12.12.11

1Q84


O primeiro volume de 1Q84 deixa-me com uma sensação que não é nova ao leitor de Murakami. A sensação de dispersão numa realidade com um sentido intrínseco demasiado próprio e no qual ninguém pode dar garantias de antever uma resolução simples. Chego ao fim do primeiro volume com muitas coisas sobre as quais pensar mas com poucas respostas concretas.
Passo a uma análise por etapas. Temos uma personagem feminina carismática e com uma personalidade forte, Aomame, uma instrutora de artes marciais que trabalha em nome de propósitos obscuros, sob as suas próprias leis e os seus entendimentos da realidade e da justiça. Leis que de tão próprias são efetivamente ilegais e correspondem a um código de valores considerados pelo autor como demasiado pessoais para serem previstos pela sociedade em geral. Este é um aspeto que me deixa logo um bocado boquiaberta. É um bocado excessivo entrar tão levemente por temas tão complexos e tão sensíveis. A justiça popular é um tema bastante apaixonante mas bastante questionável. A ideia era criar um sistema privado e ultrassecreto que trabalha em nome do bem por vias consideradas menos boas. Assim, nas primeiras páginas assistimos ao assassinato de um diretor de uma petrolífera que alegadamente cometera muitos crimes de natureza de violência doméstica contra a esposa. Ligado a este tema entramos em contacto com a história da amiga Tamaki, também brutalmente violentada física e psicologicamente pelo marido até ao ponto do suicídio. Depois ficamos a saber que a filha da anciã para a qual Aomame trabalha também se suicidou pelas mesmas circunstâncias. Partindo do princípio que a lei japonesa é fundamentalmente machista e discriminatória, estas mulheres decidem juntar-se para criar um sistema de vingança pessoal com propósitos mundiais. Os japoneses fantasiam muito sobre estas formas simplistas de modificar o mundo, faz-me lembrar conceitos como os de Death Note e coisas do género. A verdade é que podemos também encarar este livro como introdutório e não como perspetiva finalizada sobre algo. Uma pista para isso surge mais para o fim quando Aomame admite a possibilidade da anciã transportar uma certa “loucura” ou “preconceito” (pág. 356).

Paralelamente, e como não poderia deixar de ser nos livros de Murakami, temos um universo relatado à margem do de Aomame que é, neste caso, o universo de Tengo. A organização ultrassecreta contra a violência doméstica desenvolve-se ao lado de uma história nos bastidores de um universo editorial onde Tengo e o editor Komatsu decidem reescrever o livro da jovem Fuka-eri de forma a que este conquiste o prémio Akutagawa (o mais prestigiado do Japão). Durante um período há aqui o desenrolar de uma certa meta narrativa, estamos a ler algo que se debruça sobre a problemática de um livro que na realidade como leitores não conhecemos. Fuka-eri passa aqui a ser o centro dos enigmas e a sua história de vida leva-nos a conhecer o movimento “takashima” e o grupo “sakigake”, aqui traduzido por “vanguarda”.
Neste ponto, o autor fala de seitas derivadas dos tumultos de esquerda nos anos 60 nas universidades do Japão (já lemos sobre isto no Norwegian Wood, no Crónicas de um pássaro de corda, etc). Neste livro essas seitas passam a ser parte fulcral do enigma. A história delas é-nos narrada como seitas que se centravam em ideais bons – os do cultivo e da existência autossustentável - mas que foram descarrilando para organizações minadas pela corrupção e pela cedência a pressões.
A especulação ética serve de justificação teórica à ação: “Toda a perícia e todo o processo de investigação, do mesmo modo todo o procedimento prático e toda a decisão, parecem lançar-se para um certo bem. É por isso que tem sido dito acertadamente que o bem é aquilo por que tudo anseia” é a citação de Aristóteles que Komatsu evoca na página 287.
É um enquadramento interessante que nos leva a posicionar o livro sob uma certa vertente ideológica mas sem deixar de lado outras reflexões. Uma daquelas que considerei pessoalmente mais interessante passa pela teorização literária que é utilizada por Komatsu mas que se revela como uma teorização do autor. Detalhe de excelência neste aspeto quando o autor nos conduz a uma reflexão sobre a descrição das duas luas (pág. 323) e depois nos apresenta as duas luas na realidade transfigurada de Aomame.
Pelo caminho, há muitos temas no livro que não se revelam como centrais para o desenvolvimento da ação principal mas que contribuem para um certo exercício de pensamento. Destaque para uma observação de Aomame relativamente à sua paixão pela história e pela forma como se opõe a certa altura à contemplação do passado de forma desenquadrada (pág. 347). Os mesmos aspetos interessantes provenientes deste interesse de Aomame surgem por exemplo quando refere o facto do meio ser a mensagem, numa referência a McLuhan e a referência histórica à reflexão sobre o massacre: os que sofrem e os que esquecem.
A descrição da comida e do sexo transportam-nos para atmosfera sensorial recorrente do autor e que lhe confere o rótulo de progressista. Para além disso, há uma ilegalidade e noção de maldade das quais os intervenientes são conscientes mas aceitam. Lá para o fim do volume as duas realidades começam finalmente a tocar-se. Este momento no livro é para mim um dos melhores que já li em Murakami. Isto porque é óbvio que o leitor já tem uma atitude de detetive enquanto lê as duas histórias aparentemente desconexas mas ainda assim a forma como Murakami cria o elo de ligação é bastante voraz e surpreendente.
No fim, resta-nos repensar todo o conceito do livro nos seus aspetos aparentemente mais óbvios mas realmente complexos: qual é o paralelismo entre o 1Q84 de Murakami e o 1984 de George Orwell? Entramos em contacto com a noção de “povo pequeno” como conceito essencial da obra escrita por Fuka-eri, qual é a analogia com “o irmão mais velho” (Big brother)? Será que Murakami quer culpar as pessoas que obedecem mais do que aqueles que tudo vigiam e controlam?
Onde entra a Ilha de Sacalina de Tchékov no meio disto tudo? É para enfatizar o apelo ao sexismo e ao machismo vivido no mundo ou há a tentativa de criar uma realidade distópica como a de Orwell? E o Heike Monogatari e o síndrome de Savant? As personagens ouvem todas música erudita e expressam-se com uma certa destreza intelectual, será que só há classe média culta no Japão?
Quando a Ayumi vem revelar os meandros execráveis dos elementos da polícia, fico com a mesma sensação de estranheza do conceito inicial de justiça popular, onde é que o autor nos quer levar?
Não será certamente fácil entendê-lo ainda para mais tendo em mente que ainda me faltam dois volumes para chegar a uma conclusão minimamente concreta, portanto, o melhor é aguardar a conclusão da leitura deste livro que se revela recomendável desde que funcione, para já, como alavanca de questões e expectativas.

Sara F. Costa

3 comments:

Wander Shirukaya said...

Interessante. Vejamos o q Murakami aprota desta vez. Rezo para q chegue logo ao Brasil.
Abraço!

Bernardo Soares said...

Um dos livros mais decepcionantes (Que decepciona ou causa decepção) de 2011. Ele cita a frase do Tchekhov "se uma arma aparece em um conto em algum momento ela deve ser disparada", pois bem, a frase preza pela exclusão de toda superfluidade (Qualidade ou caráter do que é supérfluo) e não é que ele constrói sua narrativa de 950 páginas recheadas de excessos narrativos, e a maldita arma não dispara no final das contas.

Sara F. Costa said...

Esse é um dos meus medos. Que isso aconteça ao fim dos três livros...