8.8.09

O Samurai de Shusako Endo 遠藤 周作

Quando pode a ambição ser legitimada? A ambição pelo material sempre foi condenada pela moral cristã como um pecado medonho. No entanto, quando a ambição pretende servir intentos maiores, os da “salvação”, os da “ascensão ao etéreo”, onde se localiza a frágil linha fronteiriça da verdade teológica e da decência humana, isto é, quando uma não tenta encobrir a outra?




O livro “O Samurai” de Shusako Endo faz-nos mergulhar numa profunda reflexão sobre estas temáticas. No século XVII quando o padre franciscano Velasco, inspirado na personalidade de Luis Sotelo (1574-1624), se instala no Japão para aí residir durante dez anos confronta-se com uma curiosidade avassaladora e uma paixão pela missionação de tal forma feroz que o faz questionar a origem de tal desígnio que mais soa demoníaco do que celestial. A altura da missionação de Sotelo dá-se durante o inicio da época de Tokugawa num período de transição entre um Tokugawa moderado e um Tokugawa extremista que isola o país do resto do mundo como veio a acontecer aquando do Sakoku 鎖国. Velasco é durante muitos anos perseguido, noutros preso, noutros utilizado pelo governo central como intérprete, visto ser dos poucos ocidentais da altura a dominar a língua japonesa. O culminar da sua actividade e estratégia de evangelização ocorre quando consegue organizar uma viagem pelos mares até ao México com o intuito de, a troco do estabelecimento de trocas comerciais do Japão com os países ocidentais, este permitir a evangelização livre em terras do Sol Nascente.

Por um lado temos Velasco, que domina o fio condutor da história, lhe dá seguimento e corpo. Do outro lado, acompanhamos a vivência de Hasekura Rokuemon inspirado em Hasekura Tsunenaga (1571-1622) – também personalidade verídica, um samurai menor, se é que se pode falar em 'menor'. Durante o período Tokugawa as guerras eram escassas e o papel do samurai de uma maneira geral era quase simbólico. Assim sendo, apesar da função bélica de soldado do samurai, durante este período os samurais não eram mais do que responsáveis locais por terras, ao serviço de poderosos damiyos. Esta condição histórica é reflectida no livro, os samurais do passado eram símbolo de poder, e eram preciosos. Agora, no entanto, limitavam-se a tomar conta de pequenos terrenos não podendo sequer ocupar as terras que os seus antepassados tinham conquistado com o seu próprio sangue durante o período de guerra Azuchi-Momoyama. Este facto é-nos lembrado ao longo do livro nas lamentações do tio do samurai, como uma chama que consome a sua débil saúde e a sua dignidade.


A personagem de Hasekura inspira o título do livro, mas qual a sua função, afinal, na obra? Hasekura é antes de mais um símbolo do tradicionalismo, ele é o “japonês” de origem, de gema, que o autor quer explorar como quem explora os interstícios de toda uma nação, uma história e uma personalidade colectiva. Hasekura é um dos enviados na missão que Velasco tratou de engendrar.
Conformado com a ideia de passar o resto da vida a trabalhar com os agricultores da sua pequena aldeia junto ao lago, perpetuando os mesmos rituais baseados na colheita e nas condições climatéricas - numa ligação à terra e ao espaço- ano após ano, como uma forma de vida segura, quando confrontado com a ideia de atravessar os oceanos, Hasekura é violentamente assolado por uma fricção contra o desconhecido - sabemos que é desta altura que vem a noção de sotto 外em oposição ao uchi家, como características essenciais da personalidade colectiva japonesa e isso é magistralmente retratado na prosa de Endo.



Painting of the embassy of Hasekura Tsunenaga to Rome. The embassy is shown discussion with the Franciscan Sotelo. Sala Regia, Palazzo Quirinale, Rome. 1615 painting.


O autor joga com um notável conhecimento de causa entre dois paradigmas – o olhar do estrangeiro cristão sobre os japoneses e o olhar dos japoneses sobre o estrangeiro e sobre a sua religião. Sendo ele próprio um japonês praticamente 'obrigado' a converter-se ao cristianismo tornando-se mais tarde num cristão devoto, ele poderia melhor do que ninguém explorar estas componentes baseadas na percepção e no confronto de morais. É precisamente devido a isso que Endo disse em várias entrevistas que este livro tinha um pendor claramente biográfico. E não, não foi porque ele viveu durante o período de Tokugawa, mas, reflectindo na experiência pela qual atravessa Hasekura, é fácil compreender o que quis o autor dizer com isso, o teor biográfico é um teor espiritual.

Velasco revela-se uma personagem de grande complexidade entre a ambição e a arrogância e a dedicação absoluta a uma finalidade que considera superior. O clímax da compreensão da personagem/personalidade dá-se quando nos apercebemos que a sua paixão pela evangelização é em simultâneo a sua paixão pelo Japão. “Ó Japão! Quanto mais obstinado és, mais o meu espírito se inflama. Estou atraído por ti, Japão, como se não houvesse outra nação no mundo.” ( pág. 105 ed. Dom Quixote de 1987). De facto, desde a chegada do português Francisco Xavier em 1549 que algo ficou claro do ponto de vista académico, os primeiros japonólogos foram os missionários. Aprenderam a língua, compreenderam os costumes, juntaram-se aos japoneses nas suas vivências, estudaram com minúcia o budismo e o xintoísmo para poderem apreender pontos comuns para a evangelização. O Japão que nos seduziu com a sua cultura moderna, pelos vistos já seduzia desde o tempo dos xogunatos.




