7.5.10

Kagi: A Confissão Impudica

“Kagi” é o título de um livro de Junichiro Tanizaki (1886-1965) editado em Portugal pela Assirio&Alvim com o título adaptado da tradução francesa “A confissão impudica”, em 1991 e editado pela Teorema em 2003 com um título mais próximo do nome original da obra que é Kagi, ou seja, traduzido mais literalmente por “A Chave”. Uma obra bastante emblemática de Tanizaki no sentido em que aborda temáticas tipicamente Tanizakianas (passe a expressão). Mas vamos fazer jus ao título do artigo (roubado à livre tradução da edição da Assírio) e sejamos impudicos porque este é um livro sobre sexo. Essencialmente sobre sexo e intrinsecamente sobre psicologia. 

É neste ponto do artigo que os meus leitores começam a olhar para o lado e a fazer um ar de despercebidos, mas, de facto, todos sabemos que a pornografia japonesa e a sua tremenda exuberância e excentricidade reflectem uma forma de se encarar a sexualidade no mínimo peculiar. Acontece que, de facto, a percepção nipónica ultra-fetichista e absurdamente fantasista sobre o sexo não se reflecte só no hentai ou nas ofertas de mercado sexual das zonas mais duvidosas de Shinjuku. Isto porque, estou convencida que qualquer manifestação de peculiaridade cultural tem que ter uma raiz justificativa. Na história do Japão, a sexualidade, que está presente nos valores ancestrais japoneses com bastante naturalidade – os símbolos fálicos presentes nos cultos xintoístas são disso exemplo – acaba por começar a assumir o seu estado pudico a partir da construção da sociedade feudal e da definição do papel da mulher na comunidade, acabando por dogmatizar a noção de pureza associada à preservação dos elementos encarados como sexualizantes na mulher, à semelhança do que aconteceu na nossa cultura de matriz cristã, ainda que estas não estivessem em contacto. Ao longo da história da humanidade as sociedades tenderam a organizar-se em torno de um sentido de “maternidade/pureza” associado ao papel da mulher na estrutura familiar e social. Diz a sabedoria popular que o fruto proibido é o mais desejado e sem dúvida que uma sacralização da sexualidade feminina, inalcançável e misteriosa, só pode resultar num manancial de frustrações mescladas com desejos que dão origem às mais obscuras fantasias. 

A época feudal do período Edo é uma das principais épocas a ter uma influência considerável naquela que é a personalidade colectiva actual dos japoneses. É um período que se arrasta desde o séc. XV até 1868, altura em que o Japão se abre ao mundo, saído da sua idade das trevas e se moderniza. Tendo em conta este encadeamento de factores históricos, talvez tenhamos aqui a ponta de um iceberg de justificações múltiplas para certos elementos do imaginário sexual japonês que, como ocidentais, não conseguimos perceber muito bem de onde vêm. É neste contexto que se insere esta obra de Tanizaki.
A história, com algum sentido de minimalismo, concentra-se em duas personagens que formam um casal cujo casamento dura há cerca de três décadas. Cada elemento do casal possui um diário no qual decide confessar aquilo sobre o qual não dialoga mas que quer exprimir: os detalhes da sua vida sexual e pensamentos sobre o assunto. A história concentra-se bastante no marido e na sua busca desesperada por satisfazer apetites algo desmesurados da mulher. Acabando por condicionar a sua normal existência quotidiana com esta obsessão, recorrem os dois a métodos pouco ortodoxos onde um jogo tácito conduz a dúvidas, dilemas e traições. A forma como o estabelecimento da importância das perversões do casal têm repercussões no tecido familiar – com a intervenção da filha - é bastante particular na medida em que não somos, como ocidentais, um público habituado a este tipo de leitura circunstancial. Mas, efectivamente, o objectivo de Tanizaki é sempre extrapolar o campo da mera contemplação e verificar as consequências das impressões íntimas das personagens ao longo da sua vivência, numa perspectiva algo freudiana da existência.
Sabemos que Tanizaki como escritor sofreu de muitas influências de autores ocidentais, tendo uma particular paixão pelos boémios obscuros, Baudelaire, Poe, etc, sobretudo em trabalhos mais iniciais. Esta obra de 1956 surge num contexto pós-guerra rodeado das mais variadas reflexões sobre o estado identitário do Japão nos seus mais variados conflitos e esta abordagem à psicanálise das personagens é sem dúvida vanguardista e reflecte uma grande elegância e mestria no tratamento da mensagem a passar. 

Sara F. Costa

1 comment:

Alberto said...

Excelente texto. parabéns!
A sexualidade fetichista e ritualizada está patente noutras obras de Tanizaki e, embora com reverberações mais complexas, na Casa das Belas Adormecidas de Kawabata.
Alberto Costa