12.11.06

Kojiki e Nihongi

Claro que as origens históricas de algo são sempre discutíveis. Terão as tradições literárias nipónicas começado num período de transmissão oral ou apenas quando o registo linguístico pôde ser solidificado com a adopção da escrita chinesa? O que é certo é que o Japão começou a possuir uma escrita muito tardiamente comparado com a maioria das civilizações. Os primeiros registos no campo da literatura clássica e arcaica remotam ao século VI. Neste tempo o Japão encontrava-se no Período Nara (奈良時代). O imperador era um senhor todo poderoso que mantinha apenas o titulo e a dignidade divina, sem quaisquer prerrogativas de mando, e vivia num isolamento de cativo. Ficava assim para o poder soberano o poder espiritual sendo que o poder temporal exerciam-no os Fujiwara (藤原氏) e seus descendentes como lhes aprouvesse regulando até a sucessão ao trono. Era um governo da ambição e do despotismo onde os guerreiros se sobrepunham a tudo e onde os camponeses e mercadores eram apenas destinados a servir. Contudo, é deste período que nos escreve Wenceslau de Moraes no seu “Relance da História do Japão” quando nos diz:

“O Período de proeminência da família Fujiwara, desde 670 até 1050 foi a idade brilhante da Literatura clássica do Japão. Os complicados caracteres chineses haviam sido adaptados a formarem a língua escrita dos nipónicos; mais tarde, vinha a invenção de um silabário, ou antes, de dois silabários, facilitar a arte de escrever. O «Kojiki» foi publicado em 712, seguindo-se-lhe de perto o «Nihongi». O ano de 700 dava nascença a dois dos mais famosos poetas japoneses dos primeiros tempo, Akahito e Hitomaru. A poesia atingiu grande desenvolvimento, publicando-se volumosas antologias. Finalmente, sucedeu que os nobres eruditos se deram a enfronhar-se pelo árido estudo dos livros que da China lhes chegavam, comparável à dos antigos literatos europeus, o curioso facto das damas da corte japonesa, ignorantes da língua chinesa, começarem a escrever, na chã linguagem nacional livros encantadores – poesias, diários, impressões, romances."

Assim o primeiro passo dado no sentido da criação intelectual nasce com o “Kojiki” ou “Furukotofumi” (古事記), literalmente significando “o livro das coisas antigas”. Este livro contém essencialmente relatos mitológicos e apresenta a criação simultânea do Universo e de três divindades invisíveis: Centro do céu, Augusto Criador e Divino Criador. Durante a constituição do nosso mundo, sobre a massa ainda deforme, brotaram ainda outras divindades celestes incorpóreas, nascidas do primeiro rebento de junco. Da terra ainda em metamorfose começaram as sete gerações da era divina com o Eterno da Terra e o Rebento Fértil, que se complementaram mais tarde com a aparição das divindades irmãs, masculina e feminina do barro e da areia, da semente e da vida, os irmãos e senhores do Grande Palácio. Este texto é importante na relação com o Xintoísmo. No fundo, é a explicação mítica da formação do Universo, até chegar à aparição dos primeiros povoadores lendários da terra, aos irmãos Izanagi e Izanami.

O “Nihongi” ou "N
ihonshoki" (日本書紀) por sua vez, conta a origem lendária do próprio Japão. Foi redigido no idioma importado pelos nobres, o chinês e trata-se de um texto essencialmente elaborado segundo os preceitos da corte, no qual se misturam os mitos ancestrais com a veracidade histórica, distinguindo-se do Kojiki nas suas exposições mitológicas.
Aqui fica apenas uma primeira abordagem histórica. Sempre que possível vou tentar avançar em termos cronológicos até chegar aos dias de hoje.

Sara F. Costa

3 comments:

Kiyoshi said...

Muito bem, uma verdadeira aula de História do Japão.

mspirit said...

Muito bom resumo do "inicio" das historia litteraria japonesa.
Para aqueles que ficaram com duvidas acerca da afirmação "Este livro contém essencialmente relatos mitológicos e apresenta a criação simultânea do Universo e de três divindades invisíveis: Centro do céu, Augusto Criador e Divino Criador" o primeiro volume conta a idade dos deuses que inclui Amaterasu a Deusa do sol e do seu neto Ninigi. E aquele designado por Augusto é o primeiro "imperador" japonês Iware. (Augusto é uma referencia ao primeiro imperador Romano). Para aqueles mais interessados no assunto e que percebem francês, este site: http://japonline.free.fr/Encyclopedie-Kojiki-le%20livre.htm tem uma versão flash resumida do kojiki. Eventualmente sou capaz de traduzir esta versão resumida para o blog... se tiverem interesse claro.

Sibyl Vane said...

Kiyoshi, obrigada pelo elogio e pelo apoio. :)

mspirit, obrigada por teres esclarecido esse ponto, realmente algumas referências podiam não ser tão imediatas. Quanto à tua ideia de traduzir o Kojiki acho que seria totalmente interessante para o clube.

Sara