11.5.17

"Desconhecidos", de Taichi Yamada






Editora: Civilização (1987; Edição Portuguesa de 2005)

Sinopse: O livro não apresenta sinopse, mas na capa e contra-capa tem duas frases:
  • "Altamente recomendado. Uma história de fantasmas cerebral e perturbadora que me induziu completamente em erro.", de David Mitchell
  • "Uma arrepiante história de fantasmas escrita com hipnótica clareza: de ritmo rápido, inteligente e assombrosa, com passagens de uma intensa percepção das relações entre pais e filhos, o que torna tão comovente este fascinante livro.", de Bret Easton Ellis, Autor de Psicopata Americano

Opinião: Taichi Yamada é um autor japonês que já conhecia, porque já li outro livro dele e gostei bastante. Ele escreve sobre morte, fantasmas e suicídios, de acordo com a cultura japonesa, temas que me interessam muito. Novamente, a escrita do autor não desiludiu, é feita de forma suave, fluída e concisa, incorporando aspectos da cultura japonesa com o desenrolar da acção e um pouco de terror.

A história desenrola-se à volta de Hideo, contada na 1ª pessoa. Trata-se de um homem de meia-idade, recentemente divorciado , guionista de séries de TV, com uma posição economicamente confortável e que mora sozinho, apesar de ter um filho. O sua relação e o seu divórcio não correram da melhor forma e o relação actual com o seu filho é bastante distante. O seu próprio passado foi difícil, visto que ficou órfão aos 12 anos, após um acidente que matou os seus pais.
Além de toda a  escrita introspectiva e virada para os pequenos pormenores, como é bastante típico da cultura japonesa, as descrições não são maçudas nem lentas, tudo se desenrola a um ritmo assombroso. Hideo fala-nos do seu dia-a-dia, da sua vida de casado, das suas amizades e de uma mulher, a Kei, que mora no seu prédio e conhece recentemente. Fala-nos também da sua ida à aldeia natal, onde no meio de uma viagem nostálgica pelas ruas e edifícios da aldeia conhece um casal bastante curioso! É aqui que começa a escrita de terror, pertubadora. De uma forma muito simples e cuidada, Hideo descreve os acontecimentos e as interacções que tem com esse casal e como isso o perturba (a ele e a nós!!). Após as suas repetidas viagens à sua aldeia natal, vê-se confrontado com uma realidade surreal, que não entende, mas que o conforta e o faz reflectir sobre a sua vida actual. No entanto, estas viagens trazem consequências graves, que o afectam, apesar de ao início ele próprio não se aperceber do que está a acontecer. É Kei que insiste que ele não está bem e que deverá desistir das idas à aldeia. 

"Neste ponto da história, a minha empatia por Hideo era enorme. Ao ler a história apercebi-me que o que lhe aconteceu era algo que eu gostaria que me acontecesse a mim também, por muito más que as consequências fossem e assim, tornou-se uma leitura muito nostálgica, a nível pessoal."

Inevitavelmente, após o finalizar das idas à sua aldeia, a acção decorre, aparentemente sem surpresas e então o twist final acontece! Eu não estava NADA à espera disto! Apesar de ter havido uma espécie de premonição no início, fiquei completamente estupefacta e com um misto de terror tive algum receio de ler e curiosidade ao mesmo tempo (sabem aquela sensação quando lêem um thriller e querem saber tudo e ao mesmo tempo não querem?!! Pois, era isso!). O final, à boa moda japonesa, é fantástico! Deixa espaço para reflexões sobre coisas tão comuns e importantes como relações entre pais e filhos, morte e o além-morte. Há todo um tabu antigo na cultura japonesa que vai contra o estar em comunhão com os mortos e isso está muito bem descrito e explorado no livro. Mesmo assim, quem não gostaria que lhe acontecesse o mesmo que aconteceu ao Hideo? Eu de certeza não me importaria de ter uma experiência semelhante!
É uma história linda, que emociona e nos faz reflectir sobre a vida.

Por Cristina Gaspar


Opinião em video: https://youtu.be/elYxfg6YbIs


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