40.
Nempuku Sato (1898-1979) foi um dos tantos pioneiros japoneses que trabalhou na lavoura. Seu nome original era Kenjiro Sato. Foi incumbido pelo mestre Takahama Kyoshi a divulgar o haiku entre os japoneses no Brasil, onde desembarcou em 1927. Instalou-se como pequeno sitiante na colônia Aliança, noroeste de SP.
Viajou pelo interior de São Paulo e do Paraná para ensinar o "verdadeiro haiku", isto é, a forma tradicional que obedece rigorosamente à métrica e contém o kigo ou termo da estação do ano (que poderíamos aproximar de “mote” ou motivo na trova popular).
Nempuku descobriu diversos motes brasileiros, ao observar a natureza do país e mostrou aos discípulos como fazer haiku com os novos kigos. Quando publicou a primeira edição de sua coletânea, escreveu o trecho que segue:
"Nasci como filho de um pequeno comerciante de aldeia, mas não aprendi nada sobre negócios e recebi apenas educação primária. Sem cultura alguma, cheguei ao Brasil e por aqui passei a metade de minha vida sem conseguir sucesso digno de nota. Por isso, meus haikus são apenas um diário banal de vida sem valor para ser apreciado. Porém, o haiku tem sido minha vida nestes 25 anos, mesmo nos instantes em que fui impedido de compor pelo cansaço do trabalho pesado. Assim sendo, eu considerava que o haiku era a animação da vida e fui consolado e encorajado pelo mesmo..."
Nempuku teve como discípulo o poeta Masuda Goga, que hoje mora no interior de São Paulo. A poeta paranaense Helena Kolody tomou conhecimento de haicai através de um discípulo de Goga. Pela aproximação de Helena ao haiku, nos 85 anos da imigração japonesa, em 1993, ela foi homenageada pela comunidade nipo-brasileira de Curitiba com um nome japonês de haicaista, Reika (em japonês, perfume da literatura). A poeta Alice Ruiz também recebeu o nome Yuuka, na mesma ocasião.


haiku autógrafo de Nempuku: "kuwa motte iyashi karazari haru no kaze (em tradução livre: Enxada nas mãos/ Não quer dizer vulgaridade—/ Vento de primavera)". Tinta chinesa (sumi) sobre cartão, 36cm x 6cm, sem data. Abaixo, no destaque, a assinatura de Nempuku.

Haiku

Nos poemas abaixo, retirados do site Caqui, Nempuku dá amostra de seu gênio. Contrariando a idéia comum do haicai tradicional como uma aquarela, o mestre retrata a natureza vigorosa, da paisagem familiar aos pioneiros imigrantes japoneses no Brasil. Acima de tudo, Nempuku é poeta e nunca deixa de lado o lirismo ou o humor. E remete aos clássicos, quando revela a condição de aprendiz na arte de Basho e Issa.

natsugusa ya nagenawa ushi o etsutsu yuku

Ervas de verão

Recolho com o laço

Os bois um a um.

buta no mure oitate imin ressha tsuku
Após tocar

Uma vara de porcos,

Chega o trem dos imigrantes.


kisha e kite kashi akanaeru kareno kana
Em volta do trem

Vendedores de doces -

-O campo seco.


iki shiroku kotoba mijika ni ki muzukashi
Palavras curtas

Envoltas no hálito branco.

Gênio complicado

eri maki ya shimpu to sasou takushi hige
Cachecol no pescoço -

-A barba de pioneiro

Compete com a do padre.


Kyoshi mon ni mugaku dai ichi hi tori mushi
O aluno de Kyoshi entre ignorantes.

Primeiros insetos

Em volta da lâmpada.

Marilia Kubota

2 comments:

Djabal said...

não tinha nada
mas não me esqueci
trouxe de lembrança este caqui

Nenpuku Sato

Ps. Linda a sua lembrança e homenagem. Parabéns.

Penetralia said...

Gostei demais também. No meu blog há o endereço de outro interessado em hai kai, Gilberto. Abraços do Lúcio Jr.