Hasekura choca-se com a paixão de Velasco porque foi educado num país onde os excessos não são bem-vindos e no entanto Velasco sabe que “Talvez, apesar me odiar, este homem se sinta atraído por qualquer coisa que eu significo.” ( pág. 79 ed. Dom Quixote de 1987). Por algum motivo os japoneses sempre aprenderam com os estrangeiros apesar de uma sempre presente desconfiança e um profundo zelo.



Velasco ajuda-nos a compreender a natureza teológica e espiritual do Japão:


“Era fácil ensiná-los que a vida é transitória. São sensíveis a este aspecto da vida. E são-no tão profundamente que escrevem versos inspirados nessa emoção. No entanto, os japoneses não tentam ir além desse conhecimento. Não desejam de modo algum retirar consequências desse facto. Repugna-lhes fazer distinções claras entre o homem e Deus. Para eles, se há algo superior ao homem, é aquilo em que o homem se pode tornar ele próprio um dia. O Buda, por exemplo, é um ser em que o homem se pode transformar se abandonar as ilusões. Até a natureza, que para nós é algo absolutamente à margem do homem, é para eles uma existência que envolve a humanidade.”...”É por isso que os japoneses não podem acreditar no nosso Deus, que reside num domínio separado do homem.” ( pág. 174 ed. Dom Quixote de 1987)




A borboleta como símbolo da morte é a personificação da efemeridade na cultura japonesa.

Hasekura olha para aquela pequena estátua que existe em todas as casas no México, em Espanha e em Itália. Aquele homem magricelas espetado numa cruz. “Como poderia venerar alguém tão fraco, tão miserável?” questiona-se o samurai. Quando Hasekura é forçado a converter-se ao cristianismo em nome da sua missão ainda não compreende a mensagem daqueles estrangeiros e acima de tudo sofre de um profundo sentimento de traição.


“Os Japoneses nunca viveram a vida como indivíduos. Nós, missionários europeus, não tínhamos consciência disso. Suponhamos que tínhamos aqui um japonês. Tentamos converte-lo. Mas jamais existiu um indivíduo a quem pudéssemos designar «Ele» no Japão. «Ele» tem uma aldeia atrás de si. Uma família. E mais. Há também os parentes falecidos e antepassados.”
… Os japoneses dizem «Acredito que os ensinamentos de Deus sejam bons. Mas estaria a trair os meus antepassados se fosse para um Paraíso onde eles não pudessem habitar. As nossa ligações com os nossos pais e com os nossos antepassados são muito fortes». Deixai-me salientar que não é uma questão simples, a adoração dos antepassados. É uma fé que limita e constrange.
( pág. 173/174 ed. Dom Quixote de 1987)


A missão resultou num nada absoluto. O governo mudou aquando da estadia dos enviados no estrangeiro e aquilo que era a sua missão quando partiram já não é nada quando regressam. Esta missão é um total buraco negro na história do Japão, não é pelo valor histórico que ela está aqui representada.


Painting of Hasekura Tsunenaga by Deruet in 1615. Right: Ship detail of the painting enlarged


É nesta profusão de sentidos que o livro nos surge como muito mais do que uma mera representação histórica de factos, muito mais do que o retratar de uma das primeiras missões japonesas ao ocidente mas sim como uma viagem ao interior do pensamento que nos destinge e nos torna fruto espiritual do nosso espaço, numa avaliação sociológica das condutas individuais.
Claro que há nuances, há divergências internas, durante a missão Velasco lida com muitos tipos de japoneses mas o autor quis focalizar Hasekura como uma personagem standart, um protótipo. Ao ler o livro perguntamo-nos se a história não se deveria centrar no curioso e aventureiro Nichi, um samurai japonês diferente, com um espírito aberto muito pouco comum. Mas o autor teve claramente intenções especificas ao destacar Hasekura.


Não só a missão no Japão fracassou como a missão no estrangeiro e na ambição de Velasco em tornar-se Bispo do Japão fracassou devido a interesses terceiros, invejas e egoísmo. Hasekura sente-se tentado a resumir que mesmo sem sair do Japão, já tinha conhecido o mundo. O mundo são as pessoas e as pessoas são as mesmas, guiam-se pelos mesmos instintos corrompidos em todo o mundo. E no entanto, face ao abandono do homem pelo próprio homem, é aí que reside o espaço destinado à tentativa de compreensão do etéreo, à compreensão da existência de uma entidade que nos acompanhe na nossa miséria humana, na nossa condição desgastada.
De volta a um Japão devotado à perseguição sangrenta pelos cristãos, escusado será referir o martírio pelo qual atravessaram os convertidos em missão e posteriormente o Velasco ou Padre Sotelo que regressa propositadamente ao Japão para aí ser enclausurado e condenado à morte.

Numa espécie de fábula negra, “O Samurai” representa as consequências das vários formas de convivência humana com o divino.
Sara F. Costa

2 comments:

L said...

“Era fácil ensiná-los que a vida é transitória. São sensíveis a este aspecto da vida. E são-no tão profundamente que escrevem versos inspirados nessa emoção. No entanto, os japoneses não tentam ir além desse conhecimento."

Da compreensão da transitoriedade da vida deriva tudo o mais. Perceber tal pode não ser muito difícil, mas viver de acordo com tal conhecimento...

O zen é, para um ocidental, a mais simples das filosofias de vida (à falta de melhor expressão) e, simultâneamente, a mais complexa.

annabel lee said...

Claro, a citação é da personagem de Velasco, o missionário. Naturalmente, é uma reflexão limitada pois era essencialmente na fé que os missionários eram intransigentes e obviamente faziam observações redutoras sobre aqueles que não cediam facilmente à sua evangelização. :)