20.8.09

O Templo Dourado 金閣寺 - Yukio Mishima 三島由紀夫


Quando visitava o Templo Dourado em Kyoto (金閣寺 kinkakuji) não consegui evitar de me inebriar com a consciência do carácter histórico daquilo que via diante de mim e do carácter devoto presente nas fábulas que inspirou. O templo data dos fins do século XII e foi mandado construir pelo neto de Ashikaga Takauji (fundador da Era Ashikaga), Ashikaga Yoshimitsu, fazendo parte da sua moradia. Mais tarde o seu filho tornou o Kinkaku num templo dedicado ao Budismo Zen.



Sofreu alguns contratempos, ardeu durante a guerra de Ōnin e ardeu novamente mais tarde, em 1950 às 2:30 da manhã pelas mãos de um monge que o habitava chamado Hayashi Yoken.
Após colocar o fogo Hayashi Yoken tentou suicidar-se na montanha Daimonji mas sem sucesso. Foi condenado a sete anos de prisão mas saiu ao fim de cinco anos uma vez que foi considerado portador de um distúrbio mental. Morreu, no entanto, devido a uma outra doença pouco depois de 1956. A estátua de madeira original preservada há cinco séculos de Ashikaga Yoshimitsu ardeu durante este incidente.

Porque relato o episódio de Hayashi Yoken? Porque este episódio é o mote do livro de Mishima.
Mizoguchi é a personagem que encarna a vida deste monge, narrador presente e omnisciente, que nos relata o seu passado. Acompanhamos a sua vivência desde a sua nascença em Shiraku até ao momento em que parte para Kyoto e se torna num estudante universitário e acólito do templo. Sofria de gaguez e sofria de uma certa misantropia. Era obcecado com um ideal de beleza enquanto se sentia, ele próprio, “um exemplo único de fealdade”.

Depois de falar eu perguntava a mim mesmo porque razão gostava tanto de provocar dúvidas no espírito dos outros. Quanto a mim não havia a mais leve dúvida. A questão era evidente: os meus sentimentos sofriam de gaguez. Nunca emergiam a tempo. Em resultado disso, a morte de meu pai e a minha tristeza eram duas coisas isoladas que não se relacionavam nem interferiam uma com a outra. Uma ligeira discrepância no tempo, uma ligeira demora, fazem com que os sentimentos e os acontecimentos que tenho vivido voltem à sua condição desconjugada, a qual, tanto quanto me diz respeito, é provavelmente uma condição fundamental. (69)*
Sendo um dos livros mais populares de Mishima, é uma obra cujo conteúdo se enquadra no seguimento do mesmo estilo reflexivo de “O Marinheiro que perdeu as graças do mar” 午後の曳航.

Isto porque grande parte da acção decorre no pensamento das personagens, como numa permanente procura da inteligibilidade dos seus mais profundos devaneios filosóficos.
O Templo Dourado é claramente um mote para Mishima expor muito de si transmitindo em simultâneo uma empatia para com o monge incendiário, dando-nos uma linha condutora para que também nós lhe possamos compreender a aparente loucura que mais não será do que lucidez.

Lucidez segundo a óptica do autor que sabemos peculiar. Mishima deixou muitos escritos ideológicos tais como 楯の会(Tate No Kai) – cujo título em inglês é An Ideology for an Age of Languid Peace e tendo conhecimento deles é impossível ler-se a sua ficção sem a relacionar com obras de diferentes caracteres mas contíguas em teor.

Se para Mishima a guerra era um impulso para a vida por conferir energia à nação em vez de se deixar adormecer na letargia da paz, este pensamento é largamente explanado nas palavras de Kawagashi, o amigo de pernas aleijadas de Mizoguchi.

Como te parece que se conseguiu manter a paz e a ordem durante a guerra se não pondo em cena exposições públicas de morte violenta? O motivo por que as execuções públicas acabaram foi, creio bem, o receio de que o povo se tonasse sanguinário. Estúpidos! As pessoas que removiam os cadáveres depois dos bombardeamentos aéros tinham todas expressões gentis e alegres. Ver seres humanos na agonia, vê-los cobertos de sangue e ouvir os seus gemidos de morte, torna as pessoas humildes. (…) É numa bela tarde primaveril como esta que as pessoas, subitamente, se tornam cruéis. (…) Todos os pesadelos do mundo, todos os pesadelos da história nasceram assim. Mas quando uma pessoa se senta num dia claro é a ideia de figuras ensanguentadas e agonizantes que dá o esboço nítido do pesadelo e ajuda a materializar o sonho em realidade. O pesadelo já não é a nossa agonia, antes o violento sofrimento físico dos outros. (145)*
Foto de Yukio Mishima, tão obcecado pela literatura como pelas artes marciais e o Bushido


Ao longo do livro estamos permanentemente envolvidos pela alucinação sufocante com a qual Templo Dourado envolve Mizoguchi.

Seria que eu possuía o templo ou era por ele possuído? Não seria antes mais correcto dizer que um ponto de equilíbrio se formara naquele momento, um equilíbrio que me permitia ser o Templo Dourado e o Templo Dourado ser eu? (174)*
Mishima é um autor ferido pela humilhação da derrota e pela ocupação estrangeira. A conversa final entre as duas personagens cai em algo que também é próprio à sua perspectiva de caminho correcto do Japão pós-guerra, a perspectiva de que o conhecimento poderá superar a acção como forma de salvação, já que foi a acção que levou à rendição.

É um livro complexo de teor reflexivo que nos desfia ideias mas sem respostas lineares ou simplistas e portanto, também uma obra que só pode ser considerada em todos os aspectos perante uma dedicação académica.

Foi publicada pela primeira vez em Portugal em 1972 pela Pareceria A.M.Pereira Lda e tem agora reedição recentíssima da Assírio&Alvim que já era bem necessária.


Bibliografia:
Mishima, Yukio, O Templo Dourado, Trad. Filipe Jarro, Assírio&Alvim, Lisboa,2009
*Mishima, Yukio, O Templo Doirado, Trad.Maria Ondina Braga, A.M.Pereira Lda, Lisboa 1972
Mishima, Yukio. The Temple of the Golden Pavilion. Trans. Ivan Morris. New York: Vintage Books, 1994. “An Ideology for an Age of Languid Peace.” Japan Interpreter 7.1 (1971): 79-80.
Sara F. Costa

3 comments:

L said...

Um dos livros que mais vezes li. E perturba-me sempre.

Anonymous said...

Uma reflexão violenta sobre a beleza.

NanBanJin said...

Entre os meus favoritos de sempre.

Nunca me canso de recomendar o "Kinkaku-Ji" a seja quem fôr que revele um mínimo de interesse que seja pela vida e obra do Grande Mishima.

L.F. Afonso, Fukuoka, Japão